Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio tomou conta do quarto.
Helena permaneceu imóvel na porta. As lágrimas brotaram antes mesmo que ela percebesse. Seu peito apertou de um jeito que nunca havia sentido. Ela não conseguia respirar. Os olhos percorriam o quarto lentamente. As roupas espalhadas pelo chão. Os lençóis completamente desalinhados. Ricardo e Vanessa ainda muito próximos um do outro sobre a cama, olhando para ela como se tivessem sido interrompidos em algo inconveniente... e não em uma traição cruel. A caixa de doces permanecia caída no chão. As rosas vermelhas estavam espalhadas pelo piso. Uma delas havia perdido as pétalas. Assim como o coração de Helena. Ricardo foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Helena... Ela ergueu uma das mãos. — Não... Sua voz saiu baixa. Fraca. — Não diz o meu nome. Vanessa cruzou os braços e soltou uma risada discreta. — Acho que agora não adianta mais esconder. Helena olhou para a mulher que considerava sua irmã. Quantas noites haviam passado juntas estudando? Quantos segredos compartilharam? Quantas vezes Vanessa enxugou suas lágrimas? Agora ela entendia. Algumas daquelas lágrimas tinham sido provocadas pela própria mulher que fingia consolá-la. — Há quanto tempo? — perguntou Helena, quase sem forças. Ricardo suspirou. — Isso realmente importa? Helena levantou a cabeça. Os olhos marejados encontraram os dele. — Importa para mim. Vanessa respondeu antes que ele pudesse falar. — Um ano. Helena perdeu o equilíbrio por um instante. Precisou segurar na parede. Um ano. Enquanto ela escolhia vestidos de noiva... Eles escolhiam hotéis. Enquanto ela sonhava com uma família... Eles riam dela. Enquanto ela acreditava estar construindo um futuro... Os dois destruíam tudo pelas suas costas. Ricardo caminhou até ela. — Escuta... Ela recuou imediatamente. — Não chega perto de mim. Ele parou. Pela primeira vez parecia um pouco incomodado. — Eu nunca quis que você descobrisse assim. Helena deu uma risada amarga. — Que consideração da sua parte. Vanessa revirou os olhos. — Para de fazer drama, Helena. Isso acontece. Homens traem. Casamentos acabam antes mesmo de começar. Você supera. Helena olhou para ela incrédula. — Você está tentando me ensinar como superar o fato de que minha melhor amiga destruiu minha vida? Vanessa sorriu. — Sua vida já era sem graça. Você vivia estudando. Trabalhando. Economizando dinheiro. Sempre tentando ser perfeita. Era cansativo até assistir. Helena respirou fundo. Nunca havia sentido tanta dor. Nem tanta raiva. Ricardo colocou as mãos nos bolsos. — Vamos ser adultos. Nosso casamento não fazia mais sentido. Minha família queria essa união. Seu currículo era impecável. Você seria uma excelente esposa para alguém da minha posição. Mas amor... Nunca existiu. As palavras atravessaram Helena como lâminas. — Então todos aqueles "eu te amo"... Ele deu de ombros. — Eram necessários. Vanessa começou a rir. Uma gargalhada alta. Cruel. — Você acreditava em tudo. Quando você me mostrava alianças... Vestidos... Lua de mel... Eu já sabia exatamente onde o Ricardo estaria naquela noite. Comigo. Helena fechou os olhos. As lembranças começaram a voltar. As desculpas. As viagens inesperadas. As reuniões de última hora. As mensagens que demoravam para ser respondidas. Tudo fazia sentido agora. Ela abriu os olhos novamente. Desta vez, havia algo diferente. A tristeza continuava ali. Mas também havia dignidade. Com movimentos lentos, retirou a aliança do dedo. Observou o anel por alguns segundos. Recordou o pedido de casamento. As promessas. Os planos. Os sonhos. Nada daquilo existia mais. Sem dizer uma palavra, lançou a aliança na direção de Ricardo. O anel bateu contra o peito dele antes de cair no chão. O brilho da pedra refletiu a luz do quarto por um breve instante. — Acabou. Ricardo respirou fundo. — Helena... — Não. Ela o interrompeu. — Não tente justificar. Nem pedir perdão. Nem inventar desculpas. Vocês fizeram uma escolha. Agora convivam com ela. Vanessa sorriu com desdém. — Você vai encontrar outro homem qualquer. Helena olhou diretamente para ela. — Talvez. Mas uma coisa é certa... Jamais vou precisar roubar o noivo da minha melhor amiga para me sentir importante. O sorriso de Vanessa desapareceu. Pela primeira vez, a frase atingiu seu orgulho. Ricardo tentou amenizar. — Você está nervosa. Depois conversamos. Helena deu dois passos em direção à porta. Parou. Sem olhar para trás, falou calmamente: — Hoje vocês perderam alguém que realmente os amava. Mas eu... Hoje descobri quem vocês realmente são. E isso vale muito mais. Ela saiu. A porta bateu com força. O som ecoou pelo apartamento inteiro. No corredor, Helena caminhava sem enxergar nada. As lágrimas caíam sem controle. Entrou no elevador. Assim que as portas se fecharam, suas pernas perderam as forças. Ela deslizou até o chão. Levou as mãos ao rosto. E chorou. Chorou pela mulher que acreditava ser. Pelos sonhos que acabavam de morrer. Pelo casamento que nunca aconteceria. Pela amizade que jamais existiu. Quando o elevador chegou ao térreo, ela enxugou rapidamente o rosto. Saiu do prédio sem destino. A chuva começava a cair. As primeiras gotas tocaram seu rosto, misturando-se às lágrimas. Ela atravessou a avenida completamente perdida em seus pensamentos. Não percebeu o sinal abrir. Não ouviu as buzinas. Nem viu uma pequena figura correndo pela calçada do outro lado da rua. Um menino de olhos claros fugia desesperado de alguém. Os dois ainda não sabiam. Mas o destino já havia decidido que suas vidas jamais voltariam a ser as mesmas.






