Mundo de ficçãoIniciar sessãoA caneta deslizou pelo papel com firmeza.
Sem hesitação.
Ela assinou o próprio nome como quem encerra um capítulo que já tinha sido lido até o fim — e não precisava ser relido para doer menos.
— Está tudo certo — disse o advogado, recolhendo os documentos. — A notificação foi entregue hoje cedo.
Ela assentiu, tranquila.
— Obrigada.
Não perguntou quanto tempo levaria.
Quando saiu do escritório, o sol da manhã iluminava a rua de uma forma diferente da cidade que deixara para trás. Ali, ninguém a conhecia como “a esposa de”. Ninguém sabia da história. Ninguém esperava nada dela além do que fosse capaz de entregar.
E aquilo era libertador.
O apartamento era pequeno, mas organizado. As caixas ainda empilhadas em um canto denunciavam que tudo ali era novo — inclusive ela. O cheiro não carregava memórias antigas. Não havia objetos compartilhados. Não havia rastros dele.
Só espaço.
Ela trocou os sapatos, prendeu o cabelo num coque simples e vestiu o blazer que separara na noite anterior. Olhou-se no espelho por um instante mais longo do que o necessário.
Não procurava beleza.
E se encontrou.
O prédio onde agora trabalhava não era imponente como os lugares que frequentara antes. Mas havia algo ali que ela não sentia há anos: possibilidade. O crachá com seu nome ainda parecia estranho pendurado no pescoço — não por insegurança, mas porque era recente demais para carregar histórias.
— Bom dia — disse a colega da mesa ao lado. — Primeiro dia, né?
— É — respondeu ela, sorrindo de leve. — Primeiro de muitos.
Durante a manhã, concentrou-se em tarefas simples. Aprendeu sistemas novos. Tomou notas. Ouviu mais do que falou. Sentiu o cansaço típico de quem começa do zero — e, ainda assim, não quis fugir.
Aquele cansaço não vinha da tentativa de manter algo quebrado em pé.
No intervalo do almoço, sentou-se sozinha perto da janela. Observou a cidade em movimento, pessoas apressadas, vidas que seguiam sem saber que a dela tinha sido reconstruída do nada.
O celular vibrou.
Número desconhecido.
Ela olhou por alguns segundos. Sabia exatamente quem era. Não atendeu.
Bloqueou.
Guardou o aparelho na bolsa sem pressa, como quem fecha uma porta já trancada por dentro.
Não sentiu culpa.
Sentiu alívio.
À tarde, recebeu o primeiro elogio discreto do chefe. Nada exagerado. Nada emocional. Apenas reconhecimento profissional.
— Bom trabalho — disse ele. — Vejo potencial aqui.
Ela agradeceu com um aceno contido.
Não precisava provar nada.
Quando o dia terminou, voltou para casa caminhando devagar. Comprou comida pronta. Jantou em silêncio. Ligou uma música baixa — algo que ele nunca gostava.
Sentou-se no sofá com uma xícara de chá quente entre as mãos.
Foi ali, naquele momento simples, que percebeu algo importante:
Ela não estava se curando.
O que doeu tinha ficado para trás junto com as concessões, os silêncios forçados, as esperas inúteis.
Ela não foi embora para ser sentida.
Em outra cidade.
E enquanto ele segurava papéis tentando entender onde tinha errado, ela já tinha entendido algo muito antes:
Algumas mulheres não saem de casa com raiva.
E não voltam.







