Mundo de ficçãoIniciar sessão
Isabela Moretti descobriu a traição em silêncio.
Não houve gritos.
Não houve confronto. Não houve lágrimas espalhadas pelo chão da cozinha.O celular estava sobre a mesa, vibrando de forma insistente, como se soubesse que carregava algo capaz de desmontar uma vida inteira. Isabela nunca fora do tipo que vasculhava o telefone de Lucas Ferraz. Nunca precisara disso. Confiava. Ou talvez apenas tivesse aprendido a não questionar demais.
Mas naquela noite, algo a fez olhar.
A mensagem estava aberta.
Uma foto. Um sorriso que não era para ela. Um toque que ela reconhecia — porque já tinha sido só dela.O mundo não caiu.
Foi pior.
Ele perdeu o peso.
Isabela ficou alguns segundos parada, encarando a tela como se estivesse lendo algo em outro idioma. O coração demorou a reagir. A mente tentou negar. Procurou falhas, ângulos, contextos, qualquer coisa que dissesse que aquilo não significava o que claramente significava.
Mas significava.
Lucas não estava confuso.
Não estava passando por uma fase difícil. Não tinha cometido um erro isolado.Ele tinha escolhido Camila Brandão.
Isabela bloqueou o celular com cuidado e o colocou exatamente no mesmo lugar de antes. Não o arremessou. Não o apertou com raiva. Não tremeu. Apenas respirou fundo — uma, duas vezes — sentindo algo inesperado crescer dentro de si.
Não foi a dor.
Foi o cansaço.
Um cansaço antigo, acumulado em concessões silenciosas, em desculpas que ela dava por ele, em noites esperando que ele voltasse diferente. Um cansaço de ser sempre a mulher compreensiva, madura, paciente.
Ela se sentou à mesa e ficou ali, em silêncio, até ouvir a porta se abrir.
Lucas entrou como sempre entrava.
Seguro. Tranquilo. Convencido de que tudo estava exatamente onde ele havia deixado.
— Isa? — chamou, jogando as chaves sobre o aparador. — Você chegou cedo hoje.
Ela levantou o olhar devagar.
E foi ali que algo mudou.
Não havia fúria nos olhos dela.
Não havia tristeza aparente. Não havia cobrança.Havia distância.
— Está tudo bem? — perguntou ele, franzindo a testa, desconfortável.
Isabela se levantou.
Passou por ele sem tocar, sem encostar, sem sequer respirar perto demais. Pegou a bolsa pendurada na cadeira.
— Preciso sair — disse, simples.
— Agora? — Lucas riu de leve, achando exagero. — Aconteceu alguma coisa?
Isabela parou na porta. Não se virou.
— Sim — respondeu. — Aconteceu.
Ele esperou mais. Uma explicação. Um questionamento. Um pedido. Qualquer coisa que o colocasse novamente no centro da situação.
Mas ela abriu a porta.
E saiu.
Sem perguntas.
Sem acusações. Sem dar a ele o conforto da defesa.O ar da rua estava frio, e só então o corpo de Isabela reagiu. As mãos tremeram levemente — não de medo, mas de libertação misturada com dor. Uma dor contida, profunda, que não precisava de plateia.
Ela caminhou sem destino por alguns minutos, sentindo o vestido bater contra as pernas, os passos ecoarem no asfalto. Cada passo parecia arrancar dela uma camada antiga: a mulher que esperava, que aceitava, que se calava.
Ela não chorou naquela noite.
Choraria depois.
Muito depois.Quando voltou para casa, Lucas estava no sofá, inquieto, com o celular na mão. Ao vê-la entrar, levantou-se de imediato.
— Onde você foi? — perguntou, agora sério. — Você saiu daquele jeito…
Isabela colocou a bolsa sobre a mesa e finalmente olhou para ele de frente.
Não havia raiva em seus olhos.
E isso o assustou mais do que qualquer grito.— Eu sei — disse ela.
Lucas engoliu em seco.
— Sabe… o quê?
Isabela deu um meio sorriso — não de ironia, mas de aceitação.
— Tudo.
O silêncio caiu entre eles como um abismo.
Lucas abriu a boca para falar. Para explicar. Para minimizar. Para culpar o momento, o passado, a confusão. Mas nenhuma palavra saiu. Porque, pela primeira vez, ele percebeu que Isabela não estava pedindo nada.
— Eu não vou discutir — continuou ela, calma demais para a situação. — Não vou perguntar, nem ouvir justificativas.
— Você está exagerando — ele tentou, por reflexo.
Isabela assentiu devagar.
— Talvez — disse. — Mas essa é a minha decisão.
Ela caminhou até o quarto. Pegou uma mala pequena. Colocou apenas o essencial. Roupas simples. Documentos. Nada que precisasse ser dividido.
Lucas a seguiu, atordoado.
— Você vai embora assim? — perguntou, a voz finalmente trêmula. — Sem conversar?
Isabela fechou o zíper da mala.
— Eu conversei sozinha por tempo demais — respondeu.
Parou diante dele.
— Você não me perdeu hoje — completou. — Me perdeu aos poucos. Só não percebeu.
Ela passou por ele mais uma vez.
Dessa vez, sem olhar para trás.
Quando a porta se fechou, Lucas ainda acreditava que era apenas uma briga.
Que ela voltaria. Que precisava de um tempo.Ele ainda não sabia.
Mas aquela foi a noite em que Isabela Moretti sumiu.
E o começo do dia em que Lucas Ferraz começaria a perder tudo.






