RASTROS INVISÍVEIS

Eu não gosto de erros.

Mas gosto ainda menos de inconsistências.

Erros acontecem.

São previsíveis. Localizáveis. Corrigíveis.

Inconsistências...

não.

Inconsistências significam que algo está fora do padrão.

E tudo que foge do padrão... tem um motivo.

Voltei para a minha mesa com o relatório aberto na tela.

O arquivo já não parecia o mesmo.

Não depois do que eu vi.

Não depois do que eu senti.

Aquilo não era um erro.

Era uma alteração.

E alguém fez isso de propósito.

Ajustei os óculos.

Respirei fundo.

E comecei.

Primeiro passo: rastreamento.

Se aquele relatório existia, ele precisava ter passado por algum lugar.

E-mails.

Sempre e-mails.

Nada dentro daquela empresa circulava sem registro.

Ou quase nada.

Abri o sistema interno.

Pesquisei pelo nome do arquivo.

Depois por palavras-chave.

Depois pelo meu próprio nome.

Nada.

Nem um único envio.

Nem um rascunho.

Nem uma cópia.

Meu maxilar tensionou levemente.

Isso não fazia sentido.

Ampliei a busca.

Período maior.

Filtros diferentes.

Remetentes.

Destinatários.

Departamentos.

Nada.

Absolutamente nada.

O cursor piscava na tela como se estivesse me provocando.

Aquilo não existia.

Mas eu tinha visto.

Eu tinha lido.

Eu tinha sido chamada por causa daquilo.

Inclinei o corpo para frente.

Mais perto da tela.

Mais focada.

Se não estava nos e-mails...

então não passou pelo fluxo normal.

E isso significava apenas uma coisa.

O relatório não circulou.

Ele foi entregue.

Direto.

Sem análise.

Sem revisão.

Sem filtro.

Direto para o CEO.

Meu estômago contraiu.

Isso não era só um problema.

Era uma quebra de protocolo.

E ninguém quebra protocolo naquela empresa sem saber exatamente o que está fazendo.

Ou sem ter poder suficiente para isso.

Afastei as mãos do teclado por um segundo.

Pensando.

Organizando.

Se não havia registro digital...

restavam duas opções:

Ou alguém tinha acesso privilegiado.

Ou alguém queria que não houvesse rastro.

E, em ambos os casos...

isso não era pequeno.

Levantei.

Rápido demais para alguém como eu.

A cadeira fez um leve ruído ao se mover.

Alice levantou o olhar imediatamente.

— O que foi?

Ignorei.

Não por falta de educação.

Mas porque explicar levaria tempo.

E tempo, naquele momento, era um recurso que eu não queria desperdiçar.

Peguei minha bolsa.

Meu crachá.

E saí.

Os corredores pareciam mais estreitos do que antes.

Ou talvez eu estivesse andando mais rápido.

O som dos meus passos já não era contido.

Não dessa vez.

As pessoas olharam.

Algumas com curiosidade.

Outras com aquela mesma expressão silenciosa que eu já conhecia.

Mas agora...

não era invisibilidade.

Era atenção.

E eu não tinha tempo para isso.

O elevador.

De novo.

A placa ainda brilhava.

"EXECUTIVOS".

Dessa vez, eu não hesitei.

Pressionei o botão.

As portas se abriram.

Entrei.

Sozinha.

O reflexo no espelho era o mesmo.

Mas não era.

Havia algo diferente.

Não na aparência.

Na intenção.

Cruzei os braços.

Olhei para mim mesma por um segundo.

E desviei.

O elevador subiu.

Mais rápido do que antes.

Ou talvez a sensação fosse diferente.

Quando as portas se abriram, o silêncio me recebeu novamente.

Frio.

Controlado.

Impecável.

Saí.

Direto.

Sem parar.

Sem pensar demais.

Eu precisava falar com ele.

Antes que aquilo crescesse.

Antes que alguém apagasse qualquer outra evidência.

— Samantha.

A voz me fez parar.

Fechei os olhos por um segundo.

Respirei.

E me virei.

Suzana.

Claro.

Sempre ela.

— Você não tem autorização para estar aqui — disse, já se levantando.

A postura impecável.

O olhar afiado.

Diferente de antes.

Mais atento.

Mais... desconfiado.

— Eu preciso falar com o senhor Volkov.

— Não precisa.

A resposta veio rápida.

Automática.

— Eu preciso, sim.

Dei um passo à frente.

Ela não se moveu.

— Assuntos com o CEO passam por mim.

— Esse não.

Os olhos dela estreitaram.

Levemente.

— Tudo passa por mim.

— Então você já sabe.

Silêncio.

Curto.

Mas suficiente.

— Sei do quê, exatamente? — perguntou, cruzando os braços.

Observei.

A postura.

O tom.

O tempo de resposta.

Ela estava jogando.

— Que o relatório não passou por nenhum setor.

A expressão dela não mudou.

Mas algo nos olhos...

mudou.

Sutil.

Rápido.

Mas eu vi.

— Você está fazendo acusações sérias.

— Estou fazendo uma análise.

Mais um passo.

Agora estávamos mais próximas.

— Não existe registro de envio. Não existe histórico. Não existe validação interna.

Pausa.

— Isso não é um erro operacional.

Silêncio.

O ar entre nós ficou mais pesado.

— Volte para o seu setor, Samantha.

A voz dela agora era mais baixa.

Menos teatral.

Mais firme.

— Não antes de falar com ele.

— Você não vai falar com ele.

A resposta veio direta.

Sem margem.

E foi aí que eu entendi.

Aquilo não era só controle de acesso.

Era contenção.

Inclinei levemente a cabeça.

Analisando.

— Por quê?

Ela não respondeu imediatamente.

E isso...

foi resposta suficiente.

Meu coração acelerou.

Mas não por medo.

Por confirmação.

— Você já sabe — falei, mais baixo.

Os olhos dela se fixaram nos meus.

— Cuidado com o que você está insinuando.

— Eu não estou insinuando.

Mais um passo.

Agora perto o suficiente para não precisar elevar a voz.

— Eu estou dizendo que alguém pulou o processo.

Silêncio.

Longo.

Tenso.

E então—

A porta atrás dela se abriu.

O som foi suave.

Mas suficiente para quebrar tudo.

Nós duas olhamos ao mesmo tempo.

E ele estava ali.

Adrian Volkov.

Observando.

E, pelo modo como seus olhos passaram de Suzana... para mim...

ele já sabia.

Ou, no mínimo...

suspeitava.

E, dessa vez...

não havia mais como esconder.

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