Inicio / Romance / Ele Só Percebeu Quando Ela Sumiu / Capítulo 3 — O Papel Que Ele Não Soube Rasgar
Capítulo 3 — O Papel Que Ele Não Soube Rasgar

A notificação chegou numa manhã comum demais para o que carregava.

Não houve aviso.

Não houve ligação.

Não houve última tentativa de conversa.

A secretária apenas entrou na sala dele com um envelope pardo nas mãos, postura profissional, olhar neutro.

— Chegou isso para o senhor — disse, colocando-o sobre a mesa.

Ele mal levantou os olhos.

— Pode deixar aí.

Só quando a porta se fechou é que ele notou o remetente impresso no canto superior.

Um escritório de advocacia.

Ele franziu a testa.

— O que é isso agora… — murmurou, abrindo o envelope com impaciência, certo de que se tratava de algum problema burocrático qualquer.

Mas a primeira linha fez o ar abandonar seus pulmões.

“Notificação Extrajudicial — Pedido Formal de Divórcio.”

Ele releu.

Depois leu de novo.

E uma terceira vez, mais devagar, como se as palavras pudessem mudar de lugar.

Não mudaram.

O nome dela estava ali. Completo. Seguro.

A assinatura não tremia.

Ela tinha feito aquilo.

Ele empurrou a cadeira para trás de repente, levantando-se.

— Isso é absurdo — disse em voz alta, andando pela sala. — Ela não pode simplesmente…

Mas podia.

E tinha.

O texto era claro. Objetivo. Sem acusações. Sem dramas. Sem adjetivos desnecessários. Apenas fatos, datas e uma decisão tomada.

Ela não pedia nada além do que era seu.

E não oferecia nada além do fim.

Ele sentou-se novamente, passando a mão pelo cabelo, o coração acelerado agora de verdade.

Aquilo não era uma ameaça.

Não era um blefe.

Não era um pedido de atenção.

Era um encerramento.

Pegou o celular imediatamente e ligou.

Chamou.

Chamou de novo.

Nada.

Ligou mais uma vez, agora com o maxilar travado, o controle escapando pelas frestas.

Caixa postal.

— Atende, droga — murmurou.

Nada.

Ele tentou se convencer de que aquilo fazia parte do jogo. De que ela estava exagerando para provocar uma reação. Para obrigá-lo a ir atrás. Para retomar o poder.

Mas havia algo diferente demais naquele papel.

Não havia emoção.

Não havia raiva.

Não havia esperança.

Só decisão.

Ele saiu do escritório mais cedo naquele dia, ignorando compromissos, reuniões, explicações. Dirigiu até o prédio onde ela costumava ir quando precisava pensar. Tocou o interfone.

Nenhuma resposta.

Subiu mesmo assim. Bateu à porta.

— Abre — disse, tentando manter a voz firme. — A gente precisa conversar.

Silêncio.

Bateu de novo, mais forte.

— Isso aqui já passou do limite.

Nada.

Foi então que percebeu: ela não estava ali. Não estava em nenhum lugar que ele conhecesse. Não tinha deixado pistas. Não tinha feito questão de ser encontrada.

Ela tinha sumido de verdade.

Naquela noite, em casa, ele espalhou o envelope, a carta, o celular sobre a mesa como se pudesse montar um quebra-cabeça que explicasse quando havia perdido o controle da própria vida.

— Como você faz isso sem falar comigo? — disse para o vazio. — Depois de tudo?

Mas o vazio não respondia.

Ele passou horas revivendo momentos, procurando sinais, lembrando-se de vezes em que ela havia se calado — não por medo, mas por cansaço.

Ela tinha avisado.

Só não com palavras.

Quando finalmente sentou no sofá, o papel ainda nas mãos, sentiu algo que nunca sentira antes em relação a ela.

Medo.

Não de perdê-la para outro homem.

Não de ficar sozinho.

Mas de perceber que ela não precisava mais dele para nada.

E essa era a perda mais absoluta que alguém podia sofrer.

Ela não tinha ido embora para ser buscada.

Tinha ido para ser livre.

E ele entendeu:

Algumas mulheres não saem para voltar.

Saem para encerrar.

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