Capítulo 4

Apollo Galanis

Não é todo dia que você descobre que tem uma filha e que perdeu parte da infância dela. Sinto como se meu peito estivesse oco. Saber que eu perdi tanto dói como se meu coração estivesse sendo perfurado dezenas de vezes.

Ana Lívia disse coisas que me machucaram e não fizeram sentido nenhum na minha cabeça. Porra, se eu soubesse que ela estava grávida, largaria tudo para vir ficar ao seu lado. Eu passei anos procurando aquela garota.

Estou no sofá da casa do Eros e da Kate, com as mãos afundadas no rosto depois de ter jogado a enxurrada de informações que descobri nas últimas horas. Eles não falaram uma palavra sequer durante meu relato e sei que me encaram, pensando no que dizer. O primeiro a tomar a iniciativa é Eros.

— Bom, ela disse que a filha não é sua. Tem certeza do que está falando? Se sim, existem meios legais para conseguir o exame de DNA e obter seus direitos como pai — Eros é racional de certa forma. Sei que posso entrar com pedido legal para confirmar se realmente sou pai da Sophia, mas não quero que a minha relação com a Ana Lívia se torne um campo minado.

Levanto meu rosto e encaro meu amigo, acenando negativamente com a cabeça.

— Não quero ter que recorrer à justiça, demoraria meses. E como acha que ficaria minha relação com a mãe da menina? — falo baixo.

— Você precisa se sentar e conversar com ela, Apollo. Entender o que ela quis dizer quando insinuou que você sabia... nós somos a prova viva de que mal-entendidos acontecem. Quando vocês conversaram, ambos estavam alterados, então tenta encontrar com ela e conversar com calma — Kate fala, segurando minha mão.

— Ela literalmente escondeu a filha dele, Kate, não acho que tem o que conversar... — Eros rebate, e Kate o fulmina com o olhar.

— Você sabe o lado da história dele, mas e o dela? — Kate fala encarando o marido. — Já parou para pensar se você não tivesse vindo morar no Brasil ou trabalhar no hospital do meu pai? Não iria saber sobre o Heitor! E então? Se me achasse, ia falar que escondi o filho de você?

— Sabe que é diferente, nós não nos conhecíamos, não sabíamos nada um do outro — Eros cruza os braços na frente do peito, mas seu tom de voz é doce. O cara tem mais de um metro e noventa e a garota parada do meu lado consegue deixar ele mansinho.

— Apollo, procura a garota. Conversa com ela. Se realmente não conseguirem chegar a lugar nenhum, eu serei a primeira a ficar do seu lado, mas tem que dar o benefício da dúvida para ela. — Ela sorri de forma encorajadora e não consigo não retribuir.

Eros não fala mais nada. A cabeça dele parece estar girando algumas engrenagens enquanto provavelmente pensa nas palavras da bruxinha.

Eles tiveram sorte, ou o destino é um filho da puta que tem seus favoritos. Se encontraram mesmo não sabendo nada sobre o outro e, mesmo quando tudo indicava que não iriam ficar juntos, a garota teimosa foi lá e fez dar certo.

Eles merecem a felicidade que têm. Meu amigo passou por tanta coisa e fico imensamente feliz por ver ele finalmente construir sua família. Mas, em contrapartida, eu conhecia a garota. Eu sabia seu nome e ela sabia o meu e, mesmo assim, nós demoramos anos para nos encontrar e eu perdi partes importantes da vida da minha filha.

Uma filha. Eu tinha uma filha e não sabia absolutamente nada sobre ela.

— Eu perdi tanta coisa... o primeiro ultrassom, o primeiro sorriso, o primeiro passo, a primeira palavra, o primeiro dia na escolinha. Eu perdi tudo isso e muito mais — falo esgotado, porque a dor é real.

— Eu não posso falar que entendo o que você está sentindo, porque eu sou um sortudo do caralho por ter encontrado a Kate e o Heitor — Eros começa. — Mas mesmo tendo demorado, você também encontrou sua filha. Você perdeu essas primeiras vezes, mas ainda vai estar ao lado dela em todas as outras próximas vezes. Vai poder levar ela pela primeira vez à Grécia, vai poder segurar a mão dela todas as vezes que ela sentir medo, no primeiro encontro... — Faço uma careta. Nem quero pensar nisso. Eros ri da minha reação, mas continua — No primeiro dia de faculdade e tantas outras coisas... você vai ser o melhor pai para aquela garotinha e o que posso te dizer é que já amo ela como se fosse minha sobrinha.

Abro um sorriso com a sua fala.

— Eu preciso dizer que estou super empolgada de não ser mais a única garota no meio dos gregos. Ganhei duas parceiras! — Kate fala sorrindo e eu e o Eros a encaramos. — O quê? Acha que é fácil viver só no meio de homem? Além de tudo, ainda pari um.

Dou uma risada anasalada e Eros sorri para a esposa.

— Você é terrível, garota — digo.

— Sei que você me ama. — Ela mostra a língua e se levanta. — Agora eu preciso ir, que tenho aula... amo vocês, não façam besteira enquanto eu estiver fora. — Ela me dá um beijo na bochecha e um selinho no Eros. — Ah, o Heitor vai ficar com a sua mãe hoje, assim que ele acordar leva ele, ok?

Ela fala olhando para o Eros, que acena com a cabeça.

Em todos esses anos que conheço meu amigo, nunca pensei que veria ele tendo uma relação com a sua mãe. O caminho para os dois ainda é longo, tem uma ferida que vai demorar para cicatrizar, mas eles estão se esforçando.

— E então, já decidiu se vai procurar a família do seu pai? — pergunto para o meu amigo, e ele respira fundo, sentando-se ao meu lado.

— Você está desviando o assunto para mim? — Ele arqueia a sobrancelha me encarando e dou de ombros. — Olha, não sei bem se vou procurar pela garota. Ela tem a vida dela e provavelmente tem uma visão do homem que não cheguei a conhecer. Por mais que seja tentador saber mais sobre ele, ter uma irmã e tudo mais, não sei como posso simplesmente invadir a vida dela e me enfiar como um intruso.

— Você não pode falar que ela vai te considerar um intruso sem ao menos dar a ela a chance de te conhecer — falo sincero.

— É, eu sei... — Ele encosta as costas no sofá e cruza os braços.

— O que a Kate fala sobre o assunto? — indago, e ele sorri.

— Você deve imaginar, de que independente do que eu escolher, ela vai me apoiar e que eu deveria dar a chance de aumentar a nossa família.

Acabo rindo baixinho.

— A cara dela... — concordo, balançando a cabeça.

— Bom, vou ir levar o Heitor para ficar com a minha mãe e trabalhar. Me dá notícias? — Ele se levanta e começa a andar em direção ao quarto do bebê.

— Vou pensar no seu caso, já que não quis nem me contar o nome da sua irmã... — cantarolo, e ele me encara com os olhos semicerrados.

— Sabe que vou contar somente se eu decidir que vou fazer parte da vida dela. E, por te conhecer muito bem, sei que seria enxerido e procuraria a garota sozinho — ele rebate, e eu concordo.

— Claro, alguém tem que ter atitude. — Pisco para ele e me levanto. — Vou para casa descansar um pouco.

Eros vai para o quarto pegar o Heitor e, em pouco tempo, retorna com meu sobrinho nos braços.

Dou um beijo na cabeça do garoto, que dorme igual pedra, e o sorriso que nasce em meus lábios é quase involuntário. Eu amo tanto essa criança que chega a ser assustador. Agora, penso na minha filha. Eu não tive a chance de ver ela crescer... pelos deuses.

Eros parece sentir que minha cabeça está em conflito e apoia uma das mãos no meu ombro.

— Estamos com você, irmão. Sei que perdeu muito, mas vai poder recuperar o tempo perdido fazendo parte da vida dela a partir de agora. — Ele dá um sorriso fraco e eu aceno com a cabeça, porque não consigo proferir nenhuma palavra e nem preciso.

Saímos juntos do apartamento e ele parte levando o Heitor para a mãe, enquanto eu desço para minha casa. Quando entro no ambiente, tudo parece calado demais e eu não gosto dessa sensação.

Quero ter brinquedos espalhados pela sala. Quero ter o barulho da minha filha correndo aqui. Quero que o Eros e a Kate conheçam ela. Eu quero tanta coisa...

Meus pensamentos são interrompidos pelo toque do meu celular. Uma chamada de um número desconhecido brilha na tela e solto um suspiro pesado antes de atender.

— Alô?

— Apollo? — A voz do outro lado soa em meus ouvidos e imediatamente a reconheço.

— Ana? — pergunto chocado. — Como conseguiu meu número?

— Ah, talvez eu tenha ameaçado algumas pessoas do hospital, mas pelo menos consegui seu telefone. — Ela solta um riso sem graça e meu interior vibra com o som.

Ficamos em silêncio por segundos que parecem intermináveis. Temos tanto para falar, mas aparentemente nenhum dos dois sabe como iniciar essa conversa.

— Podemos nos encontrar? Acho que precisamos conversar e por telefone não é o ideal — ela pergunta baixinho.

— Claro, você pode agora? — Acabo falando rápido demais e ela solta uma risada baixa do outro lado da linha.

— Vou te mandar a localização por mensagem... e Apollo? — Ela parece hesitar.

— Sim...

— Nada, não é nada. Vou te mandar aqui agora, tchau. — Ela desliga e tiro o celular da orelha, ainda sem reação.

Em poucos minutos chega uma notificação no aplicativo de mensagens. Assim que entro, a primeira coisa que faço é olhar a foto de perfil. Ana Lívia está com a Sophia em seus braços e as duas estão com as testas encostadas, sorrindo uma para a outra. Me pego sorrindo com uma simples imagem, e o aperto no peito volta com força.

Solto um suspiro longo e tomo um banho rápido. Saio de casa e coloco no GPS o local que ela me enviou. Que os deuses me ajudem a não surtar ou infartar, porque as duas coisas estão quase acontecendo ao mesmo tempo.

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