Mundo ficciónIniciar sesiónAna Lívia Godoy Bueno
Minha mãe me convenceu a conversar com o Apollo para podermos resolver nossas pendências sem arrependimentos.
Fui parar no hospital e talvez tenha feito uma pequena cena para conseguir o número pessoal dele. Não me orgulho do que fiz, mas eu precisava falar com ele para resolvermos tudo de uma vez. Não consigo tirar meus pensamentos das coisas que ele me disse e, se for verdade, eu nunca vou me perdoar.
Não sei o que eu poderia ter feito diferente. Comprado uma passagem e ido atrás dele na Grécia? Ter ligado e ouvido a voz dele me falar em voz alta o que me disse por mensagem?
Eu não sei. Eu tinha vinte anos, estava grávida e desesperada.
Chego ao lugar que combinei com ele. É uma praça tranquila perto de casa, onde gosto muito de trazer a Sophia para brincar. Não sabia onde mais poderíamos ter essa conversa sem explodir.
Estou sentada no banco, com o olhar perdido na direção do pequeno lago, quando sinto alguém se sentar ao meu lado. O quão bizarro soaria se eu dissesse que, mesmo sem olhar, eu sei que é ele?
Ficamos alguns minutos em silêncio, cada um perdido nos próprios pensamentos, até que a voz rouca corta o ar e chega aos meus ouvidos.
— Como vamos fazer isso? — A voz dele ainda tem o sotaque de estrangeiro, mas bem menos pesado do que quando o conheci.
Viro meu rosto e finalmente o encaro. Os olhos escuros ainda parecem sugar minha alma, meu coração teimoso b**e acelerado e eu tenho vontade de sair correndo, igual a uma criança assustada, para bem longe dele. Apollo Galanis me faz sentir coisas que nenhuma outra pessoa foi capaz, e a Ana Lívia de agora não gosta nem um pouco disso.
— Eu não sei... — sou sincera. — Está tudo uma bagunça e eu nem sei como viemos parar aqui.
— Eu tenho uma noção... — Ele suspira pesadamente. — Eu não sei como começar essa conversa, mas preciso entender por que você me escondeu isso. E nem tenta me falar que ela não é minha filha, porque eu não sou idiota. Pode parecer loucura, mas eu sinto aqui — ele aponta para o próprio peito, e fecho os olhos por um momento, pensando no que responder.
Minha vontade é gritar. Dizer tudo o que ensaiei durante anos caso um dia o reencontrasse. Mas eu não posso. Preciso ser adulta. Preciso entender o que aconteceu.
— Eu contei... — Minha voz não passa de um sussurro frágil, e vejo ele arquear a sobrancelha, confuso.
Não estou acostumada com esse Apollo sério. Ele geralmente fazia piadas em momentos inoportunos e me fazia sentir como se nada no mundo pudesse me atingir. Mas, neste momento, ele parece capaz de pular no meu pescoço.
— Olha, se eu soubesse que tinha uma filha, garanto para você que não estaríamos tendo essa conversa. Então eu permaneço com a mesma pergunta: por que, Ana Lívia? Tem noção de como estou me sentindo desde o momento em que descobri sobre a existência daquela garotinha? Ela é minha filha... e, porra, eu não sei absolutamente nada sobre ela que não esteja escrito em um pedaço de papel. — Ele está nervoso, a mandíbula travada, mas sua voz não se altera em nenhum momento.
— Apollo, eu tinha vinte anos! O que você queria que eu fizesse? Eu descobri que estava grávida no banheiro da faculdade porque uma colega de sala me obrigou a fazer o teste — falo, sentindo uma lágrima quente escorrer, e logo a limpo com as costas da mão. — Eu tinha vinte anos, estava grávida de um homem que morava em outro continente e estava completamente desesperada...
— Ana... — Ele tenta falar, mas se cala quando levanto a mão, pedindo para que espere.
— O que você espera que eu te diga? No dia em que descobri, a primeira coisa que fiz foi ir correndo para casa e te enviar uma mensagem escrita “estou grávida”. E eu tive uma resposta. Foi a sua resposta que me fez tomar cada atitude que tomei até hoje.
Nesse momento, eu queria muito ser infantil. Virar as costas, ir embora e nunca mais ter notícias desse grego. Mas sei que essa não é uma realidade possível.
— Eu nunca recebi essa mensagem. Droga, Ana Lívia, se eu soubesse que você estava grávida, eu largaria tudo para vir atrás de você... — O tom de voz dele transborda sinceridade, e minha cabeça começa a girar. Será mesmo que o destino nos pregou uma peça tão cruel?
— Eu mandei a mensagem e tive a resposta. Foi aquela mensagem que me fez tomar cada decisão desde então — continuo a falar, lutando para manter o tom de voz firme. — “Eu não quero esse bebê, aborte, faça o que quiser, mas não me procure nunca mais”. Foi essa a resposta que eu tive do seu celular.
Ele arregala os olhos, o rosto perdendo a cor, e balança a cabeça repetidas vezes.
— Eu nunca recebi nenhuma mensagem sua. Eu nunca falaria isso... — Ele passa a mão pelos cabelos, atordoado.
Pego meu celular na bolsa, abro os arquivos salvos e mostro o print para ele. Eu deixei a imagem guardada por todo esse tempo para nunca me esquecer da dor que senti ao ler aquelas palavras. Eu precisava daquilo, porque a dor me fez ser mais forte. E não foi de uma forma boa.
Ele pega o celular da minha mão. Lê e relê a mensagem por minutos que parecem rastejar como horas. Seus olhos brilham com uma fúria sombria que eu nunca o vi sentir.
— Ana, eu não sei o que aconteceu, mas eu juro... juro pela vida da minha mãe, pela vida do meu irmão. Eu nunca digitei essas palavras... — As mãos dele vêm até as minhas e as seguram com firmeza, nossos olhares colados um no outro. — Se eu tivesse visto essa mensagem, teria pego o primeiro voo para o Brasil e teria feito tudo direito. Iria acompanhar você em cada exame. Iria segurar sua mão a cada momento que você sentisse medo. Iria segurar nossa filha nos braços e me sentir o homem mais feliz do mundo!
As lágrimas rolam pelo rosto dele, e o meu também já está banhado por elas.
— Eu iria escolher cada detalhe do quartinho dela. Meu irmão a teria conhecido e amado desde o primeiro momento... — A voz dele embarga. — Eu entendo a merda que aconteceu. Ainda não sei te explicar como, ou quem foi o maldito que fez essa brincadeira de mau gosto afetando nossa vida dessa forma, mas eu imploro que me deixe entrar agora. Peço para que me deixe fazer parte da vida dela... fazer parte da sua vida. Eu preciso disso. Eu já perdi tempo demais.
Minha cabeça gira e eu não sei o que falar. Ele não hesitou. Ele não parece estar mentindo, e uma dor aguda atinge meu peito. Tudo o que a Sophia passou poderia ter sido evitado? Tudo isso que eu senti nos últimos anos... Deus, ele realmente está falando a verdade, não está?
Levo a mão até a boca, tentando abafar o choro. As pessoas ao redor provavelmente estão nos olhando, mas eu não consigo me importar. A única coisa que importa nesse momento é o luto rasgando o meu peito pelo tempo que nos foi roubado.
Apollo se aproxima, com os olhos tão vermelhos quanto os meus, e me abraça forte. Sou invadida pelo seu cheiro e afundo meu rosto no peito dele, molhando sua camisa no processo.
Sempre fui uma pessoa que acreditou que tudo acontece por um motivo, sempre procurando o lado bom das coisas. Mas agora... Apollo perdeu anos da vida da Sophia. Eu passei por tudo aquilo sem ele ao nosso lado. E, meu Deus, a Sophia... o que falaríamos para ela?
Se eu estivesse no lugar do Apollo, estaria me odiando agora. Mas ele está aqui, me consolando, quando a pessoa que mais perdeu nisso tudo foi ele. Eu passei por muita coisa, mas pude conhecer minha filha, vi-a crescer e a conheço melhor do que qualquer pessoa.
— Eu sinto tanto, Apollo... — falo, com a voz abafada contra a camisa dele.
Ele me segura pelos ombros e nossos olhos se encontram. Como ele pode, mesmo chorando, continuar lindo desse jeito? Eu devo estar com a cara toda inchada e ele continua... perfeito. Um sorriso fraco, quase quebrado, surge nos lábios dele.
Ele puxa o ar profundamente, tentando afastar o peso do momento.
— Puff... sente muito por quê? Entendo você fugir de mim, nem todo mundo consegue lidar com tudo isso aqui — ele brinca, apontando para o próprio corpo com uma falsa arrogância. Arqueio a sobrancelha.
Ele está fazendo piada? Não é possível... Acabo soltando um sorriso cansado e balanço a cabeça, meio incrédula.
— Você não está fazendo piada com isso não, né?
Ele limpa meu rosto de forma delicada com o polegar e respira fundo.
— Bom, consegui arrancar um sorriso seu, pelo menos... — Ele segura meu rosto, e arfo baixinho com seu toque. — Tudo o que aconteceu com a gente foi uma merda, mas eu encontrei vocês. Então não vou ficar pensando no que poderia ter sido. Quero viver o momento, conhecer a Sophia, fazer parte da vida dela e ser o pai que ela merece.
Nesse instante, agradeço aos céus por não ter feito a caveira dele para a minha filha. Ele finalmente voltou das estrelas para conhecer a princesa dele, e eu não poderia estar mais aliviada.
— Você continua um idiota... — me afasto do seu toque, e, na mesma hora, me arrependo da perda do calor.
— Lá vem você me chamar de idiota também. Qual o problema de vocês, brasileiras, com essa ofensa? — Ele ri, voltando a encostar o corpo no banco e se acomodando de forma mais relaxada.
Olho para ele e finalmente me permito analisar cada detalhe. Ele está mais forte do que me lembro. A camisa preta abraça com perfeição seu corpo; tenho vontade de tocar para ver se é real. Ele definitivamente tem malhado...
Sou arrancada dos meus pensamentos impuros quando ele estala os dedos na frente do meu rosto.
— Estou me sentindo um pedaço de carne sendo analisado por você — ele provoca, com um tom de voz sugestivo, e sinto o sangue subir como fogo para as minhas bochechas.
— Não viaja... — reviro os olhos e volto a olhar para a paisagem do lago. Me recuso a ficar babando nesse homem. Preciso pensar com a cabeça de cima.
— Bom, como acha que podemos contar para a Sophia sobre isso? — ele pergunta de repente. Balanço a cabeça, não sabendo o que dizer. — O que ela sabe exatamente?
— Eu não contei muito, sabe? Até pouco tempo atrás, ela não me perguntava sobre você. E quando finalmente fez, inventei que o pai dela trabalhava nas estrelas... — Ele arqueia a sobrancelha e eu continuo, falando rápido de nervoso. — Primeiro ela deduziu que você tinha morrido igual ao meu pai... e agora ela acha que o pai é astronauta.
— Acho que ela vai se decepcionar, então. Não que ser médico seja ruim... — ele coça a nuca, prendendo o riso — mas, comparado a um astronauta... é, perdi de lavada.
— Olha... eu preciso admitir que sou péssima mentindo, e essa desculpa foi horrível. Mas tenho certeza de que a Sosô vai te amar, independentemente da sua profissão — garanto, e ele acena devagar.
— Obrigado por isso, Ana. De verdade. — Encaro-o, confusa. — Você poderia ter falado que eu abandonei vocês, ou coisa pior. Agradeço por ter tentado manter uma imagem legal para ela.
Entendo o que ele quer dizer. Eu nunca falaria algo destrutivo para uma criança de cinco anos, mas sei que existem pessoas que, no meu lugar, teriam feito a caveira do pai. Para ele tentar se aproximar depois de um estrago desses, teria sido desastroso.
Eu sei, eu sei... vocês devem estar querendo me matar por terminar o capítulo logo agora! 😂 Mas prometo que o que vem por aí em Destinos Entrelaçados vai valer a espera. O destino gosta de jogar com a gente, e a vida da nossa pequena herdeira secreta está prestes a mudar para sempre. O que vocês acham que o Dr. Apollo vai fazer?







