Mundo de ficçãoIniciar sessãoSarah
O zíper da mala arrastava pelo tecido com um som estranhamente alto no quarto silencioso. Respirei fundo, tentando não pensar demais. Uma blusa, um par de jeans, o casaco favorito — cada peça jogada para dentro parecia mais um pedaço daquela cidade que eu queria deixar para trás. O apartamento estava silencioso demais. Não o silêncio confortável de uma manhã tranquila, mas aquele silêncio pesado, sufocante, que parecia amplificar tudo o que eu tentava ignorar. O relógio na parede fazia um tic-tac irritante. O encanamento do banheiro pingava em intervalos irregulares. E no meio de tudo aquilo, meu coração continuava acelerado, como se eu ainda estivesse naquela maldita república. Fechei a mala pela metade e passei as mãos pelo rosto. Ainda conseguia ouvir a voz de Jack. “Talvez você tenha sonhado, princesa.” A vergonha queimava mais forte do que a raiva agora. Apertei os olhos com força, tentando expulsar a lembrança dele sorrindo enquanto me destruía na frente dos amigos. Como alguém podia ser tão cruel sem sequer parecer perceber? Ou talvez ele percebesse. Talvez Jack simplesmente não se importasse. O celular vibrava sem parar em cima da mesa, iluminando o pequeno quarto escuro. As mensagens de Kate se acumulavam uma atrás da outra. Kate: “Sarah, atende.” Kate: “Você sumiu!” Kate: “O que aconteceu?” Ignorei todas. Não queria falar, não ainda. Como colocaria em palavras algo que nem eu mesma entendia? O que havia sido aquela noite? Um erro? Uma ilusão? Um lembrete cruel de que as coisas nem sempre são como sonhamos? Aproximei-me lentamente do espelho encostado na parede. A imagem refletida parecia a de outra pessoa. O vestido da noite anterior estava amassado, meus cabelos bagunçados e os olhos vermelhos denunciavam que eu não tinha dormido nem por uma hora inteira. Havia algo quebrado naquela versão de mim. Algo que nem maquiagem, tempo ou orgulho conseguiriam esconder tão cedo. Uma risada amarga escapou dos meus lábios. — Quem você pensava que era, Sarah? — murmurei para mim mesma. — Princesa de conto de fadas? As palavras soaram ridículas no vazio do quarto. Eu sempre soube quem Jack era. Toda a universidade sabia. O garoto bonito, arrogante, impossível de prender. Então por que eu tinha acreditado que seria diferente justamente comigo? Porque ele olhou para você como se fosse diferente. Desviei os olhos do espelho imediatamente. Não queria pensar nisso. Não queria lembrar do jeito como ele tocou meu rosto naquela noite. Do cuidado em cada beijo. Das palavras baixas perto do meu ouvido. Da forma como me abraçou depois, como se eu fosse algo precioso. Aquilo não combinava com o homem que riu de mim naquela manhã. E ainda assim… Balancei a cabeça rapidamente, afastando os pensamentos. A campainha tocou. Enrijeci na mesma hora. Por um instante, imaginei Kate do outro lado da porta, provavelmente pronta para invadir o apartamento e arrancar respostas de mim à força. Mas nenhum som veio depois. Nenhuma voz chamando meu nome. O silêncio continuou. Talvez fosse melhor assim. Eu não queria despedidas. Não queria precisar explicar por que estava indo embora tão de repente. Não queria ouvir que aquilo passaria, porque naquele momento parecia impossível imaginar que a dor diminuiria algum dia. Com um suspiro longo, terminei de fechar a mala e a arrastei até a porta. O apartamento cheirava a café velho e flores murchas. O vaso em cima da bancada ainda guardava as margaridas que eu comprara na semana anterior, agora inclinadas e sem vida. Era estranho perceber como tudo ali parecia refletir exatamente o que eu sentia. Atrás de mim, a cidade seguia pulsando, cheia de promessas e decepções. Quando entrei no táxi, o motorista lançou um olhar rápido pelo retrovisor. — Aeroporto? Apenas assenti. Durante o trajeto, recostei a cabeça na janela fria, observando as ruas passarem como borrões. Pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas, casais riam em cafeterias, ônibus cruzavam os cruzamentos em meio ao caos habitual da cidade. Tudo continuava igual. E isso era o pior. O celular vibrou outra vez. Kate ligando. Deixei tocar até cair na caixa postal. Em seguida, outro nome apareceu na tela. “Mãe.” Meu dedo pairou sobre o botão verde por alguns segundos. Se ligasse, teria que admitir que estava voltando antes do planejado. Teria que fingir que estava tudo bem. E eu não tinha forças para mentir naquele momento. Bloqueei a tela novamente. Quando chegamos ao aeroporto, o céu estava cinza, carregado por nuvens pesadas. Puxei a mala pelo saguão lotado sentindo-me estranhamente invisível no meio de tantas pessoas. Ninguém ali sabia que eu estava fugindo. Ninguém sabia que meu coração parecia ter ficado para trás naquela cidade. Já dentro do avião, escolhi o assento perto da janela e abracei o próprio corpo enquanto os passageiros embarcavam. O som das conversas ao redor parecia distante, abafado. Quando o avião começou a se mover pela pista, senti o peito apertar. Era real. Eu estava indo embora. Fechei os olhos devagar no instante em que a aeronave deixou o chão. E então, finalmente, as lágrimas vieram. Silenciosas. Discretas. Quentes. Não era só Jack que eu estava deixando para trás. Era a garota que acreditava em finais felizes. A garota que passou anos construindo sonhos em torno de alguém incapaz de enxergá-la de verdade. Era o futuro que imaginei tantas vezes e que agora parecia tão distante quanto a cidade desaparecendo entre as nuvens. Londres. A palavra tinha um gosto estranho. Um retorno. Um recomeço. Ou só uma fuga? Quando o avião finalmente pousou horas depois, o frio familiar de Londres me atingiu assim que saí do aeroporto. O vento bagunçou meus cabelos, trazendo consigo uma sensação estranha de nostalgia e vazio. Fechei os olhos por um instante, apertando os dedos na alça da mala. — Acabou — sussurrei para mim mesma.






