Arrependimento

Oliver Stewart

Todos no aeroporto nos olham como se fosse um filme ou peça teatral como se estivessem ansiosos para ver o desfecho da discussão e quando começamos caminhar em silêncio é possível ouvir os múrmuros das pessoas que até parecem decepcionadas.

Eu sei que errei, mas o que ele queria?

Que eu levasse uma criança para outro país para ficar com babás, enquanto eu trabalhava quase vinte e quatro horas por dia?

Aqui, pelo menos ela tem os tios por perto.

 — Você pode ir ver Zoe amanhã cedo. — diz Amélia quebrando o silêncio ensurdecedor que prevaleceu dentro do carro desde que saímos do aeroporto. — Vamos juntos.

— Obrigada, vamos sim. — abro um sorriso um pouco mais aliviado.

— Como está Londres? — Jordan indaga depois de mais longos minutos em silêncio total.

— Do mesmo jeito de sempre, mas eu precisava mudar os ares, preciso de Zoe. — sai como uma confissão.

— Espero que desta vez, não se canse dela. — ele torna me atacar, fazendo minha minúscula paciência ir para os ares.

— Eu sei que errei, foi horrível o que fiz com Zoe, mas estou. — elevo minha voz furioso. — Eu voltei, dá pra parar de me julgar?

— Zoe não mereceu o que você fez ela passar.

— Eu sei, me sinto um homem horrível por tudo isso, mas quero ser o melhor que puder por ela e não vou embora outra vez.

— Espero que sim...

— Dá para confiar em mim só dessa vez? Eu me odeio por tudo que aconteceu.

— Ela perdeu a mãe e dois anos depois perdeu o pai. — ele apenas continua o que dizia antes que eu lhe interrompesse. — Ela se sente sozinha, mesmo conosco, por sorte tem Rebecca.

— Quem é Rebecca? — indago confuso.

— Uma das professoras da sua filha. — Jordan responde com pouco entusiasmo. — Zoe é apaixonada por ela, são melhores amigas.

— Agora ela vai ter a mim, pode até sair do internato. — sorrio esperançoso.

— Isso está fora de cogitação. — desta vez, Amélia chama minha atenção e olho para trás encontrando um par de olhos sérios demais até para ela.

— Por quê?

— Zoe ama aquele lugar e passou metade da vida lá, ela é feliz, tem amigos. — minha irmã continua sua linha de raciocínio. — Não vai tirar isso dela, Ollie.

— Eu só pensei em colocar ela numa escola normal onde não fique a semana inteira longe de mim.

— Só vai tirar ela de lá, caso ela queira. — Amélia mantém sua voz firme.

— Eu achei que pudesse tomar decisões pela minha filha — respondo à altura da sua rigidez.

— Você perdeu esse direito quando abandonou ela. — Jordan se intromete na nossa conversa conseguindo calar a minha boca.

Suas palavras me destruíram de um jeito que tudo veio a tona e ele está certo.

Zoe também perdeu Chloe, ela também sentiu falta da mãe e eu fiz o que?

Eu deixei minha garotinha sozinha por dois anos, apenas por ser um homem incapaz de superar a perda da esposa.

Sem nem pensar direito no quanto Zoe sofreria ao me perder também.

Mesmo que eu tenha voltado três vezes para lhe visitar, eu nunca sequer fiquei uma semana inteira com ela, eram no máximo três dias e eu já retornava para Londres.

Eu abandonei a minha menina por não ser capaz de olhar nos olhos de Zoe e não ver ali, o olhar de Chloe. Até a voz de Zoe é parecida com a da mãe e isso me deixava perturbado.

Eu espero do fundo do meu coração que ela não me rejeite, eu voltei por ela e para ela.

O restante do caminho foi tomado por um silêncio quase ensurdecedor e como Jordan queria, a última palavra foi dele. Ninguém falou mais nada, Amélia também sentiu o peso das palavras dele.

Eu não me arrependo por ter colocado Zoe para estudar num internato, sua mãe estudou lá também quando era criança, o que me arrependo é de ter ficado tanto tempo longe da minha garotinha.

Ao chegar em nossa casa, sinto meu coração pesar assim que atravessamos o portão. Aqui reside tantas memórias e boas recordações, talvez seja o motivo de ter ido para tão longe.

Foi aqui que comecei viver com o amor da minha vida.

Foi nesta casa que descobrimos a gravidez de Zoe.

Foi aqui que minha garotinha deu seus primeiros passinhos.

Foi nessa casa que fui o homem mais feliz do mundo por longos cinco anos.

Eu me casei aos dezenove anos, um jovem apaixonado que se entregou para o amor, como eu poderia não me entregar?

Fui pai aos vinte e três anos, foi a experiência mais maluca da minha vida, de repente eu me via responsável por um pequeno ser que pesava apenas dois quilos, trezentos e quarenta gramas. Tão pequenina, tão frágil que foi ali que percebi.

Me casar jovem foi a melhor coisa que eu havia feito.

Então, é dolorosa estar aqui depois de tudo que perdi.

Já tem quatro anos que Chloe se foi e ainda não superei sua partida.

Esta casa carrega consigo todas as lembranças, em cada canto, em cada prateleira, até na escadaria, todas as lembranças maravilhosas.

Ao entrar, a casa parece silenciosa demais, meus irmãos acabaram se hospedando aqui nos finais de semana para que Zoe não precisasse ir para Calgary, a cidade onde eles residem, estudam e trabalham. Portanto, mesmo que nesses últimos dois anos, eles tenham vindo até aqui, ainda parece quieta demais.

Jordan e Amélia entram logo depois de mim e apenas me deixam lá na sala olhando para as paredes como se eu não tivesse voltado para cá há alguns meses, mas sim, agora é diferente.

Eu irei morar aqui.

E mesmo me vendo assim, um pouco abatido, ainda apenas subiram as escadarias para seus quartos e me deixaram aqui perdido entre meus próprios pensamentos.

Eu preciso reconquistar meus irmãos.

Amélia parece não me odiar tanto, mas Jordan...

Ele me culpa por ter abandonado Zoe, mesmo que essa não fosse minha intenção.

Por fim, subo para o quarto e organizo algumas coisas no closet observando a quantidade de retratos espalhados pelas prateleiras do closet, nos criados mudos e nas pequenas estantes na parede que ela insistia ter apenas para colocar mais fotos.

No closet, como eu ordenei, ninguém nunca tocou nas roupas delas, sapatos, bolsas ou perfumes. Ainda estão todos aqui.

Ela também não tinha mais ninguém.

Chloe era filha única e seus pais faleceram alguns meses depois do nosso casamento num acidente. Ninguém veio buscar por alguma herança e muito menos por suas roupas, ela não tinha mais ninguém além de mim, nossa filha e meus irmãos.

Apanho um de seus vestidos e abraço sentindo meu nariz arder pela vontade de chorar, mas resisto, assim como resisti durante tanto tempo.

Cada lembrança é uma pontada a mais no peito, como se estivesse sendo esfaqueado pelo passado.

— Dói muito não te ter aqui, Chloe. — falo enquanto ainda seguro seu vestido entre as mãos e observo uma foto no closet.

Nessa foto, ela sorria tão lindamente, foi quando descobrimos que não seriamos mais apenas nós dois. E agora, isso dói tanto.

Dói saber que nossos planos de ter um irmãozinho para Zoe, só para que ela não cresça sozinha como sua mãe cresceu, não vai se realizar e isso abala muito meu psicológico.

Deixo o quadro no mesmo lugar, decidido que amanhã irei guardá-los em outro lugar. 

Amanhã irei levar para doação todas as suas roupas, sapatos, bolsas e perfumes. Eu não vou conseguir sobreviver nessa cidade com todas as suas coisas na nossa casa, além das lembranças que percorrem esta casa.

Eu preciso viver por ela e para Zoe.

Fecho o closet e volto para o quarto.

Cansado físico e psicologicamente decido tomar um banho para relaxar após a longa e exaustiva viagem.

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