Capítulo 5

O SUV preto cortava a noite como uma sombra viva. Dante dirigia com uma mão firme no volante, a outra descansando no câmbio, os dedos tamborilando de leve — um tique nervoso que Isabella nunca havia notado antes. As luzes dos postes passavam em flashes amarelos pelo rosto dele, iluminando as linhas duras da mandíbula, a barba por fazer, o corte recente na sobrancelha que ainda sangrava um pouco.

Isabella estava enrolada no casaco dele, o tecido de couro ainda quente do corpo, cheirando a fumaça, sangue e aquela colônia amadeirada que parecia impregnada na pele dele. Ela apertou o casaco contra o peito, tentando se ancorar em algo real. O vestido vermelho rasgado mal cobria as coxas, e cada solavanco da estrada fazia o tecido subir um pouco mais. Ela puxava a barra discretamente, mas os olhos de Dante desviavam do retrovisor para ela a cada poucos segundos.

— Está com frio? — perguntou ele, voz baixa, rouca de exaustão e algo mais.

— Não… só tentando não desmoronar — respondeu ela, sincera.

Ele assentiu, sem tirar os olhos da estrada. Virou em uma saída secundária, deixando a rodovia principal para trás. O caminho agora era estreito, ladeado por árvores escuras e cercas velhas. Nenhum sinal de perseguição — pelo menos por enquanto.

— Para onde estamos indo? — Isabella quebrou o silêncio.

— Um lugar que ninguém sabe que eu tenho. Nem Alexander. Uma casa velha nos arredores de Hudson Valley. Meu avô comprou nos anos 70, usava pra esconder mercadorias. Depois que ele morreu, eu mantive quieto. Ninguém vai nos achar lá esta noite.

Ela olhou para o perfil dele. A luz fraca destacava as tatuagens que subiam pelo pescoço, desaparecendo sob o colarinho aberto da camisa. Uma delas — uma rosa negra com espinhos sangrando — parecia pulsar com a respiração dele.

— Você arriscou tudo vindo me buscar sozinho — disse ela, quase um sussurro.

Dante apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Não foi risco. Foi necessidade. Quando vi aquela foto… você amarrada, suja, assustada… eu senti algo quebrar aqui dentro. — Ele tocou o peito com a mão livre, rápido, como se doesse admitir. — Eu não sou de sentir, Isabella. Eu ajo. Mas com você… é diferente.

Ela engoliu em seco. O ar dentro do carro parecia mais denso, carregado de tudo que não era dito.

Chegaram à casa quase uma hora depois. Era uma construção de madeira antiga, dois andares, varanda larga e telhado inclinado. Cercada por pinheiros altos que bloqueavam a vista da estrada. Dante estacionou atrás, desligou os faróis e ficou em silêncio por um momento, escutando a noite.

— Fica aqui até eu verificar — ordenou, saindo com a arma na mão.

Isabella obedeceu, observando pela janela enquanto ele circulava a casa, verificando portas e janelas com movimentos precisos de quem já fizera isso mil vezes. Quando voltou, abriu a porta do passageiro e estendeu a mão.

— Vem. Está limpo.

Ela aceitou a mão dele. O toque foi elétrico — palma áspera contra a dela, dedos entrelaçando com uma firmeza que não deixava espaço para hesitação. Ele a ajudou a descer, mas não soltou imediatamente. Ficaram assim por um segundo a mais do que o necessário, corpos próximos, respirações sincronizando no ar frio.

Dentro da casa, o cheiro era de madeira velha e poeira, mas limpo. Dante acendeu apenas uma lâmpada de canto na sala principal. Havia uma lareira de pedra, sofá de couro gasto, tapete persa desbotado e uma escada que levava ao andar de cima. Ele trancou a porta principal com duas trancas pesadas e ativou um alarme simples, mas funcional.

— Banheiro fica ali — apontou para um corredor. — Tem água quente. Vai tomar banho. Eu pego algo pra você vestir.

Isabella assentiu, grata. No banheiro pequeno, mas surpreendentemente arrumado, ela deixou a água quente cair sobre o corpo, lavando o suor, o medo, o cheiro de pólvora. Quando saiu, enrolada em uma toalha que encontrou pendurada, Dante estava na sala, acendendo a lareira. Ele havia trocado de camisa — agora uma preta simples, justa o suficiente para marcar os músculos do peito e dos braços. No sofá, uma pilha de roupas: calça de moletom cinza, camiseta larga e um moletom com capuz.

— São minhas. Vão ficar grandes em você, mas são limpas — disse ele, sem olhar diretamente. A voz saiu um pouco mais grave do que o normal.

Isabella pegou as roupas e voltou ao banheiro para se trocar. Quando saiu, a calça estava larga na cintura (ela amarrou o cordão com força), a camiseta caía até o meio das coxas, e o moletom cobria quase tudo. Ela puxou as mangas compridas sobre as mãos, sentindo-se estranhamente vulnerável e protegida ao mesmo tempo.

Dante estava de pé junto à lareira, olhando as chamas. Ele virou quando a ouviu entrar na sala.

E parou.

Seus olhos percorreram devagar: dos pés descalços subindo pelas pernas, pela camiseta que delineava os seios sem sutiã, pelo cabelo molhado caindo em ondas sobre os ombros, até os olhos dela. Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo visivelmente.

— Você fica… — Ele parou, passando a mão pelo cabelo. — Perigosa vestida com minhas roupas.

Isabella sentiu o calor subir pelo pescoço.

— Obrigada por me trazer pra cá.

Ele se aproximou devagar, como se temesse assustá-la. Parou a um passo de distância. Perto o suficiente para que ela sentisse o calor do corpo dele, o cheiro de sabonete misturado ao couro.

— Eu não trouxe você pra cá só pra te proteger dos Rossi — admitiu ele, voz baixa. — Trouxe porque não suporto a ideia de você em qualquer outro lugar que não seja perto de mim.

Ela ergueu o olhar. Os olhos verdes dele estavam escuros, pupilas dilatadas, fixos nos lábios dela.

— Dante…

Ele estendeu a mão, hesitante, e tocou uma mecha molhada do cabelo dela, colocando atrás da orelha. O dedo roçou a pele da bochecha, descendo devagar até o queixo. Isabella prendeu a respiração. O toque era leve, mas carregado — como se cada centímetro de pele que ele tocava queimasse.

— Eu quero você — confessou ele, quase um rosnado baixo. — Quero tanto que dói. Mas não vou tocar em você enquanto estiver assim… assustada, machucada, confusa. Não sou animal.

Ela sentiu um nó na garganta. O desejo estava ali, pulsando entre eles, mas contido por uma força de vontade que ela não esperava dele.

— E se eu disser que não estou assustada? — murmurou ela.

Dante fechou os olhos por um segundo, como se doesse ouvir aquilo.

— Você está. E tem razão de estar. Eu trouxe isso pra sua vida. Alexander pode te dar segurança, um futuro limpo. Eu… eu só trago caos.

Ele se afastou um passo, criando distância. Mas os olhos não desgrudavam dela.

— Senta — disse, apontando o sofá. — Vou fazer café. Ou chá. Algo quente.

Isabella obedeceu, encolhendo as pernas no sofá. Dante foi até a cozinha aberta, mexendo em armários antigos. Enquanto a chaleira aquecia, ele voltou com um copo d’água e um comprimido.

— Analgésico. Seus pulsos estão machucados.

Ela tomou sem discutir. Ele se sentou no braço do sofá — não ao lado, mas perto o suficiente para que o joelho dele roçasse a coxa dela através do moletom.

— Me conta o que aconteceu depois que eu saí do Eclipse — pediu ele, voz controlada.

Isabella contou tudo: o jantar com Alexander, o beijo no carro, a ligação que ela fez pra Dante no dia seguinte, o sequestro no estacionamento. Quando terminou, ele estava com os punhos cerrados.

— Alexander sabe que você sumiu?

— Provavelmente. Ele me chamou pro escritório hoje cedo. Parecia… preocupado.

Dante bufou.

— Preocupado. Claro. Ele sempre foi o protetor perfeito. O filho bonzinho.

— Ele não é bonzinho — rebateu Isabella. — Ele é controlador. Mas se importa. De um jeito diferente do seu.

Dante a olhou por um longo momento.

— E você? Com quem você se importa mais?

A pergunta pairou no ar como uma bomba-relógio.

Isabella baixou os olhos para as próprias mãos.

— Eu não sei. Vocês dois… são como fogo e gelo. Um me queima, o outro me congela. E eu fico no meio, derretendo.

Ele se moveu então. Desceu do braço do sofá e se ajoelhou na frente dela, entre as pernas abertas dela no sofá. Não tocou — manteve as mãos apoiadas nas coxas dela, mas por cima do tecido, sem avançar.

— Olha pra mim — pediu.

Ela obedeceu. Os rostos estavam a centímetros. A respiração dele quente contra os lábios dela.

— Eu não vou te forçar a escolher agora. Mas saiba de uma coisa: enquanto você estiver comigo, ninguém mais toca em você. Nem ele. Nem ninguém. Entendeu?

Isabella sentiu o corpo inteiro reagir à proximidade — mamilos endurecendo sob a camiseta larga, calor se acumulando entre as pernas. Mas ele não avançou. Apenas ficou ali, olhando nos olhos dela, deixando o desejo falar por si.

— Entendi — sussurrou ela.

Dante se levantou devagar, como se doesse se afastar. Foi até a cozinha pegar o chá. Quando voltou, entregou a caneca quente e sentou no outro canto do sofá — distância suficiente para respirar, mas não o bastante para esquecer.

— Durma aqui embaixo. Eu fico de guarda na poltrona. Amanhã a gente pensa no próximo passo.

Isabella assentiu, enrolando-se no cobertor que ele jogou sobre ela. A lareira crepitava, o chá aquecia as mãos. Dante apagou a luz principal, ficando apenas com o brilho alaranjado do fogo.

Ela adormeceu olhando para ele: silhueta escura na poltrona, arma no colo, olhos fixos na porta.

E mesmo no sono, sentiu o peso daquele olhar — protetor, possessivo, faminto.

O desejo entre eles não havia desaparecido. Apenas esperava. Paciente. Contido. Até o momento em que não aguentassem mais.

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