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Capítulo 4 — Onde Ela Recomeçou

A caneta deslizou pelo papel com firmeza.

Sem hesitação.

Sem pausa dramática.

Sem mãos trêmulas.

Ela assinou o próprio nome como quem encerra um capítulo que já tinha sido lido até o fim — e não precisava ser relido para doer menos.

— Está tudo certo — disse o advogado, recolhendo os documentos. — A notificação foi entregue hoje cedo.

Ela assentiu, tranquila.

— Obrigada.

Não perguntou quanto tempo levaria.

Não perguntou se ele havia reagido.

Não perguntou nada que a puxasse de volta.

Quando saiu do escritório, o sol da manhã iluminava a rua de uma forma diferente da cidade que deixara para trás. Ali, ninguém a conhecia como “a esposa de”. Ninguém sabia da história. Ninguém esperava nada dela além do que fosse capaz de entregar.

E aquilo era libertador.

O apartamento era pequeno, mas organizado. As caixas ainda empilhadas em um canto denunciavam que tudo ali era novo — inclusive ela. O cheiro não carregava memórias antigas. Não havia objetos compartilhados. Não havia rastros dele.

Só espaço.

Ela trocou os sapatos, prendeu o cabelo num coque simples e vestiu o blazer que separara na noite anterior. Olhou-se no espelho por um instante mais longo do que o necessário.

Não procurava beleza.

Procurava reconhecimento.

E se encontrou.

O prédio onde agora trabalhava não era imponente como os lugares que frequentara antes. Mas havia algo ali que ela não sentia há anos: possibilidade. O crachá com seu nome ainda parecia estranho pendurado no pescoço — não por insegurança, mas porque era recente demais para carregar histórias.

— Bom dia — disse a colega da mesa ao lado. — Primeiro dia, né?

— É — respondeu ela, sorrindo de leve. — Primeiro de muitos.

Durante a manhã, concentrou-se em tarefas simples. Aprendeu sistemas novos. Tomou notas. Ouviu mais do que falou. Sentiu o cansaço típico de quem começa do zero — e, ainda assim, não quis fugir.

Aquele cansaço não vinha da tentativa de manter algo quebrado em pé.

No intervalo do almoço, sentou-se sozinha perto da janela. Observou a cidade em movimento, pessoas apressadas, vidas que seguiam sem saber que a dela tinha sido reconstruída do nada.

O celular vibrou.

Número desconhecido.

Ela olhou por alguns segundos. Sabia exatamente quem era. Não atendeu.

Bloqueou.

Guardou o aparelho na bolsa sem pressa, como quem fecha uma porta já trancada por dentro.

Não sentiu culpa.

Não sentiu medo.

Não sentiu vontade de explicar.

Sentiu alívio.

À tarde, recebeu o primeiro elogio discreto do chefe. Nada exagerado. Nada emocional. Apenas reconhecimento profissional.

— Bom trabalho — disse ele. — Vejo potencial aqui.

Ela agradeceu com um aceno contido.

Não precisava provar nada.

Só precisava continuar.

Quando o dia terminou, voltou para casa caminhando devagar. Comprou comida pronta. Jantou em silêncio. Ligou uma música baixa — algo que ele nunca gostava.

Sentou-se no sofá com uma xícara de chá quente entre as mãos.

Foi ali, naquele momento simples, que percebeu algo importante:

Ela não estava se curando.

Ela já estava inteira.

O que doeu tinha ficado para trás junto com as concessões, os silêncios forçados, as esperas inúteis.

Ela não foi embora para ser sentida.

Foi embora para viver.

Em outra cidade.

Outro trabalho.

Outra versão de si.

E enquanto ele segurava papéis tentando entender onde tinha errado, ela já tinha entendido algo muito antes:

Algumas mulheres não saem de casa com raiva.

Saem com clareza.

E não voltam.

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