Mundo de ficçãoIniciar sessãoTrevor… — ela começou a dizer, mas antes que pudesse concluir, a porta da enfermaria se abriu bruscamente.
— Aqui está! Gaze, pomada e um curativo pra esse mocinho aí. — a enfermeira entrou animada, ignorando completamente o momento interrompido. Trevor se afastou devagar, pigarreando. Blair afastou a mão como se tivesse levado um choque. Ambos ficaram em silêncio enquanto a enfermeira limpava o ferimento, e Blair se perguntava o que diabos estava fazendo. Quando a mulher se virou para pegar os curativos, Trevor aproveitou para sussurrar: — O que acha de ir comigo à festa do lago, nesse fim de semana? Seus olhos encontraram os dele, brilhando quase como uma criança esperando um doce. Ele ainda estava com aquele sorriso no rosto, ainda era charmoso, bonito e... fácil. Tão mais fácil do que lidar com outras coisas. — …Claro. — Ela respondeu baixo, quase como se estivesse tentando se convencer de que queria mesmo aquilo. Mas por mais que sorrisse de volta, ela sabia que uma parte dela queria estar em outro lugar, tentando entender o que realmente havia acontecido naquela quadra e por que, pela primeira vez em anos, Josh Foster havia mexido tanto com ela. Blair subiu os degraus metálicos da arquibancada sentindo o peso do "quase beijo" ainda pairando nos lábios. O treino dos garotos estava nos minutos finais, e Jane e Alexa já a esperavam com expressões ansiosas, claramente tinham ficado ali só pela fofoca. — A lesão foi fatal ou ele sobreviveu? — Alexa perguntou, mal conseguindo disfarçar o riso. — Infelizmente, sobreviveu — Blair respondeu, jogando-se entre as duas com um suspiro dramático. Jane estreitou os olhos, farejando algo além da ironia habitual. — Tá com essa cara aí... de quem quase fez besteira. Blair ergueu uma sobrancelha, tentando manter o desdém. — "Besteira" é uma palavra forte. — Então confirma que rolou alguma coisa — Alexa se inclinou, arregalando os olhos. Ela hesitou por meio segundo, depois bufou. — Trevor quase me beijou. Jane e Alexa se entreolharam, incrédulas. — O QUÊ? — as duas explodiram em uníssono. — Gente, calma! Foi só um momento. Nem aconteceu nada. — Como assim? Por que não rolou?— Jane perguntou, semicerrando os olhos como se estivesse analisando uma cena de crime. Blair revirou os olhos, já na defensiva. — Sei lá. Ele tava sendo fofo. Todo machucado... me olhando daquele jeito, até que a enfermeira chegou e estragou tudo. Alexa abriu um sorriso maroto. Blair engoliu seco e desviou o olhar pro campo. Tudo que vinha em sua cabeça era Josh. Mas ele não estava ali. — O que é que deu no Josh afinal? — Alexa perguntou, acompanhando seu olhar, quase como se conseguisse ler a mente da ruiva. — Drama. — Ela sabia que aquilo não era exatamente a verdade. — Só acho que ele passou dos limites. Ele sendo infantil, como sempre. Jane, que já mexia no celular, franziu a testa. — Falando nisso... ele sumiu. Não responde minhas mensagens. — Nem tá no campo — Alexa notou. — Vocês viram pra onde ele foi? Blair se mexeu no banco, desconfortável. Um aperto silencioso crescia no peito sem seu consentimento. — Deve ter ido embora — disse a ruiva tentando soar indiferente. Jane se levantou, preocupada. — Vou procurar. Talvez esteja trancado no vestiário se pegando com alguém. Assim que Jane se afastou, Alexa se virou para Blair, afinal Blair podia fingir para quem quisesse mas Alexa conhecia bem a amiga que tinha. — Você não vai atrás dele? — Eu? Por que? — Blair cruzou os braços, reativa. — Porque mesmo que você diga que odeia ele, eu acho que você se importa… até demais. Blair encarou o campo vazio, os olhos fixos em nada. Não respondeu. Mas também não negou. Apenas se levantou rumo ao único lugar que sabia que ele poderia estar. A casa estava silenciosa quando Blair entrou. O tipo de silêncio que assusta mais do que conforta, que carrega ausências e deixa tudo mais pesado. Chamou por Josh duas vezes uma pela escada, outra pela cozinha, mas nenhuma resposta veio. Nem música no quarto, nem o ranger da rede lá fora, nem vozes na sala de estar. — Josh? — tentou mais uma vez, andando devagar pelo corredor como se o nome dele pudesse surgir das sombras. Nada. Foi quando um pensamento quase esquecido atravessou sua mente como um raio. O telhado. Subiu as escadas rangentes com o coração acelerado. Cada passo fazia a poeira se erguer como memórias, esquecidas no tempo. Empurrou a pesada tampa de madeira e entrou tossindo ao ser recebida por um cheiro de coisa velha e tempo parado. O sótão estava do mesmo jeito desde quando eram crianças: baús velhos, pilhas de livros mofados, e ao fundo, camuflada entre madeiras e caixas de Natal, a portinha para o telhado, ou como gostavam de chamar... a passagem secreta. Quase invisível, baixinha demais para parecer importante. Mas para eles, aquilo era sua Nárnia particular. O lugar onde o mundo parava e apenas os dois existiam. Blair engatinhou até ela, forçando a tranca antiga com força até ouvir o clique libertador. Empurrou a porta e o ar fresco da noite a recebeu como um velho amigo. Lá estava ele. Sentado na beirada do telhado, de costas pra ela, imerso demais em pensamentos para notar sua presença. O casaco preto cobria os ombros, os cotovelos apoiados nos joelhos. Ela se aproximou cuidadosamente. E então ele passou a mão no rosto. Ela soube, sem sequer precisar ver, que ele estava chorando. Blair caminhou em silêncio, sentando-se devagar ao lado dele. O telhado era mais frio do que lembrava, mas o calor da presença dele compensava. Josh lançou um olhar rápido de canto, enxugando o rosto com a manga do moletom como se aquilo pudesse apagar o que estava sentindo. — Hey... — forçou um sorriso, rouco. Blair não respondeu. Apenas o abraçou. Um abraço lento, cheio de ternura. Ele hesitou por um segundo antes de afundar o rosto no ombro dela. — Você sabe que não precisa fingir estar bem, né? — Eu tô bem... — a voz dele saiu baixa, quebrada, quase um sussurro. — Eu percebi, pela poça de lágrima aqui em baixo — brincou, finalmente tirando um riso dele. — Você venceu. — Ele olhou para o céu,suspirando pesadamente. As lágrimas, agora escorriam sem cerimônia. — "Amigos para sempre", lembra? — ela disse o fazendo rir, um riso curto e triste, como se a lembrança doesse demais. — Não consigo esconder nada de você, não é? Josh envolveu os ombros dela com o braço, puxando-a para mais perto. Ela ficou ali olhando pra ele, como se esperasse uma explicação, até que ele finalmente desistiu. — É o velho me enchendo outra vez... — ele disse ainda fitando o céu noturno. A voz dele endureceu. — William Foster acha que pode decidir cada passo da minha vida como se eu fosse só mais um projeto dele. Tipo um pôster ambulante da família perfeita. Faculdade, trabalho, controle absoluto. Pouco importa se eu odeio tudo que ele preza. Odeio quem ele me faz ser. Blair ficou quieta. A única coisa que conseguiu fazer foi segurar o ombro dele com força, como se dissesse: "tô aqui." — Ele me matriculou na faculdade... em Londres. — ele soltou a bomba sem aviso prévio. Seu maxilar endureceu tentando segurar as lágrimas que insistiam em cair. — Ele quer me tirar o único lar que já tive... da minha única família. A ideia de passar quatro anos sem Josh era um peso que ela nunca tinha sentido antes. Na verdade, nunca achou que pesaria tanto, mesmo depois de todos aqueles anos, depois de todas as brigas, as discussões, eles sempre estiveram juntos. Ela não conseguia acreditar, sabia que William não prestava, mas isso? Havia passado dos limites. Ele sabia dos planos que os quatro tinham de se formar em Honesdale e viajar juntos. Por que destruir a alegria do filho, apenas pra satisfazer seus caprichos? — A gente vai te sequestrar... é isso. — Ela falou fitando o vazio e Josh riu sem humor. — Aí ele coloca a polícia, a CIA e a guarda costeira atrás da gente. — ele rebateu, e a ruiva riu, sabendo que William realmente seria capaz disso. Uma brisa fria soprou, fazendo os galhos das árvores balançarem lá embaixo. Blair tremeu, encolhendo os ombros. Sem dizer nada, Josh a puxou mais uma vez, abraçando-a com carinho. O calor do corpo dele preencheu o vazio que o vento havia deixado, e o perfume que ela conhecia tão bem - algo entre hortelã e madeira - invadiu seus sentidos. — Eu vou dar um jeito... — Ele a puxou contra si, finalmente tomando coragem de olhá-la. Seu rosto estava abatido, e Josh pôde ver uma lágrima escorrer pela bochecha dela. — Eu vou dar um jeito de te irritar por muitos anos baixinha — Ele disse, limpando as lágrimas que insistiam em rolar pelo rosto dela. Ela sorriu fitando a cidade. Blair se permitiu relaxar, os olhos se perdendo nas luzes baixinhas da cidade. Lá de cima, tudo parecia tão... distante. Irreal. A lua iluminava as casas e telhados como se pintasse uma nova versão do mundo. Um mundo só deles. — Faz tempo que não venho aqui... — ela murmurou. — Tinha esquecido como essa vista é linda. Josh se virou devagar fitando Blair, os cabelos ruivos dela dançavam com o vento, seus olhos verdes agora estavam praticamente castanhos, sua pele tão clara como a lua carregava um brilho que ele não via a muito tempo. Por um minuto ele ficou ali, perplexo ao lembrar de como ela era linda. — É linda mesmo... — ele disse sem tirar os olhos dela.Blair sorriu, sem perceber que ele não estava se referindo à vista ou à cidade. — Como me achou? — ele perguntou, baixinho. Ela respirou fundo, sentindo o peito pesar. — Eu... me lembrei de que era aqui que eu me escondia, todas as noites, depois que meus pais morreram. — a voz dela falhou por um segundo, mas continuou. — Você vinha aqui. Todos os dias. Ficava em silêncio até eu falar. Ficava até eu dormir. Você me ajudou a não desmoronar... mesmo quando nem eu sabia do que precisava. Ele abaixou o olhar, engolindo seco. O silêncio dominou o ar, mas Blair sabia que já estava na hora de abaixar suas barreiras, não por ela, mas por ele. — …a gente subia aqui achando que era tipo... um esconderijo secreto, né? — ela continuou com um meio sorriso. — Como se o mundo inteiro desaparecesse quando a gente passava daquela portinha. Josh soltou um som baixo, quase uma risada. — A gente era bem idiota. — ele disse. — É. Mas era mais fácil assim. Ele assentiu, sem olhar. — Muito mais do que agora — ele disse suspirando pesadamente. Blair esticou as pernas, os olhos vagando pelas luzes da cidade. — Tudo parece... diferente. — Ou talvez a gente só não esteja mais tentando fingir que nada mudou — ele respondeu, ainda olhando à frente. — Às vezes eu sinto que a gente virou outra coisa. Não sei se é melhor ou pior. Só é... estranho. Josh finalmente olhou pra ela. Não com intensidade. Com um certo cuidado, como se qualquer palavra errada a fizesse quebrar. — A gente cresceu. — ele disse e Blair franziu o nariz. — Detesto isso. — Eu também. Principalmente a parte em que crescer significou se afastar. — era a vez dele de se abrir, e ele o fez. Ela o olhou rápido, mas desviou, como se eles tivessem chegado fundo demais, mas já era tarde demais para voltar — Você ficou mais quieta — comentou ele, depois de um tempo. — E você mais distante... e idiota. Ele não respondeu de imediato. Apenas puxou o moletom pelas mangas como se estivesse com frio, ou tentando se proteger de si mesmo. — Eu não queria. — Eu sei. Outro silêncio. Dessa vez, não tão confortável. — Às vezes eu fico lembrando de como tudo começou a mudar... — Blair falou baixinho. — A escola nova, Liam, as brigas com seu pai... a gente parou de se olhar do mesmo jeito, acho que porque parecia... mais seguro. — Josh não respondeu. Só ficou ali, ouvindo. — Ainda mais depois daquela noite... — ela continuou, mais como se pensasse em voz alta do que realmente quisesse dizer — aquela noite que você me beijou. — ela não podia acreditar que estava conseguindo dizer aquilo em voz alta. Ele não se mexeu. Nem um músculo. Blair soltou um riso breve, seco. — Ridículo como uma coisa que durou segundos pode foder a gente por anos, né? Só então Josh falou. — Não foi ridículo. — Ela virou o rosto pra ele. Ele mantinha os olhos fixos no céu, mas a expressão estava mais séria. — Foi a primeira vez em muito tempo que eu me senti... eu. Mesmo sabendo que não iria durar... que não podia durar. — Blair sentiu o coração apertar no peito. Mas ele finalizou… — A gente prometeu nunca mais falar disso. — É. Mas algumas promessas são só maneiras elegantes de fugir da vida — ela virou o rosto pra frente outra vez. O ar parecia mais denso. As palavras tinham gosto de coisa não resolvida. — Josh... — ela começou, mas parou. Ele finalmente olhou pra ela. Havia algo nos olhos dele que não era pressa. Algo paciente, e mesmo assim, à beira do colapso. O modo como os olhares se encontraram não era novo. Era familiar. Quente. Quase perigoso. Ele se inclinou, devagar e ela seguiu, como uma dança lenta. Um gesto quase inconsciente... até não ser mais. Havia um caos naquele silêncio. O coração gritava, mas Blair segurava cada batida como quem teme quebrar um feitiço. Parte dela queria avançar. Queria esquecer o mundo, esquecer os porquês e os depois. Queria se perder nele, no gosto que ainda lembrava, no toque que nunca esqueceu. Mas outra parte - a que passou anos construindo um muro seguro o suficiente, distante o suficiente - tremia de medo. E se fosse só carência disfarçada? E se beijá-lo de novo a fizesse despencar num lugar de onde ela não conseguiria voltar? Quando seus rostos estavam perto demais para fingir outra intenção, Blair recuou - sutilmente, mas o suficiente. O olhar de Josh seguiu cada movimento, e seu coração apertava a cada centímetro que ela se afastava. Ele puxou o capuz para frente, não para se proteger do vento, mas para esconder a turbulência que fervilhava dentro dele. Era um gesto pequeno, mas que denunciava toda a confusão de sentimentos que o consumia. Ele se sentia um idiota, talvez - como ela mesma sempre fazia questão de lembrar - fosse um idiota. Blair merecia mais, merecia coisas que ele nunca poderia dar e ele sabia disso. Ele prometeu a si mesmo que nunca mais faria isso, prometeu por ele, por seu melhor amigo mas principalmente por ela. E agora cada centímetro do seu corpo o implorava pra que ele quebrasse sua promessa. Mas nada disso importava, afinal, ela recuou. Era como se o pouco de esperança que ele ainda guardava tivesse escapado pelos dedos. Ele queria que ela ficasse, queria que as coisas não fossem como eram, queria que pudesse voltar no tempo e desfazer todas as barreiras que construíram entre eles. Mas, ao mesmo tempo, sabia que a realidade era outra: eles haviam mudado. Blair inclinou a cabeça contra o ombro dele, como quem se apoia num refúgio silencioso. E ali ficaram






