Uma frase tão simples, mas que, como uma lâmina afiada, perfurou o peito de Giovana, revirando carne e sangue. Aquele coração, já cheio de cicatrizes, parecia estar sendo rasgado por completo, numa dor insuportável. Sua mente fervilhava, e em seus olhos restava apenas um vazio entorpecido.
Todos já haviam saído, restando apenas as luzes frias e impiedosas, iluminando cada ferida em seu corpo com clareza.
Suportando a dor, ela conseguiu se erguer. Pegou o casaco que um funcionário bondoso havia deixado ao lado, enrolou-se nele e saiu dali, cambaleando.
Do lado de fora, uma chuva torrencial desabava, e ela se lançou na chuva sem perceber. A chuva gelada batia em seu rosto, escorrendo em gotas, como lágrimas. Mas ela já não conseguia derramar uma única lágrima.
Sem saber para onde ir, ela vagou pelas ruas, sem rumo.
Depois de um tempo, um carro parou ao seu lado. O vidro abaixou, revelando o rosto frio e impecável de Samuel.
— Entre no carro.
Como se não tivesse ouvido, Giovana continuou andando na chuva, arrastando o corpo pesado.
— Entre no carro. — Samuel franziu a testa e disse com a voz mais firme.
Ela parou. Levantou o rosto pálido, sem um traço de cor, e olhou para ele.
— Não precisa se preocupar comigo, Sr. Samuel. Eu sou apenas uma secretária. — A frieza em seu tom fez o coração dele estremecer.
Samuel abriu a porta, saiu sob a chuva e foi até ela, segurando seu pulso com força.
— O que aconteceu hoje foi culpa minha. Mas eu já perdi a Carolina uma vez, não posso perdê-la de novo. Eu vou dar um jeito de compensar a humilhação que você sofreu. Não fique zangada por causa disso.
Dessa vez, Giovana não cedeu. Reunindo o último resquício de força, ela se soltou do aperto dele e recuou alguns passos.
— Está brincando, Sr. Samuel? Como alguém humilde como eu ousaria ficar zangada com o senhor e a Srta. Carolina? Eu que fui ingênua e ridícula, por não reconhecer o meu lugar. A partir de agora, vou sempre me lembrar de que sou apenas uma secretária. Não vou mais interferir na sua vida. Está satisfeito? Pode me deixar ir agora? — Ela disse com a voz calma.
Quanto mais ela falava assim, mais irritado Samuel ficava. Seu rosto endureceu, e suas emoções saíram do controle.
— Você sabe que não é isso que eu quero dizer! Eu nunca te desprezei. Eu disse aquilo só para acalmar a Carolina. Para mim, você e Thaís...
O resto das palavras dele não chegou até os ouvidos de Giovana. A visão dela começou a desfocar, as pálpebras pesadas como chumbo. Sem forças, seu corpo cedeu e ela perdeu a consciência.
Ela não sabia quanto tempo havia passado quando abriu os olhos novamente, percebendo que estava em um hospital.
As roupas molhadas haviam sido trocadas, seus ferimentos tratados e enfaixados. Ao lado da cama, havia remédios e água quente.
Uma enfermeira ajustava o soro. Ao vê-la acordar, sorriu gentilmente.
— Acordou? Seu namorado passou a noite inteira ao seu lado. Acabou de sair.
— Ele não é meu namorado. Nunca foi. — Giovana abriu os lábios ressecados. Sua voz saiu rouca, quase irreconhecível.
Desde o começo, ela e Samuel não passaram de um acaso. Além do seu papel de secretária, ele jamais assumiu qualquer outro tipo de relação entre eles.
Antes, ela se enganava, alimentando fantasias sobre o futuro. Mas agora, ela só queria acordar.
E então partir. Ir embora para sempre e nunca mais voltar.