Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 3
Reino Ttang, 1177, outono. Floresta na montanha Songak
Ha Yon Sun
Passo os dedos por suas azas e ela ainda não se move.
— Tudo bem. Darei um jeito de cuidar de você. — Deixo minha mão cair de volta na água. — Agora saia do meu dedo, preciso me vestir.
Ela saiu. Não sei como os animais me entendem, mas depois que me veem eles sempre fazem o que eu mando.
Ela b**e as azas e cobre o sol por um segundo.
Uma mão segura a minha mão com força. Sinto os dedos se agarrarem aos meus, a água escorrendo por entre as nossas mãos e seguindo o rio.
— Me ajude. — É um homem.
Meu corpo fica paralisado. Tudo que eu vejo é a borboleta voando ao meu redor. Sinto a mão se apertar ainda mais aos meus dedos, enquanto sinto a água passar pela minha pele.
— AHHHHH!!! — Por instinto minha mão se aperta a do estranho ao mesmo tempo em que meus pés tentam se afastar. Resultando em mais uma queda na água.
Ele me viu, viu meu rosto. Minha mente salta entre diversos cenários possível, criando planos e rejeitando enquanto meu corpo se petrifica de medo. A voz de minha mãe soa claramente em meus ouvidos. Eles vão lhe levar, vão tranca-la no melhor dos cenários. Ou a tornar escrava nos outros. Nunca deixe que a vejam.
Há dois tipos de pessoas no mundo depois de verem meu rosto. Me seguirão até o fim do mundo ouvindo minhas palavras como ordens das próprias divindades. Ou me trancaram e me tomarão como posse.
Puxo minha mão tentando virar o rosto para longe, se ele não me viu ainda há esperança de fugir. Não há respostas, não há resistência. Olho ao redor e água está vermelha.
Me desvencilho completamente, correndo para a margem. Segurando o véu como se minha vida dependesse disso e depende. O coloco em meu rosto de qualquer modo. E espero, mas o homem continua sem se mexer.
Escuto a água bater em sua armadura e seu corpo ser sutilmente empurrado pela correnteza, mas ele não se move.
Observo mais um pouco seu corpo começar a ser arrastado junto com a água avermelhada.
— Ah, pelas divindades. — Solto o véu de lado e me lanço outra vez no rio, segurando seu corpo antes que a correnteza o leve ainda mais. Ele me pediu ajuda, não posso ignorar isso. Até porque é a primeira pessoa que vejo em mais de dois meses. Não conseguiria dormir se o deixasse morrer afogado.
Puxo mais um pouco ouvindo o som das pedras se chocarem com as tiras de metal e couro. Eu lembro de ver armaduras, Oh Ki Sung o guarda do meu pai usa assim como alguns dos outros homens da guarda, mas essa é bem mais elaborada e pesada.
Sinto o sangue escorregar por minhas mãos. Ele tem alguns cortes no rosto. Suas maçãs do rosto estão vermelhas, seu cabelo está solto para todos os lados. Ele tem as sobrancelhas cheias e os lábios rosados. Com uma cicatriz cortando a testa. É bonito. Bem mais bonitos do que os outros homens de que me lembro.
Volto a examinar e há um pedaço de uma flecha firme em seu peito atravessando o couro da armadura e outro um pouco abaixo em sua perna.
Seguro umas das minhas saias na margem do rio e começo a rasgar o tecido. Preciso parar o sangramento antes que ele morra. Só as divindades sabem a quanto tempo ele está sangrando.
Grunhidos saem de seus lábios, mas seus olhos se mantem fechados. Preciso tirar ele daqui. Não tenho como tratar as feridas no meio da floresta. Sua testa já está começando a ficar quente.
A borboleta paira ao meu lado e pousa gentilmente em sua barriga.
— Se você fosse ou pouco maior, talvez pudesse me ajudar com ele. — Resmungo mais para mim do que para a borboleta, porém acho que a ofende porque sai voando atravessando o rio. — Bem, a primeira a fugir da minha maldição. Se sinta lisonjeada.
Dou uma última olhada para a borboleta, mas não há tempo a perder com algo tão pequeno.
Coloco todas as roupas molhadas no cesto. Não teria como andar com as minhas roupas e carregando ele.
Passo a mão por cima de seu ombro e tento coloca-lo por cima dos meus, mas cedo com o peso. Ele é alto, e essa armadura o torna mais pesado do que eu poderia carregar. Começo a desatar um dos nós, quando escuto um barulho do outro lado do rio. Passo o véu por minha cabeça e me coloco atrás do estranho.
O som vai aumentando até que escuto os cascos de um cavalo. Olho por cima do ombro e há um alazão enorme de pelo negro em uma armadura miliar completa. Com a borboleta pousada gentilmente entre suas orelhas.
Ele b**e as patas dianteiras em nossa direção e começa a atravessar o rio.
Olho para a borboleta não entendo o tamanho da coincidência, possivelmente uma intervenção das divindades já que as chamo constantemente.
A borboleta levanta vou e vem até mim. Estendo a mão e ela pousa novamente em meu dedo esperando. Passo gentilmente minha mão seca por suas asas, não sei se é o bastante então falo.
— Muito bem. Não sei se consegue entender e de onde tirou um cavalo, mas não estou em posição de discutir. Obrigada.
Tínhamos cavalos bem treinados assim em casa. Embora não tão grande. O animal se aproxima e começa a cheirar o estranho emburrando o grande nariz em seus cabelos.
Agora faz um pouco mais de sentido. Deve ter achado seu dono pelo cheiro, então a pessoa que o ferio não deve estar longe.
— Calma garoto. Ele não vai acordar tão cedo, mas preciso da sua ajuda. Você realmente é um cavalo muito bonzinho.
Ele olha para mim e me empurra para longe do estranho com o seu nariz. Agindo de forma protetora, a borboleta se coloca entre nós, mas não poderia fazer nada contra o cavalo. Embora não pareça hostil a mensagem é clara: não se aproxime do meu mestre.
Não vai dar certo. Puxo o véu e me coloco no campo de visão do cavalo. Seus olhos dourados me encaram e é possível perceber que ele caiu. Agora é um dos meus amaldiçoados.
— Tudo bem, garoto. Agora você vem comigo. Precisamos tirar o seu dono daqui. Mas eu não consigo colocá-lo em você. Precisa se abaixar. — Aponto para o chão e ele deita sem nenhuma resistência.
Arrasto o corpo do estranho até o dorso do animal e consigo passa-lo por cima. O cavalo levanta com um pouco de esforço e espera por mim. A borboleta se posiciona novamente entre suas orelhas. Vejo se ele está bem colocado no dorso do animal pego minha cesta e começo a seguir deixando o cavalo ir na frente.
Seguro o primeiro galho que encontro no chão e começo a desfazer nossas pegadas colocando algumas folhas por cima. Aprende a muito não deixar rastros que levem até minha casa.







