Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 2 — Ele Achou Que Era Só Um Tempo
Na manhã seguinte, ele acordou com a sensação incômoda de que algo estava fora do lugar.
Não foi o silêncio — a casa sempre fora silenciosa demais.
Foi a ausência de pequenos ruídos que ele só percebeu quando não existiam mais.O cheiro do café não veio da cozinha.
Nenhuma porta se fechou com cuidado. Nenhuma mensagem perguntando se ele tinha dormido bem.Ele se sentou na cama e olhou em volta, esperando que ela estivesse ali, talvez no banheiro, talvez emburrada, talvez esperando que ele fosse atrás.
Nada.
A mala pequena não estava mais encostada na parede.
O travesseiro dela estava frio.Ele respirou fundo e passou a mão pelo rosto.
— Drama — murmurou para si mesmo. — Ela sempre precisa de um tempo.
Levantou-se, tomou banho, se vestiu. Cada movimento carregava uma normalidade forçada, como se manter a rotina fosse uma forma de provar que ainda estava no controle.
Na cozinha, abriu a geladeira. Algumas coisas ainda estavam lá. Outras não.
Ela tinha sido metódica.
Não levara tudo — apenas o que era realmente dela.
Como se já tivesse decidido, há muito tempo, o que não pretendia mais carregar.Ele pegou o celular e escreveu:
“A gente conversa mais tarde.”
Visualizado.
Sem resposta.Ele franziu a testa. Tentou outra vez.
“Você saiu de cabeça quente. Vamos resolver isso com calma.”
Nada.
O silêncio começou a incomodar.
No trabalho, percebeu-se distraído. Olhava o relógio com frequência, como se esperasse uma ligação, uma mensagem atravessada, um pedido de atenção. Não vinha.
Durante o almoço, contou para um colega:
— Tivemos uma discussão boba ontem. Ela saiu pra esfriar a cabeça.
Falou com naturalidade. Como se fosse apenas mais um episódio previsível. Como se conhecesse perfeitamente os limites dela.
À tarde, ligou.
Chamou.
Chamou de novo.A chamada caiu na caixa postal.
Foi aí que ele sentiu o primeiro desconforto real — não medo, mas irritação.
Ela nunca ignorava suas ligações.
Mandou outra mensagem, agora menos paciente:
“Não precisa exagerar.”
Visualizado.
Sem resposta.
À noite, voltou para casa esperando encontrá-la sentada no sofá, talvez chorando, talvez pronta para discutir. A casa, no entanto, o recebeu como um espaço estranho. Grande demais. Vazio demais.
O lado do guarda-roupa dela parecia… leve.
Algumas roupas haviam desaparecido. Os cabides vazios criavam espaços que ele não lembrava de ter visto antes.
Ele abriu a gaveta do criado-mudo dela. Não havia nada além de um papel dobrado.
Seu nome, escrito com a letra dela.
Ele sentiu o peito apertar pela primeira vez.
Abriu.
“Eu não fui embora para te ensinar uma lição. Fui embora porque fiquei tempo demais tentando entender o que não precisava de explicação.”
Nada mais.
Nenhum pedido.
Nenhuma ameaça. Nenhuma promessa de volta.Ele leu duas vezes. Depois uma terceira.
E riu, nervoso.
— Ela está blefando — disse em voz alta, como se a casa pudesse discordar. — Sempre volta.
Mas naquela noite, dormiu mal.
Virou de um lado para o outro. Pegou o celular. Abriu conversas antigas. Fotos. Mensagens que agora soavam… distantes.
Ela sempre estivera ali. Sempre disponível. Sempre esperando.
Até não estar mais.
No terceiro dia, começou a ligar para amigos em comum.
— Você falou com ela? — perguntou, casual demais.
— Não — responderam. — Ela só disse que precisava de um tempo.
Um tempo.
Ele gostava daquela palavra.
Era confortável. Temporária. Controlável.Mas o tempo começou a se alongar.
E a ausência dela, que ele acreditava dominar, passou a ocupar todos os espaços.
Ela não reclamava mais.
Não cobrava. Não esperava.E foi então que ele começou a perceber algo inquietante:
Ela não estava tentando ser notada.
Ela estava seguindo em frente.
E ele não sabia onde ela estava — nem se queria ser encontrada.







