Mundo de ficçãoIniciar sessãoA chuva aumentava a cada minuto.
As gotas caíam pesadas sobre a cidade, formando pequenos rios junto ao meio-fio. Helena caminhava sem direção. Não sabia quanto tempo havia saído do apartamento de Ricardo. Cinco minutos. Vinte. Talvez uma hora. O tempo havia perdido o sentido. Seu celular vibrava sem parar dentro da bolsa. Ela nem precisava olhar para saber quem era. Ricardo. Vanessa. Talvez sua mãe. Talvez algum colega perguntando sobre o casamento. Ela simplesmente ignorou. Naquele momento, não queria ouvir ninguém. Queria apenas fugir. Fugir da dor. Das lembranças. Da vergonha. Parou diante da vitrine de uma joalheria. Seu reflexo apareceu no vidro. Os cabelos estavam molhados. A maquiagem havia sido levada pela chuva e pelas lágrimas. Ela mal se reconhecia. — Como eu fui tão cega? — sussurrou para si mesma. As lembranças voltavam como uma tempestade. Ricardo dizendo que a amava. Vanessa ajudando a escolher o vestido de noiva. As duas provando flores para a decoração da igreja. As risadas. Os abraços. Tudo parecia uma mentira cuidadosamente planejada. Uma lágrima escorreu novamente. — Chega... Ela respirou fundo e voltou a caminhar. Na Mansão Castellani... O enorme relógio da sala marcava seis horas da tarde. Enzo permanecia sentado à mesa da cozinha. O prato de comida estava praticamente intacto. Ele segurava o garfo com as duas mãos. Os olhos baixos. A expressão triste. Sabrina entrou usando um elegante vestido vermelho. Seus saltos ecoavam pelo mármore. Ela cruzou os braços. — Vai ficar olhando para esse prato até quando? Enzo respondeu baixinho. — Eu não estou com fome. Ela se aproximou. O sorriso delicado que costumava mostrar na frente de Lorenzo desapareceu completamente. — Você vai comer. — Não consigo... Ela bateu a mão sobre a mesa. O menino levou um susto. — Eu mandei comer! Os olhos de Enzo encheram-se de lágrimas. — Eu só queria esperar o papai... Sabrina aproximou o rosto do dele. Seu tom tornou-se frio. Cruel. — Seu pai não tem tempo para um menino chorão como você. Enzo abaixou a cabeça. Ela segurou seu braço com força. — Escuta bem. Quando Lorenzo chegar, você vai sorrir. Vai dizer que passou uma tarde maravilhosa comigo. Entendeu? O menino fez um pequeno gesto afirmativo. — Mais alto. — Sim... Ela apertou ainda mais. — Sim o quê? — Sim... senhora... Satisfeita, Sabrina o soltou. Naquele instante, ouviu o barulho de um carro entrando na garagem. Ela sorriu imediatamente. Em poucos segundos, transformou completamente sua expressão. Pegou um copo de suco. Acariciou os cabelos de Enzo. E abriu um sorriso doce. Lorenzo entrou na cozinha. — Boa noite. Enzo levantou da cadeira rapidamente. — Papai! Correu para abraçá-lo. Lorenzo sorriu. Era impossível não sorrir quando o filho o abraçava daquela maneira. — Como foi seu dia, campeão? Antes que Enzo pudesse responder, Sabrina falou. — Foi maravilhoso. Brincamos a tarde inteira. Não foi, meu amor? Enzo olhou rapidamente para ela. Depois para o pai. Lembrou-se do aperto em seu braço. Das ameaças. Então respondeu quase num sussurro. — Foi... Lorenzo beijou a cabeça do filho. — Que bom. Obrigado por cuidar dele, Sabrina. Ela sorriu. — Faço isso porque amo vocês. Enzo fechou os olhos. Pela primeira vez... Mentir para o pai doeu mais do que qualquer castigo. Mais tarde... Depois do jantar... Lorenzo entrou em seu escritório para terminar alguns documentos. Enzo permaneceu no quarto. Sentado perto da janela. Abraçado ao ursinho que havia pertencido à sua mãe. Olhou para uma fotografia dela sobre o criado-mudo. — Mamãe... Sua voz era baixa. Quase um sussurro. — Eu sinto saudades. Os olhos voltaram a ficar cheios de lágrimas. — Eu queria que você estivesse aqui... O menino ouviu passos no corredor. Rapidamente enxugou o rosto. A porta abriu. Era Sabrina. Ela entrou devagar. Fechou a porta atrás de si. O sorriso doce havia desaparecido outra vez. — Então... Você quase contou a verdade para o seu pai hoje. Enzo balançou a cabeça. — Eu não ia contar... Ela aproximou-se. — Espero que não. Porque se contar... Você nunca mais verá esse ursinho. Ela arrancou o brinquedo das mãos dele. Enzo levantou desesperado. — Não! — Quieto. Ela ergueu o ursinho. — Você gosta muito dele, não gosta? O menino começou a chorar. — Foi minha mãe que me deu... Sabrina sorriu friamente. — Então faça exatamente o que eu mandar. Ou ele vai parar no lixo. Ela devolveu o brinquedo apenas para vê-lo abraçar o objeto com força. Depois saiu do quarto. Batendo a porta. Enzo ficou sozinho. As lágrimas voltaram. Olhou novamente pela janela. Lá fora... A chuva continuava forte. Naquele momento, uma decisão nasceu dentro do coração daquele pequeno menino. Ele não aguentava mais. Precisava fugir. Mesmo sem saber para onde. Já passava das oito da noite. A mansão estava silenciosa. Os empregados terminavam seus afazeres. Lorenzo ainda trabalhava. Sabrina falava ao telefone em seu quarto. Enzo abriu cuidadosamente a porta do dormitório. Olhou para os dois lados do corredor. Ninguém. Desceu as escadas na ponta dos pés. Passou pela cozinha. Pela lavanderia. Até chegar à porta dos fundos. Seu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito. Girou lentamente a maçaneta. A porta abriu. O vento frio atingiu seu rosto. Ele respirou fundo. Segurou o ursinho junto ao peito. E deu o primeiro passo para fora da mansão. Sem olhar para trás. Sem imaginar que, naquela mesma noite, o destino estava guiando seus passos para uma mulher que também havia perdido tudo. Uma mulher chamada Helena.






