Sullivan estava preso a uma coluna quando ouviu os passos leves e o bater dos saltos de uma mulher no chão de concreto frio. O telefone de Sullivan começou a vibrar insistentemente, entre ligações e mensagens. Os passos da mulher estavam cada vez mais próximos e mais altos. Vendado, ele não enxergava nada, mas conhecia aquele cheiro de morango e champagne: aquele cheiro pertencia a Helena.— Oi, Sulivan! - A voz dela chegava aos ouvidos dele. Era Helena. Ele sentiu as mãos dela tocarem seu rosto suavemente. Ela soltou a mordaça, percebendo Sullivan pressionar os lábios e travar os dentes. Delicada, tirou a venda que encobria seus olhos. Sullivan a encarava, ferido, abatido, odioso.— Eu vou matar você, Hellish Joker. - Ele rosnou entre os dentes. - Eu vou te matar. - Ele bradou, irado, a ponto de estar ofegante, respirava para se recompor, enfrentando na mulher, abaixada a sua frente. — Stuart, não sou eu presa a coluna, querido. - Ela disse, sorrindo docemente. Rafael assistia aqu
Helena estava no meio do deserto. Deixou Sullivan com alguma água, as lonas e o celular, sem sinal e pouca carga. Daria uma chance àquele homem rabugento. Voltava, sem qualquer remorso. Em Monterrey, passou pelo hotel e voltou para a cidade, incógnita. Não havia movimentação no andar dos Stuart. Decidiu se divertir um pouco com Rafael. — Oi. - Ela disse ao telefone.— Olá, querida. Como foi o passeio? Gostou da caminhonete? - Rafael disse, alegremente. — Uma excelente caminhonete. Obrigada pela generosidade, Rafael. - Ela sorria na voz, deixava-o orgulhoso de si. - Sua proposta ainda está em pé?— Nâo apenas a proposta, querida. - Ele se oferecia a ela, sedutor. - Quer um endereço? Acredito que irá gostar da estadia. É simples, mas é de coração. — Você pare! Assim eu gamo, paixão. - Ela o provocava. - Ou pode me buscar, gosto da sua companhia e vocẽ parece ser bem cuidadoso para dirigir. O que prefere?— Prefiro buscar vocẽ. Deve estar cansada de tantas tarefas pesadas. - Ele se se
— Perdeu o propósito, Helena? - Rafael se impressionava com a fala mansa dela.— Faz muito tempo. Hoje vivo guiada por dois únicos valores: a Lei Natural e a Lei de Talião. - Ela dava dois parâmetros perigosos para ele, os dois que a tornavam tão letal e forjavam sua fama pela fronteira. — Faz sentido, sendo tão livre. - Ele concordou e aquela aceitação implícita a deixava extremamente confortável. - Cansa muito? Quero dizer, imagino que se sustentar desse modo exija muita força e um profunso senso de comprometimento consigo mesma. — Cansa. - Ela confessou. - Às vezes, quero apenas paz e segurança, mas há um fundo filosófico nisso: manter paz e segurança demanda guerra e força. São condições que não dá para ignorar. Não tenho família, meus amigos se foram, enfim, avaliando, não passo de uma órfã sem qualquer missão ou desejo na vida. E você? Não cansa dessa dinâmica toda?— Muito. - Ele sorriu, os olhos brilhantes. - Mas encontrei um remanso de felicidade em olhos cinzentos de uma l
Algo naquele canalha atraia Helena mais do que deveria. Rafael tinha tudo de um safado de marca maior, mas sabia se manter interessante.— Acho que vai me enrolar. - Helena suspirou.— Pode ser que sim, pode ser que não. - Ele a desconsertava. Brincava com ela. — Você não vale nada, não é? - Ela se divertia. Era um tipo atraente. — Nem um pouco. - Ele entrava no jogo leve dela. - Quer ajuda com o banho?— Você pretende entrar lá? Comigo? - Ela o olhou com um ar travesso.— Sou um moço puro e de boas intenções. - Ele dramatizou, fazendo-a manter o sorriso.Helena, encarando Rafael, soltou as botas. Despia-se, descaradamente, como olhar faminto. Ele sequer tentava disfarçar o desejo que se anunciava. — Até o café da manhã? - Ela no olhou por cima do ombro, o seduzia sem dificuldades. Ela serpenteava a cada passada. Rafael não era de gelo. Acompanhou a loba. Ela ligou o chuveiro e se colocou debaixo. A água se transformava em um liquido vermelho aos pés dela. Ela sorriu, sensual, desl
Helena estava deitada, os olhos cobertos pelo braço, respirava suavemente. A porta do quarto se abriu e se fechou, quase não ouvia os passos de quem entrou. Ela se sentia segura naquele lugar, apesar de saber muito bem que estava no covil inimigo. — Rafa, acho que preciso dormir um pouco. - Helena anunciou, mantendo-se relaxada, como estava. A pessoa se aproximava, devagar. - Rafa?Ao tempo de abrir os olhos, um homem, parecido com Rafael, se atirou sobre ela, agarrando seu pescoço com ambas as mãos, grades, fortes. O mesmo olhar intenso, de âmbar, os dentes cerrados. Ela já o tinha visto antes, com Rafael. O homem parecia odiar Helena.Não havia tempo para pensar muito. Ela tinha os braços soltos, levou ambas as mãos ao rosto da figura odiosa, começando a pressionar seus olhos, com força. O homem a soltou, afastando as mãos dela em um único golpe, abrindo ambos os braços. Helena rolou para fora da cama, enrolando-se ao lençol, procurava sua arma, sem a encontrar. Em um rápido olhar,
— Ele está bem, só desacordado. - Algum tempo depois, Mendes o médico da família disse. - Ela precisa de muita hidração e repouso. Foi de raspão. Já suturei. Vai ficar bem. — Obrigado, Mendes. - Rafael agradeceu. Pegou Helena e saiu, sem dizer nada. Rafael tinha seus meios. Levou Helena a uma de suas casas de prostituição, era o melhor refúgio para o momento. Cuidariam bem dela ali, caso precisasse se ausentar. Lola, a gerente do lugar, recebia instruções, mesmo os irmãos não entravam naquele lugar sem um convite, nem se precisassem. Rafael tinha uma ligação diferente com aquele lugar desde na adolescência, quando o pai foi abatido e ele precisou de proteção. Foi ele quem resgatou a mãe e os irmãos. — Deixe eu entender, Rafa. - Lola acariciava Helena numa das camas profanas daquele lugar, reservado à eleita de Rafael, um generoso guardião daquele lugar, a quem ela apadrinhou ainda jovem. - Está me dizendo que essa menina linda é do tipo perigosa, de verdade, e o Gabriel atacou ela
Helena despertou, os calafrios do choque percorriam cada fibra de seu corpo. Sua abordagem falhou. Precisava se recompor, mesmo se sentindo mal, deixou o lugar com a pouca bagagem que tinha, passava, despercebida, pelos corredores, sem se interessar em saber onde estava. Era fácil sair de um lugar tão movimentado. Ela estava desorientada, sentia muita sede e percebia a dor lancinante na lateral do corpo. Tinha que aguentar. A culpa a corroía. Não queria pedir ajuda e nem se sentia à vontade, por mais que fosse necessário. Ela seguiu para o terminal rodoviário, iria sair, para qualquer lugar que tivesse partida imediata, depois resolveria, quando estivesse reorganizada. Ela se acomodou à poltrona do ônibus, sequer notava o destino que tinha embarcado. Em pouco tempo, dormia com o balanço do ônibus, estavam na rodovia. Agilidade costumava garantir anonimato. "Dói para me dizer que estou viva." Ela ponderou, mentalmente. "Ainda estou viva." Ela se ajeitava para que a dor não fosse tão cr
Dario trocou de veículo, um de seus homens trazia um modelo simples, frigorífico, de serviços, sem identificação, mas bem equipado, Helena era gentilmente acomodada, tremia, estava febril, mas dormia. Fora pela febre, todo o resto parecia bem. Ela estava aguentando. Horas até chegarem ao esconderijo no deserto, noite alta adentro. Dario mal acreditava na resistência dela. Ele a acomodou e voltou a Piedras Negras. Precisava se tornar irrastreável. Trocou o carro por uma caminhonete comum que mantinham e tudo o que precisavam. Helena acordou no refúgio que já conhecia, um senso de alívio se misturava à culpa por Rafael. "Então, eu gosto de bandido." Ela ironizava, mentalmente. Aquele sentimento, em relação à Rafael era persistente. Algo difícil de encarar. Cambaleante, ela foi para o banho, o corpo, suado, exigia alívio. Ela ligou a água, se sentou no chão e deixou o fluxo frio bater na pele da nuca e nas costas. Dario a havia recuperado. Por bem ou por mal, ele a protegia. Era grata po