Capítulo 3

Ana Lívia Godoy Bueno

Reencontrar Apollo despertou emoções que eu não esperava. Vê-lo interagir com a minha filha me fez sentir uma raiva sobre-humana. Como ele se acha no direito de agir assim e me questionar com o olhar? Desde que viu a marca de nascença da Sophia, ele parece travar uma batalha interna, perdido nos próprios pensamentos.

Uma confusão que eu ainda não entendo dança no meu peito. Os olhos do homem que um dia amei parecem nublados por algo que não consigo decifrar. Estamos em uma batalha silenciosa de olhares, e não sei como ele se acha no direito de sequer estar no mesmo ambiente que eu e minha filha. Ouço alguém entrar no quarto e quebro o contato visual que mantinha com o grego assim que minha mãe se aproxima.

— Tudo bem por aqui? — ela indaga, e me limito a um aceno de cabeça.

— A Sophia teve uma reação forte, mas por sorte a Ana fez tudo o que precisava e ela está bem — Apollo finalmente fala, e seu tom de voz não é mais brincalhão como alguns minutos atrás.

— Minha netinha aqui é muito forte... — Minha mãe bagunça os cabelos da neta, que dá uma risadinha.

— Sou igual ao papai. Quer dizer, eu acho — minha filha fala, e fecho os olhos por um momento.

A partir de certa idade, as crianças tendem a ser muito curiosas. Um estudo até diz que, dos dois aos cinco anos, elas fazem cerca de quarenta mil perguntas. Agora, como eu poderia falar a verdade para a minha filha? Eu inventei a pior desculpa do mundo. Disse que o pai dela estava trabalhando nas estrelas, o que a fez deduzir automaticamente que ele era astronauta.

— Que legal, princesa. Como é o nome do seu papai? — Apollo parece genuinamente curioso. Seu olhar encontra o meu por um milésimo de segundo.

Eu só quero sair daqui logo, pelo amor de Deus. Juro que se estivéssemos só eu e ele nessa sala, eu apertaria o pescoço dele.

— Hummm... — Sophia pensa, e seus olhinhos encontram os meus. — Mamãe, como é mesmo o nome do papai?

Minha mãe arregala os olhos com a pergunta e, juro, se tivesse um buraco bem aqui no chão para me enfiar, eu faria. Pensei que tinha mais alguns meses antes da pergunta de ouro. Vamos lá, Ana, existem vários nomes. Fala qualquer um.

— Mamãe? — Sophia insiste.

— Doutor Apollo, podemos conversar lá fora? — Encaro o rosto do grego, e ele parece extremamente sério ao acenar de forma positiva. — Filha, depois falamos disso. Fica aqui com a vovó que eu vou conversar com o médico para irmos para casa, ok?

Aproximo-me dela e deposito um beijo no topo de sua cabeça.

— Tudo bem... — Sophia concorda, com um tom de voz baixinho.

— Até mais, pequena. Antes de você ir, venho me despedir. — Apollo pisca para a minha filha, que sorri.

Tadinha da minha garotinha, caiu nos encantos do grego igual à mãe. Parece que as mulheres dessa família têm talento para isso.

Apollo me direciona para uma sala que tem o nome dele na porta. Ele avisa alguém no corredor sobre se ausentar por alguns minutos e, quando entramos e a porta se fecha, eu finalmente explodo.

— O que você pensa que está fazendo? — falo mais alto do que gostaria. — Agradeço por atender a minha filha, mas te proíbo de se aproximar como se tivesse algum direito!

Meu sangue parece ferver nas veias e, conforme falo, minhas mãos gesticulam sem parar. Apollo abre um sorriso cínico e chega tão perto que seguro o ar.

— Como se eu tivesse direito? Você está de sacanagem com a porra da minha cara? Quero que seja mulher e me fale olhando nos olhos que aquela garota não é minha — ele rebate baixo, mas seu tom de voz é letal.

Como ele ousa? Eu não posso dizer que me arrependo de ter me envolvido com Apollo, porque isso resultou na melhor coisa que já aconteceu na minha vida, mas não vou fingir que foi fácil. Eu chorava todos os dias. Precisei mudar a minha vida inteira para me adequar àquela realidade, e ele quer vir exigir alguma coisa de mim depois de todos esses anos?

— A Sophia não tem nada a ver com você, ela é minha. — Bato o dedo indicador contra o peito dele e sinto meus olhos arderem com as lágrimas. — Você não estava lá quando eu descobri que estava grávida. Não estava lá quando ouvi o coraçãozinho dela pela primeira vez. Não estava lá quando ela nasceu!

Empurro seu peito, e ele não me impede.

— Você não estava lá quando ela deu o primeiro passo! — Empurro-o novamente, a voz embargada. — Você nunca esteve lá! — Uma lágrima teimosa escorre pelo meu rosto. — Então não vem querer falar que ela é sua, porque não é. A Sophia é minha, Apollo. Somente minha.

Afasto-me dele e limpo o rosto com o dorso da mão. Nunca pensei que ele me veria desmoronar assim, e eu odiava que isso estivesse acontecendo.

— Ana... — Ele tenta se aproximar, mas levanto a mão, impedindo-o de continuar.

— Você já me magoou o suficiente. Por favor, fica longe da gente. Continua fingindo que não existimos.

Apollo me olha com uma indignação crua. Ele passa a mão pelos cabelos escuros, bagunçando-os com a brusquidão do movimento.

— Você diz que eu não estava lá, mas como eu poderia? Como eu poderia estar ao seu lado se eu sequer sabia? — A voz dele falha, e vejo seus olhos brilharem com lágrimas contidas. — Você me tirou isso, Ana...

Eu poderia acreditar nele se fosse qualquer outra pessoa. Mas não depois do que ele me falou. Não depois de tudo. Como ele ousa dizer que eu tirei qualquer coisa dele?

— Não se faça de idiota, é claro que você sabia — retruco com desdém. — Fica longe da gente, eu te proíbo.

— Sabe que isso não vai acontecer. Se ela é minha, eu tenho o direito...

— Você não tem direito a nada! — corto-o, sem um pingo de paciência.

— Certo. Então tudo bem se fizermos um exame de DNA? — Ele me desafia, e eu balanço a cabeça, desacreditada.

— Se a Sophia está bem, quero que você providencie a alta dela. Não te devo absolutamente nada — finalizo, abrindo a porta.

Preciso respirar longe dele. Eu preciso sair dali.

Saio da sala e me apoio na primeira parede que encontro no corredor. Eu nunca pensei que fosse ver esse homem de novo, e aqui está ele, querendo falar de direitos comigo. Apollo não tem direito a nada e, nem que eu tenha que descer ao inferno, não vou deixá-lo se aproximar da minha filha.

Limpo o rosto, puxo o ar com força e volto para o quarto. Sophia me encara de forma curiosa, como se tentasse desvendar minha alma. Ela é tão fodidamente parecida com ele que um arrepio gélido toma conta da minha espinha.

— Cadê o Apollo? — Ela tenta olhar por cima do meu ombro, e forço um sorriso calmo, nada sincero.

— Nós já vamos para casa, princesa. — Aproximo-me da maca e beijo sua testa.

Aqui, com a minha filha nos braços, eu me sinto a mulher mais completa do mundo. Mesmo com tudo o que passei, mesmo tendo que criá-la sozinha, eu nunca escolheria outro destino. Porque, no final das contas, eu a tenho comigo.

A próxima hora passa como um borrão. Desde a alta da Sophia — com ela se despedindo de Apollo com um abraço apertado e prometendo voltar para chamá-lo para um piquenique —, até finalmente chegarmos em casa e minha filha adormecer quase instantaneamente na cama.

Fecho a porta do quarto dela, caminho até a sala e me jogo no sofá.

Bom, que grande dia de merda.

Minha filha teve uma reação alérgica e foi parar no hospital, reencontrei o homem que anos atrás eu jurei odiar e, de quebra, gritei com ele no consultório. Se tem alguém aí em cima que gosta de fazer pegadinhas comigo, já pode parar.

Vejo minha mãe se aproximar e se sentar ao meu lado.

— Como você está? — ela indaga, preocupada.

Respiro fundo antes de responder.

— Vi o Apollo hoje...

Minha mãe arregala levemente os olhos.

— Espera... estamos mesmo falando daquele Apollo?

Limito-me a acenar positivamente com a cabeça.

— Puta que pariu — ela xinga, e dou uma risada nasalada e fraca.

Para a senhora Sueli proferir um palavrão, é porque ficou tão chocada quanto eu. Ela nunca viu Apollo pessoalmente, nem mesmo por foto, mas eu já chorei rios no colo dela falando sobre o grego e nunca escondi de quem Sophia era filha.

— E como você está se sentindo? — Ela se acomoda melhor no sofá, e sinto meus olhos nublarem de novo.

— Ele quis insinuar que não sabia, mãe. — Olho para ela. — E meu coração... — Aponto para o próprio peito. — Meu coração não parou de bater forte desde o momento em que coloquei os olhos nele.

— Porque você ainda o ama. — Ela acaricia minha mão, mas balanço a cabeça em negação feroz.

— Não tem como eu amar uma pessoa que me fez tão mal. Alguém que escolheu não querer ficar ao meu lado. Eu não posso, mãe. — Choro. Choro de novo por causa dele.

Prometi a mim mesma que não derramaria mais uma lágrima sequer por aquele homem, mas cá estou eu, aos prantos no colo da minha mãe, só porque ele resolveu sair do quinto dos infernos e revirar a minha vida.

— Menina tola. A gente não escolhe quem vai amar. Deixa eu te contar uma coisa... — A voz dela é suave, e meus olhos se erguem para o seu rosto. — Quando conheci seu pai, o coração dele pertencia a outra pessoa.

Fico estática. Sempre achei que eles tivessem sido o primeiro e único amor um do outro.

— Espera, ele estava com outra pessoa? — pergunto, atônita.

— Não, claro que não. Eles não estavam mais juntos e, na época, seu pai não me explicou muito bem. Pelo que entendi, a família dela não o aceitou. — Ela dá um sorriso fraco. — Eu me apaixonei primeiro. Pelo jeito doce dele. Quando vi, ele já era dono de todo o meu coração. Fiquei meses sem ser correspondida. Acha mesmo que, se eu pudesse escolher, escolheria amar alguém cujo coração não me pertencia? Carlos foi meu grande amor desde o primeiro instante, mas eu demorei para me tornar o grande amor dele.

— Eu não sabia dessa parte da história... — murmuro, enxugando o rosto.

— Nunca te contei. Acho que deixamos essas partes de fora quando vamos contar histórias de amor, porque não são bonitas. Mas o que eu quero te dizer é que não temos controle sobre quem vamos amar. Seria ótimo se existisse um interruptor que pudéssemos desligar, mas não tem. — Ela sorri de forma nostálgica.

— Sinto falta dele também... — olho para os meus dedos. É difícil falar do papai e não sentir um vazio. Os poucos anos que tive a chance de viver ao seu lado me provaram que ele era um homem maravilhoso. Eu só queria ter tido mais tempo.

— Eu sei. — Ela aperta minha mão com carinho. — Mas voltando para o grego... por que ele diria que não sabia de nada?

A pergunta paira no ar, e eu não sei o que responder.

— Não faz o menor sentido, mãe. Eu contei para ele... eu...

— Eu sei disso. Mas, pelo que me lembro, você mandou uma mensagem, certo? — Minha mãe adota aquela expressão astuta que usa quando está gerenciando a empresa. Aceno devagar. — Você tem certeza absoluta de que foi ele quem te respondeu?

— Mãe... — A voz morre na minha garganta.

Dar a notícia de que se está grávida por uma mensagem de texto não foi a escolha mais brilhante que já fiz. Mas o que eu faria? Ele morava em outro continente, e eu estava grávida de vinte anos, completamente apavorada.

Será que o destino seria tão cruel a ponto de pregar uma peça dessas em nós dois? Será que eu o odiei por todos esses anos e, no final das contas, a grande vilã da história dele fui eu?

Sempre acreditei em destino, que as coisas acontecem por um motivo. Mas se isso for verdade... se ele realmente não sabia... Deus.

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