Mundo de ficçãoIniciar sessão
Sarah
Ajeitei a alça do vestido no ombro enquanto atravessava o corredor apertado da república. O cheiro de cerveja velha e cigarro impregnava o ar, misturado ao som abafado de música vindo de algum quarto distante. O piso de madeira rangia sob meus passos rápidos, e cada porta entreaberta parecia esconder olhares curiosos demais para aquela manhã. Meu coração batia forte, não apenas pela raiva que começava a subir, mas pelo medo de parecer ridícula. Ridícula por ter acreditado que aquela noite significava algo. Ridícula por achar que Jack seria diferente. Eu ainda conseguia sentir o toque dele na minha pele. Ou pelo menos achava que conseguia. As lembranças da noite anterior vinham em flashes confusos: os dedos quentes deslizando pela minha cintura, os lábios próximos ao meu ouvido, a voz baixa dizendo coisas que agora pareciam mentira. Eu tinha passado anos apaixonada por Jack. Anos observando seus sorrisos tortos, suportando as garotas diferentes entrando e saindo da vida dele como se fossem apenas nomes esquecidos no dia seguinte. Mas comigo seria diferente. Precisava ser. Empurrei a porta da sala sem cerimônia. Jack estava largado no sofá, o braço jogado no encosto, rindo de algo que um amigo dizia. Uma garrafa de cerveja pendia entre os dedos. O mesmo sorriso torto da noite anterior estava ali — mas agora ele parecia não ter ideia do turbilhão que deixara no quarto de cima. A televisão ligada iluminava parcialmente o rosto dele, enquanto os amigos espalhados pela sala pareciam confortáveis demais para alguém que ainda nem deveria estar acordado. — Jack. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Ele levantou os olhos devagar, a sobrancelha arqueando com aquele ar de despreocupação que só ele parecia saber exibir. Por um instante, esperei algum sinal. Qualquer coisa. Um olhar diferente. Um sorriso mais íntimo. Um traço de culpa. Mas não havia nada. — Sarah? — Ele sorriu, preguiçoso. — Bom dia. Engoli em seco. Meu rosto esquentava de raiva e humilhação. — A gente precisa conversar. Um dos garotos no outro sofá soltou um “ih” baixo, recebendo uma cotovelada do amigo ao lado. Ignorei. Mantinha os olhos apenas em Jack. Jack inclinou a cabeça, claramente se divertindo. — Conversar? Sobre o quê? Cruzei os braços, tentando manter a voz firme, embora sentisse as mãos geladas. — Sobre ontem à noite. Sobre… nós dois. As palavras pareceram pesar no ar. Os amigos ao redor pararam, disfarçando a curiosidade com sorrisos mal contidos. Jack soltou uma risada baixa, balançando a cabeça como se ouvisse uma piada interna. — Ontem à noite? — Ele se levantou lentamente, se aproximando devagar. — Ah, Sarah… eu estava bêbado. Nem lembro direito como terminei a noite. Senti o estômago revirar. As memórias que eu guardara com tanto cuidado começaram a se despedaçar diante de mim. — Você está dizendo que… não se lembra do que fizemos? Jack deu de ombros, o sorriso nunca desaparecendo do rosto. — Talvez você tenha sonhado, princesa. Aquela palavra — princesa — que na noite anterior parecia doce, agora soava como puro deboche. Como uma faca sendo torcida devagar dentro do meu peito. Senti os olhos arderem, mas não deixaria as lágrimas caírem. Não ali. Não diante dele. Não diante daqueles idiotas observando como se aquilo fosse apenas mais uma cena engraçada da manhã seguinte. Eu odiava o quanto ainda queria que ele desmentisse tudo. — Você é um babaca, Jack. Ele piscou lentamente, como quem não ligava. Ou como quem sabia exatamente o efeito que causava nas pessoas. — Eu escuto isso com uma certa frequência, sabia? Os amigos riram baixo. Aquilo foi pior do que qualquer grito. Respirei fundo, sentindo o peito apertar tanto que doía. Por um segundo, tive vontade de dizer tudo o que sentia. O quanto tinha esperado por ele. O quanto aquela noite significou. O quanto ele conseguiu destruir algo dentro de mim em menos de vinte e quatro horas. Mas não faria isso. Jack não merecia. Então apenas virei nos calcanhares e saí antes que minha voz falhasse. O corredor parecia ainda mais sufocante agora. Desci as escadas rápido demais, ouvindo meu próprio coração ecoar nos ouvidos. Quando finalmente empurrei a porta da república e senti o vento frio da manhã tocar meu rosto, soltei o ar preso nos pulmões. Lá fora, a cidade seguia normalmente. Pessoas caminhavam pelas ruas, carros passavam, alguém ria do outro lado da calçada. E era estranho perceber como o mundo continuava exatamente igual enquanto o meu parecia ter acabado. Abracei o próprio corpo enquanto caminhava apressada até o apartamento. O gosto amargo permanecia na boca. Não olhei para trás. Não queria ver Jack, nem Ethan, nem ninguém daquela casa novamente. Principalmente Ethan. Quando cheguei ao apartamento, bati a porta com força, joguei a bolsa no sofá e desabei ao lado do celular. O silêncio do lugar parecia alto demais agora. A tela piscava com mensagens. Kate: “E aí, amiga? Tá viva?” Kate: “Me conta TUDO.” Kate: “Ligando em 5 min.” Soltei um riso seco, passando as mãos pelo rosto antes de encarar o teto. Meu peito ainda doía, mas agora a dor vinha acompanhada de algo pior: vergonha. Vergonha por ter acreditado. Vergonha por ter amado alguém como Jack. Fechei os olhos por alguns segundos, tentando ignorar o nó na garganta. Então respirei fundo e me levantei devagar, olhando ao redor do pequeno apartamento. Naquele instante, soube exatamente o que precisava fazer. Precisava ir embora. Longe daquela cidade. Longe de Jack. Longe de todas as lembranças daquela noite. E foi ali, no silêncio do meu próprio quarto, que decidi: era hora de voltar para Londres.






