Passo em Falso

O estrondo seco dos seus corpos despencando no chão ecoou pela casa inteira. No breu completo, ambos tentavam entender o que diabos tinha acabado de acontecer. Por um instante, que pareceram horas, seus olhos se encontraram à meia-luz da lua. Sem perceber, Josh segurava a coxa de Blair, sentindo sob seus dedos a pele quente, macia e molhada dela, foi quase involuntário o desejo de apertá-la contra si. O espaço quase inexistente entre eles, o toque firme dele sobre sua pele, fez o corpo de Blair arrepiar involuntariamente. Mesmo com a pouca luz vinda da janela, ela conseguia ver os olhos dele, agora num tom cinza, presos nos seus lábios. Havia algo naquele olhar… confusão, desejo... e tudo no meio do caminho. Ali em cima dele, perigosamente perto de seus lábios Blair se perguntou como seria sentir aqueles lábios pelo seu corpo, pelo seu pescoço e até pelo meio de suas pernas…

— MAS QUE PORRA É ESSA?! — berrou Liam, surgindo do nada com uma lanterna em mãos, a luz iluminando a cena de sua irmã quase nua em cima de seu melhor amigo. Jane surgiu logo atrás, parando no fim da escada. Assim que entendeu o motivo do grito, a morena mordeu os lábios para conter o riso, enquanto encarava o olhar desesperado de Josh e Blair.

— É... — Josh tentou dizer algo, mas a única cabeça funcionando naquele momento não era a de cima. Ele vasculhava o cérebro em busca de qualquer explicação minimamente razoável, o que só fez Jane explodir em gargalhadas e Liam ficar ainda mais puto.

De repente, a luz voltou. Todos se entreolharam.

— Ai, para de drama, Liam! Eu tropecei e, por coincidência, o cabeção tava bem aqui pra amaciar a queda — Blair respondeu como se aquilo fosse um episódio corriqueiro. — Não

precisa surtar, maninho.

Com a maior cara de paisagem do mundo, Blair se levantou e subiu para o quarto como se nada tivesse acontecido, deixando para trás um Josh desnorteado e um irmão raivoso.

— Cacete... — Ela murmurou para si mesma ao fechar a porta atrás de si. Ainda estava em choque com o que aconteceu. Só percebeu o quanto aquilo tinha mexido com seu corpo ao notar a umidade entre suas pernas.

Enquanto isso, do outro lado do corredor, Josh encarava a ereção saliente em seu short. Ficou ali, imóvel, tentando entender o que acabara de acontecer. A sensação da pele de Blair grudada à sua, seu corpo perfeitamente colado ao seu... ele não conseguia tirar aquilo da cabeça.

“Você tá maluco? É a Blair, caralho” ele se repreendia. “A irmã do seu melhor amigo... é

praticamente tua irmã também! Idiota!”

Os pensamentos não paravam. Então, sem alternativas, Blair foi para o banho gelado. A água escorria, mas não levava os pensamentos embora. Era sempre a mesma imagem: os olhos de Josh nos dela. Não que eles nunca tivessem passado por situações estranhas... mas aquilo foi diferente. Intenso. Ele nunca olhou pra ela daquele jeito. Era como se também quisesse aquilo.

Na manhã seguinte, Blair acordou sem o som familiar do despertador já que o coitado tinha sido praticamente assassinado na cabeça de Josh no dia anterior.

— Droga! Droga! Droga! — gritou, pulando da cama e correndo até o closet. Pegou a primeira roupa que viu e desceu as escadas.

Na cozinha, Josh preparava o café. Talvez fosse por causa da noite anterior, mas ele parecia... até bonito. Camiseta larga, cabelo bagunçado, cheiro de café e panquecas. Quase uma cena de comercial de margarina, se ela não sentisse até agora a mão dele em sua coxa.

Blair entrou na cozinha como se não tivesse passado a noite inteira suando frio, tentando esquecer a ideia de transar com o melhor amigo do irmão… e seu ex melhor amigo.

— Bom dia — disse casualmente.

— Bom dia, baixinha — respondeu ele a olhando rapidamente, logo voltando a atenção para as panquecas.

— Hummm... cheirinho bom — ela comentou, sentando-se no balcão. Ele colocou duas panquecas no prato dela.

Só depois de alguns segundos é que Josh realmente a olhou. E então franziu a testa.

— Especialidade da casa — ele riu sem som ao fitar a blusa da ruiva — Tá tudo bem com você?

— Hã?

— Sua blusa... — disse ele, colocando uma garfada na boca — tá do avesso.

— Ah, merda. — Blair riu. Em um movimento rápido, tirou a camisa e a vestiu de novo, agora do lado certo.

Um silêncio estranho pairou no ar e depois de alguns segundos ela voltou sua atenção para Josh, que mais parecia uma estátua fitando a "blusa" da garota. Quando a ficha finalmente caiu, ela finalmente percebeu que havia tirado a blusa na frente dele. Não era como se fosse o fim do mundo, já que havia feito coisas do tipo muitas outras vezes. Não era nada demais... Pelo menos não até a noite passada.

Ele pigarreou, tentando agir casualmente, colocou outra garfada na boca tentando esquecer a cena do sutiã vinho meia taça dela adornando sensualmente seus seios volumosos, mas afinal, desde quando Blair tinha seios? E curvas tão perfeitas? As únicas duas coisas que ele tinha certeza naquele momento era de que: Ela sem dúvida não era mais a garotinha que ele lembrava, e que a visão de seu belo par de seios naquele sutiã vinho, com certeza iria acompanhá-lo por um longo tempo.

— Bom dia, meus lindos! — Liam o tirou de seus devaneios, descendo as escadas quase saltitante, com um sorriso estranho no rosto.

— Credo, que bicho mordeu você? — Blair zombou.

— O nome do bicho é Hannah Davis — Jane respondeu, surgindo logo atrás.

— Hummm... então o negócio é sério? — Blair perguntou, surpresa. Liam nunca foi o tipo "mais de uma noite".

— Com o Liam? Hahaha. Dou dois dias pra ele estar em cima de outra — Jane debochou, e Blair caiu na risada.

De repente, o celular de Josh vibrou na mesa. Blair esticou o braço e olhou a tela. "William".

A expressão dela mudou imediatamente.

— É seu pai... — disse, num tom quase inaudível. De repente o clima pesou enquanto o celular continuava tocando, parecia que Josh estava decidindo se atenderia ou não. Até que num movimento brusco ele pegou o celular e saiu sem dizer nada.

William Foster não era o modelo de pai que Josh merecia, na verdade ele não passava de um tirano com gravata. Dono de um império financeiro em Londres, William era conhecido como "o homem de aço", e fazia questão de lembrar Josh todos os dias do peso de carregar seu sobrenome. Blair odiava isso. Odiava o fato de que desde pequenos William fazia questão de controlar cada passo de Josh.

— Lá vem merda... — Jane disse, sentando ao lado da amiga.

— Hoje vai ser pesado — Blair suspirou.

— Ele dá conta... — Liam tentou amenizar, forçando um sorriso.

O café seguiu num silêncio tenso. Até que Liam decidiu quebrar o gelo:

— Tenho treino na primeira aula. Se eu não for agora, o treinador vai inventar mais vinte flexões. Depois da última semana, ele tá só esperando uma desculpa.

— Eu vou com você — Jane disse, piscando para Blair.

— Você espera ele? — Liam perguntou.

— Sim, vão indo...

Blair escovou os dentes e se jogou no sofá. O relógio parecia zombar dela. No andar de cima, a voz de Josh esbravejava. Era sempre assim. William aparecia, ferrava tudo, e Blair ajudava Josh a juntar os pedaços, mas isso foi a muito tempo atrás. Agora os dois mal trocavam duas palavras sem se alfinetarem. Josh se fechou e Blair... ela decidiu trancar as boas memórias bem no fundo do peito.

Depois de um tempo, ele desceu. O rosto fechado, o olhar pesado. Sem dizer uma palavra, pegou uma maçã e fez um sinal para ela segui-lo.

Caminharam lado a lado em silêncio. Josh com as mãos nos bolsos, o maxilar travado, olhos perdidos no horizonte. Blair tentava entender o que poderia ter acontecido. Algo tinha acontecido com a mãe dele? Ou seria ultimato do pai sobre a empresa? Notas? Nada parecia fazer sentido. E o silêncio dele só aumentava o nó em seu estômago.

— As panquecas estavam ótimas — disse ela, tentando quebrar o silêncio..

— Que bom — respondeu ele, frio. Distante.

— Você tá bem? — ela sabia a resposta, mas precisava ouvir dele.

Ele demorou para responder.

— Não. — A voz dele era seca, quase cortante.

Ela abriu a boca para continuar, mas ele a interrompeu.

— Não quero falar sobre isso.

— Josh… eu sei que não quer, mas ficar aguardando isso só vai piorar as coisas.

— E quem é você pra me falar sobre guardar “as coisas”? — ele esbravejou, deixando Blair pra trás. Aquelas palavras a atingiram fundo, mais fundo do que ela admitiria para si mesma.

Na escola, Blair seguiu direto pra quadra. A segunda aula já estava começando, educação física. Jane se esgueirou até Blair, procurando o irmão com os olhos.

— E aí? O que houve?

— Ele não quis falar. — Blair carregava um leve tom de ressentimento na voz.

— Se nem contigo ele falou... deve ter sido foda.

O treinador apitou:

— Façam duplas!

Jane rapidamente se juntou a Josh, para ver se conseguia tirar alguma informação sobre o que tinha acontecido. O olhar de Blair percorreu a multidão rapidamente, pares estavam se formando em todo canto, Josh e Jane, Liam e Nick, Hannah e Kim. Blair já estava quase perdendo as esperanças de jogar quando uma voz familiar soou atrás dela.

— Parece que só sobrou eu e você… mão pesada. — Blair deixou um sorriso escapar antes de se virar e dar de cara com Trevor.

— Tem certeza que quer ser minha dupla? A chance de sair machucado é grande — brincou ela.

— Acho que vale a pena o risco — ele deu um sorriso charmoso.

Enquanto conversavam, Josh observava à distância. Trevor tinha aquele sorriso de bom moço, mas Josh sabia que aqueles eram os piores. Já tinha ouvido muita coisa da boca das próprias meninas com quem Trevor "ficava", se é que dava pra chamar assim.

O treinador explicou brevemente o jogo: vôlei, duplas, quem fizesse três pontos primeiro ganhava. O jogo correu animado até que o professor anunciou…

— Josh e Jane contra Blair e Trevor!

Os olhares de Blair e Josh se cruzaram. A mente de Blair vagava entre a noite anterior e a forma distante como Josh a estava tratando naquela manhã, como ele tinha o dom de fazer o pouco de carinho que ela ainda nutria por ele evaporar em um minuto.

— Pronto pra perder, Josh? — Trevor alfinetou, mas Josh queria guerra.

Josh sacou. Blair rebateu. O jogo foi acirrado. Blair marcou um ponto, porém um saque certeiro de Jane igualou o placar. Mais alguns minutos de jogo intenso se passaram. A raiva que Josh estava sentindo de William, de Trevor e de si mesmo naquele momento parecia alimentar cada movimento. Trevor, com um ataque certeiro, marcou mais um ponto. Josh nem teve tempo de reagir.

— QUE MERDA! — ele gritou.

Do outro lado da quadra, Trevor puxou Blair pela cintura num abraço apertado e beijou o canto da boca dela.

Blair corou. Jane ficou boquiaberta. E Josh...

Josh ferveu.

Ele odiava Trevor. Odiava mais do que odiava o próprio pai. E talvez... mais do que odiava a si mesmo naquele momento. Porque, no fundo, sabia que estava perdendo a única pessoa que realmente importava pra ele.

O jogo continuou, mas a cabeça de Josh estava prestes a explodir, os olhares de Blair para Trevor, a forma como as mãos dele puxavam a cintura dela como se ela pertencesse a ele… aquilo já era demais. Com toda a raiva acumulada, Josh cortou a bola com uma força brutal.

O som seco da bolada silenciou a quadra.

Trevor caiu no chão com nariz sangrando.

— Josh! Qual é o seu problema?! — Blair gritou, correndo até Trevor.

— FOSTER, ESTÁ EXPULSO DO JOGO! FORA DA MINHA QUADRA! — gritou o treinador.

Josh bufou revirando os olhos, mas obedeceu, afinal já tinha tido problemas suficientes por um dia. Enquanto caminhava em direção a saída ele só conseguia pensar que agora Trevor teria toda a atenção que desejava, se fazendo de pobre coitado. Mas um sorriso reconfortante brotou no canto de sua boca ao lembrar de que pelo menos havia feito um belo estrago na cara daquele babaca.

Blair tentava amparar Trevor que mais parecia mais ter levado um tiro, se apoiando no ombro da garota com uma expressão dor levemente exagerada no rosto. Ambos logo se deslocaram para a enfermaria a pedido do professor que parecia realmente preocupado com o estado do garoto. A luz fria da enfermaria iluminava o rosto de Trevor, fazendo o sangue seco abaixo do nariz parecer mais dramático do que realmente era. Ele segurava uma bolsa de gelo contra o rosto, apoiado na maca, enquanto Blair se sentava na poltrona ao lado, os braços cruzados e a cabeça longe dali.

— Tá com muita dor? — ela perguntou, sem saber exatamente se queria quebrar o silêncio ou apenas calar a própria mente.

Trevor deu um meio sorriso, ainda com a expressão levemente dolorida.

— Dói um pouco... mas não tanto quanto seu soco. — ele brincou. — Pelo menos ganhamos a partida.

Blair riu, um som fraco, mas genuíno.

— É, parabéns. Uma vitória, um hematoma e uma cena de novela. O pacote completo.

— E a garota mais linda do colégio sentada ao meu lado. — ele completou, o sorriso ficando mais suave, menos provocativo.

Ela desviou o olhar, apertando os lábios. Deveria responder com sarcasmo, como sempre fazia. Mas algo nela não estava se encaixando. O olhar confuso, magoado, e furioso de Josh insistia em invadir seus pensamentos.

"Por que ele ficou daquele jeito? Foi só raiva? Ou algo mais… Talvez ciúmes?"

— Eu não entendi o que aconteceu — ela soltou, mais para si mesma do que para Trevor.

— Foi um ataque meio exagerado, né? — Trevor disse, tentando soar leve, mas havia algo por trás de suas palavras. — Não sei qual é o lance de vocês, mas pareceu... pessoal.

— O que? Lance? Não tem lance — Blair disparou. Mas no fundo nem ela sabia o que estava

acontecendo.

— Ele parece... protetor. — Trevor a observava com curiosidade. — Vocês já ficaram? — Ele soltou quase como um tiro e Blair praticamente engasgou.

— Não. Nunca. — Mentira.

— Mas você já quis? — Trevor sabia ser direto à beira do inconveniente. Ela o encarou, surpresa com a pergunta. Ele a olhava com aquele sorriso de canto, meio desafiador. Mas havia sinceridade ali, não só charme. Ele limpou o rosto esperando uma resposta.

— Não — Mentira. Ela deu uma breve pausa pensando em todos os acontecimentos recentes. — Eu não sei o que eu quero — ela respondeu por fim, dessa vez mais honesta do que gostaria. Um silêncio confortável pairou entre eles, como se aquele pequeno desabafo tivesse deixado o ar mais leve.

— Eu sei o que eu quero. — Trevor disse, se inclinando lentamente na direção dela. O coração de Blair acelerou. Ela sentiu o calor dele se aproximando lentamente, o cheiro de seu perfume misturado com suor, sua mente dizia sim mas algo dentro de si estava quebrado a muito tempo. Os olhos de Trevor estavam fixos nos dela, e sua mão deslizou devagar até alcançar a dela, tocando seus dedos com cuidado. — Você é diferente, Jones. E eu não tô falando só do sarcasmo mortal ou da cara de quem não confia em ninguém. — ele sorriu, e ela não conseguiu evitar um sorriso tímido de volta. — Eu gosto disso. Quero ver até onde isso vai.

A cabeça dela girava. Parte dela queria descobrir também. Parte queria se distrair, apagar as últimas 24 horas da memória, o toque de Josh em sua coxa, o calor da pele dele contra a sua, o olhar dele em sua boca, era quase como se ela desejasse que fosse ele ali, a tocando.

Parte sua queria sair correndo. Mas ela ficou. E não puxou a mão como certamente faria em outra ocasião. Trevor se inclinou mais. Seus rostos estavam perigosamente próximos. Blair prendeu a respiração. Os olhos dele desceram até sua boca.

"É só um beijo... você já fez isso antes. É só um beijo."

Mas não era. Porque pela primeira vez em muito tempo, ela sabia que, se beijasse Trevor agora, não seria por ele. Seria por aquele imbecil que não saia da sua cabeça por mais idiota e estúpido que fosse.

— Trevor...

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RabiscadaMenteMeu Deus parece que tô vendo uma série! Tô apaixonada pelo Josh, que homem! Continua pelo amor de Deuuus!
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