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O PREÇO DE SER VISTA

Eu não queria estar ali.

O problema não era o lugar.

Era o que ele representava.

O fim de uma rotina segura.

O fim do controle.

E eu sempre tive controle.

Ou, pelo menos... acreditava ter.

O elevador abriu com um som quase silencioso, como se até o metal ali tivesse sido treinado para não incomodar. O andar era diferente de tudo que existia abaixo.

Mais amplo.

Mais vazio.

Mais... intencional.

O ar era mais frio.

Não o tipo de frio que vem do ar-condicionado.

Era outro.

Controlado. Calculado. Como se até a temperatura tivesse sido ajustada para manter as pessoas despertas... e desconfortáveis o suficiente para não relaxarem.

O chão refletia meus passos com perfeição. Polido demais. Limpo demais. Cada som parecia ampliado, como se eu estivesse invadindo um espaço que não tolerava falhas.

Ali não havia papéis fora do lugar.

Não havia vozes.

Não havia vida.

Apenas ordem.

E poder.

— Você demorou.

A voz de Suzana cortou o silêncio com precisão.

Levantei o olhar.

Ela estava exatamente onde deveria estar. Atrás da mesa, postura impecável, expressão calculada. Parte do cenário.

— Desculpa — respondi.

Ela me analisou como se estivesse confirmando uma teoria silenciosa.

— Ele não gosta de esperar.

Assenti.

Não porque aquilo fosse relevante.

Mas porque, naquele ambiente, tudo parecia exigir uma resposta correta.

Ela se levantou.

O som dos saltos no chão era ritmado. Seco. Seguro. Cada passo parecia ter sido ensaiado.

Parou ao meu lado.

O perfume dela era forte demais. Artificial demais.

— Tente não falar demais — disse, em um tom baixo, quase confidencial. — Ele não tem paciência para pessoas... irrelevantes.

Irrelevantes.

A palavra não doeu.

Eu já tinha ouvido coisas piores.

Mas, ali...

soou diferente.

Talvez porque, pela primeira vez, eu não estava invisível o suficiente para ignorar.

Ela bateu na porta.

Duas vezes.

Sem hesitar.

— Pode entrar.

A voz veio de dentro.

Grave. Controlada. Sem esforço.

Mas havia algo nela...

Algo que não combinava com o resto do ambiente.

Não era só autoridade.

Era domínio.

Passei pela porta.

E, no instante em que ela se fechou atrás de mim, eu senti.

A mudança.

O escritório era amplo, mas não excessivo. Cada objeto parecia ter sido escolhido com um propósito específico. Nada decorativo. Nada supérfluo.

Vidro.

Metal escuro.

Linhas retas.

A luz natural entrava pelas janelas enormes, mas não aquecia o ambiente. Apenas iluminava.

Fria.

A cidade se estendia lá embaixo, distante, reduzida a padrões e movimento. Pequena.

Controlável.

Assim como tudo ali dentro.

E, ainda assim...

nada chamava mais atenção do que ele.

Adrian Volkov.

De costas para mim.

Parado diante da janela como se estivesse observando algo além do que era visível.

A postura era perfeita.

Não rígida.

Controlada.

Como se cada músculo soubesse exatamente onde deveria estar.

As mãos estavam atrás do corpo, relaxadas... mas não completamente.

Era o tipo de relaxamento que não abandona a prontidão.

Ele não se virou imediatamente.

E o silêncio que se formou...

não era vazio.

Era pressão.

Fiquei parada.

Sem saber se devia anunciar minha presença.

Sem saber se ele já sabia que eu estava ali.

Mas ele sabia.

— Samantha Whitmore.

Meu nome saiu da boca dele como um dado já confirmado.

Sem dúvida.

Sem erro.

Ele se virou.

Devagar.

E foi nesse momento que eu entendi.

O problema não era o ambiente.

Era o olhar.

Porque, quando os olhos dele encontraram os meus...

não foi um simples olhar.

Foi uma análise.

Direta. Profunda. Incômoda.

Como se ele estivesse atravessando cada camada que eu passei anos construindo.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

O ar ficou mais pesado.

Minha respiração, mais consciente.

Meu coração... irregular.

Eu não gostava disso.

Não gostava de reações que eu não controlava.

— Você entrou no elevador errado hoje.

A voz dele era baixa.

Mas carregava um tipo de certeza que não deixava espaço para negação.

— Sim.

Ele deu um passo na minha direção.

Aproximando.

Sem pressa.

Sem desviar o olhar.

Cada movimento dele parecia... calculado para efeito.

— E esse não foi o único erro.

Meu estômago contraiu.

Erro.

A palavra não combinava comigo.

— Seu relatório.

Ele se moveu até a mesa e pegou um documento.

O som do papel sendo deslizado sobre a superfície foi limpo. Preciso.

Sem ruído desnecessário.

Ele estendeu o relatório na minha direção.

— Página três.

Peguei.

Meus dedos estavam firmes.

Treinados.

Acostumados com aquilo.

Olhei.

E, por um segundo...

não entendi.

Depois entendi.

E algo dentro de mim... travou.

Aquilo estava errado.

Não era um erro simples.

Era um erro estrutural.

Um cruzamento de dados mal feito. Uma projeção incoerente. Uma falha básica que eu jamais deixaria passar.

Meu olhar percorreu cada linha.

Cada número.

Cada ligação lógica.

E então eu tive certeza.

Aquilo não era meu.

O silêncio se estendeu.

Mas, dessa vez, não foi ele que me pressionou.

Foi outra coisa.

Algo mais familiar.

Mais forte.

Mais perigoso.

Perfeccionismo.

— Eu não escrevi isso.

As palavras saíram antes que eu pudesse suavizá-las.

Antes que eu pudesse torná-las seguras.

Levantei o olhar.

Ele ainda estava me observando.

Mas agora... diferente.

Mais atento.

— Seu nome está no relatório — disse ele.

— Sim.

Respirei fundo.

Não para me acalmar.

Para organizar.

— Mas isso não é meu.

Dei um passo à frente.

Coloquei o relatório sobre a mesa, apontando para a linha específica.

— Essa projeção está errada. O cruzamento de dados ignora duas variáveis básicas. Se isso fosse aplicado, a empresa tomaria uma decisão baseada em um erro primário.

Minha voz não falhou.

Não hesitou.

E isso... não era comum.

— Eu não cometo esse tipo de erro.

O silêncio voltou.

Mas, dessa vez... não foi desconfortável.

Foi... denso.

Senti o olhar dele se aprofundar.

Não mais superficial.

Não mais avaliando apenas aparência ou postura.

Era diferente.

Como se ele estivesse recalculando.

— Está dizendo que alguém alterou o seu relatório?

— Estou dizendo que isso não passou por mim.

Direto.

Sem rodeios.

Sem pedir permissão para estar certa.

E, naquele momento... eu percebi.

Eu não estava tentando me defender.

Eu estava corrigindo.

Porque erro... me incomoda.

Mas erro que não é meu... é inaceitável.

Ele se aproximou mais.

Dessa vez, perto o suficiente para que eu sentisse a presença dele de verdade.

Não era só físico.

Era outra coisa.

Mais sutil.

Mais intensa.

— Interessante.

A palavra veio baixa.

Mas não era vazia.

Ele pegou o relatório novamente.

Olhou.

Depois olhou para mim.

E, pela primeira vez... não havia frieza completa ali.

Havia algo a mais.

Curiosidade.

— A maioria teria se desculpado.

— A maioria não teria percebido.

A resposta saiu antes que eu pudesse filtrar.

Silêncio.

Mas, dessa vez... foi diferente.

Porque algo mudou.

Não no ambiente.

Não na situação.

Nele.

O olhar.

Mais focado.

Mais presente.

Mais... interessado.

E isso foi pior do que qualquer julgamento.

Porque, pela primeira vez... ser vista não parecia um erro.

Parecia um risco.

E eu não tinha certeza se queria lidar com o preço disso.

— Então me diga, Samantha...

A voz dele agora era mais baixa.

Mais próxima.

Mais direta.

— Se não foi você... quem foi?

Meu coração bateu mais forte.

Mas não por medo.

Por outra coisa.

Algo que eu não reconheci de imediato.

Talvez porque... não fosse algo que eu costumava sentir.

Desafio.

E, pela primeira vez em muito tempo... eu não quis recuar.

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