Mundo de ficçãoIniciar sessãoA escuridão era densa, sufocante. Isabella piscou várias vezes, tentando focar a visão embaçada. A droga que injetaram ainda corria em suas veias, deixando-a lenta, pesada. Sua cabeça pendia para frente, e quando tentou se mexer, sentiu as cordas cortando os pulsos amarrados atrás da cadeira de metal. O cheiro era de óleo velho, ferrugem e umidade — um armazém abandonado, provavelmente nos arredores industriais de Nova Jersey ou Brooklyn. O único som era o gotejar distante de água e a respiração pesada de alguém próximo.
Ela ergueu o olhar devagar. À sua frente, sob a luz fraca de uma lâmpada pendurada por um fio exposto, estava o homem que a interrogara antes de desmaiar novamente. Alto, careca, com uma cicatriz que cortava a sobrancelha esquerda e descia até a bochecha. Vestia um terno barato, mas carregava uma autoridade fria. Ao lado dele, dois capangas armados com pistolas automáticas, rostos impassíveis.
— Acordou, princesa? — disse o careca, com um sotaque italiano carregado, quase caricatural. Ele se aproximou, agachando-se para ficar na altura dos olhos dela. — Meu nome é Marco Rossi. Prazer em conhecê-la pessoalmente, Isabella Cruz.
Ela engoliu em seco, a boca seca como papel. Tentou manter a voz firme.
— O que você quer comigo? Eu não tenho nada a ver com os Blackwood.
Marco riu, um som seco e sem humor.
— Mentira bonita. Você tem tudo a ver. Trabalha para Alexander, dorme com Dante… você é o elo fraco entre os dois. A ponte que eu precisava para atravessar o abismo.
Isabella sentiu um frio na espinha. Eles sabiam. Sabiam de tudo. Como? Alguém a seguia? Ou Dante e Alexander tinham inimigos que monitoravam cada passo deles?
— Eu não durmo com ninguém — mentiu ela, mesmo sabendo que era inútil. — Sou só uma designer contratada.
Marco se levantou, acendendo um cigarro. A fumaça subiu em espirais preguiçosas.
— Designer contratada que aparece no Eclipse com Dante Blackwood na mesma noite em que janta com Alexander no Le Bernardin. Designer que some com Dante depois de um tiroteio e aparece no loft dele. Não me subestime, bella. Eu tenho olhos e ouvidos em todos os lugares que importam.
Ele deu uma tragada longa, soltando a fumaça no rosto dela.
— Os Blackwood acham que controlam Nova York. Alexander com seus contratos bilionários, Dante com suas armas e cocaína. Mas eles esqueceram que o sangue Rossi ainda corre forte. Seu pai matou o meu avô nos anos 90. E agora eu vou cobrar com juros.
Isabella tentou raciocinar rápido. Quanto tempo havia passado? Horas? Um dia inteiro? Alexander teria notado sua ausência no trabalho? Dante teria percebido que ela sumiu depois da ligação?
— Se me machucar, eles vão atrás de você com tudo — disse ela, tentando soar mais confiante do que se sentia. — Dante não vai perdoar.
Marco sorriu, mostrando dentes amarelados.
— Exatamente. É isso que eu quero. Dante vai vir correndo como um cachorro raivoso. Alexander vai tentar ser o herói racional, mas no fundo vai sangrar igual. E quando os dois vierem… eu acabo com os dois de uma vez.
Ele estalou os dedos. Um dos capangas trouxe um celular antigo, daqueles flip phones que ainda existiam em 2026 só para criminosos que não queriam ser rastreados. Marco abriu o aparelho, tirou uma foto dela — amarrada, desgrenhada, com o vestido vermelho agora sujo e rasgado — e digitou uma mensagem.
— Pronto. Enviado para os dois. Com coordenadas falsas, claro. Vamos ver quem chega primeiro… ou se os dois se matam tentando.
Ele guardou o telefone e se virou para os capangas.
— Vigiem ela. Nada de tocar. Ela é mercadoria valiosa. Se os Blackwood vierem, atirem para ferir, não para matar. Quero eles vivos para assistir.
Os homens assentiram e se posicionaram nas portas. Marco saiu, deixando Isabella sozinha com os dois guardas silenciosos.
O tempo se arrastou. Isabella perdeu a noção das horas. Tentou soltar as cordas discretamente, mas eram apertadas demais. Seus pulsos já ardiam. Pensou em Alexander — no beijo controlado no carro, na forma como ele a olhara como se ela fosse um ativo a ser protegido. E em Dante — no fogo selvagem do loft, na vulnerabilidade que ele mostrara ao falar do pai. Dois homens tão diferentes, mas unidos pelo mesmo sangue… e agora pelo mesmo perigo.
Ela fechou os olhos, tentando não entrar em pânico. Precisava pensar. Precisava sobreviver até que alguém viesse. Porque eles viriam. Ela sabia disso. Alexander com estratégia, Dante com fúria. Mas viriam.
De repente, um barulho distante: pneus no cascalho, portas de carro batendo. Os guardas se tensionaram, mãos nas armas.
— Alguém está aqui — murmurou um deles.
Isabella ergueu a cabeça. Seu coração disparou. Era cedo demais para o resgate — ela havia pedido para adiar até o capítulo 9 —, mas o destino parecia não respeitar roteiros.
Passos ecoaram pelo corredor de concreto. Vozes baixas, em italiano. Um dos guardas saiu para verificar. Segundos depois, um tiro seco. O homem caiu na entrada, sangue se espalhando pelo chão.
O segundo guarda apontou a arma para a porta, mas antes que pudesse atirar, uma figura surgiu nas sombras.
Dante.
Ele estava sujo, camisa rasgada, sangue no braço (não dele), olhos verdes flamejantes. Atrás dele, mais dois homens — capangas dele, presumiu Isabella —, armados até os dentes.
— Solte ela — ordenou Dante, voz baixa e mortal. — Ou eu mato todos vocês devagar.
O guarda hesitou. Dante não esperou. Atirou uma vez, certeiro na perna. O homem caiu gritando. Dante avançou, chutando a arma para longe, e correu até Isabella.
— Bella… — Ele cortou as cordas com uma faca que tirou do cinto, os movimentos rápidos e precisos. Quando ela ficou livre, ele a puxou para os braços, apertando forte. — Você está bem? Eles tocaram em você?
Isabella tremia, mas conseguiu balançar a cabeça.
— Não… só me amarraram. Marco Rossi… ele quer vocês dois.
Dante praguejou em italiano, ajudando-a a se levantar. As pernas dela fraquejaram, e ele a carregou no colo sem esforço.
— Eu sei. Ele mandou a foto. Eu vim sozinho primeiro. Alexander ainda está organizando o time dele… burocracia de merda.
Ele a levou para fora do armazém, passando por corpos caídos — seus homens já haviam limpado o caminho. No SUV blindado, ele a colocou no banco do passageiro com cuidado, cobrindo-a com o próprio casaco.
— Vamos para um lugar seguro. Longe de tudo.
Enquanto o carro acelerava pela estrada escura, Isabella olhou para ele. O rosto dele estava tenso, marcado por uma raiva contida.
— Por que você veio tão rápido? — perguntou ela, voz rouca.
Dante apertou o volante, os nós dos dedos brancos.
— Porque você é minha agora. E ninguém toca no que é meu.
Ela sentiu um arrepio — não de medo, mas de algo mais perigoso: posse misturada com desejo.
O carro seguiu pela noite, rumo a um esconderijo que Dante não revelou. Isabella encostou a cabeça no vidro, exausta. Sabia que Alexander recebera a mesma mensagem. Sabia que ele viria atrás dela também. E quando os dois se encontrassem…
O confronto entre irmãos estava apenas começando.
Mas por enquanto, ela estava nos braços de Dante. E isso, de alguma forma distorcida, era o lugar mais seguro que ela conhecia.







