Mundo ficciónIniciar sesiónDiante disso, observo a aeromoça me entregar o copo de café amargo da Starbucks. Pego-o, retiro a carteira do bolso direito e pago. Quando ela se afasta, fico novamente sozinho com meus pensamentos.
Olho pela janela enquanto o avião começa a descer. Reflito sobre minha vida e sinto aquele vazio familiar que me acompanha mesmo quando Fernanda preenche grande parte do meu coração. É como se algo essencial ainda estivesse faltando. Por isso, muitas vezes, acabo buscando alívio em atos carnais ou no fundo de uma garrafa. Uma hora depois, o avião pousa suavemente no aeroporto da ilha. Diferente dos terminais frios e monocromáticos aos quais estou acostumado, este é colorido e vibrante. Assim que saio, o sol quente acaricia meu rosto, trazendo um conforto inesperado. Olho ao redor: turistas sorridentes, barraquinhas de comida exalando aromas tentadores e uma música grega relaxante tocando ao fundo. O clima é leve, quase alegre — completamente oposto ao peso que carrego nos últimos anos. Não consigo evitar pensar o quanto Renata amaria este lugar. Ela sempre sonhou com viagens assim. Baixo o olhar e solto um suspiro longo, sentindo o peito apertar. Voltando à realidade, caminho em direção à praia mais próxima. Ao passar por uma das barraquinhas, noto uma jovem de estatura mediana, por volta de 1,60m. Olhos castanhos claros, cabelos ondulados que caem suavemente sobre os ombros. Ela deixa a carteira cair no chão sem perceber. Veste um vestido longo simples, com pequenos detalhes florais que transmitem delicadeza. Há algo nela — não na aparência, mas na forma como seus olhos brilham ao observar o entorno, na postura serena e no jeito leve de andar — que me lembra profundamente de Renata. Uma nostalgia doce e dolorosa me invade. Percebo que ela não notou a carteira caída. Suspiro, pego o objeto do chão e me aproximo, tocando levemente seu ombro. — Oi! Desculpe, senhorita. Você deixou isso cair do bolso da sua mochila. Ela se vira rapidamente, assustada. — Oh meu Deus! Caramba, obrigada, senhor! Eu estava tão distraída que não percebi... — responde, um pouco atrapalhada, o rosto corando levemente. — Certo. Só tome cuidado — digo, entregando a carteira. Nossos olhares se encontram por um breve instante. Há algo genuíno e puro no jeito como ela me olha. Sinto um aperto estranho no peito. Desvio o olhar, viro-me e sigo meu caminho. Depois desse breve encontro com a desconhecida, uma vontade repentina de chorar surge. Ela me lembrou tanto de Renata... Prometo a mim mesmo que vou tentar aproveitar esta viagem. Desvio os pensamentos e sigo para o hotel. Horas depois, chego ao local. Faço o check-in na recepção, pago e pego as chaves. Enquanto espero o elevador, vejo a mesma garota do aeroporto conversando com a recepcionista. Por um segundo, penso em me aproximar, mas afasto a ideia. Seria estranho. Ainda assim, sua presença trouxe uma sensação estranha de conforto, uma nostalgia doce que há muito não sentia. Minutos depois, chego ao segundo andar. Encontro o quarto 252 e entro. Fecho a porta atrás de mim e respiro fundo. A solidão me atinge como uma onda. As lágrimas escorrem silenciosas pelo meu rosto enquanto a culpa me consome. Perder alguém nunca foi tão difícil. Desde a morte de Renata, vivo atormentado pelas mesmas perguntas: Se eu tivesse feito alguma escolha diferente, ela ainda estaria aqui? Será que ela se arrependeu em algum momento de ter se casado comigo? Nunca saberei as respostas. Ligo o rádio para preencher o silêncio. A voz suave de Gavin James enche o quarto com a música “Always”. Deito na cama em posição fetal, sentindo as lágrimas molharem o travesseiro. Todas as memórias voltam com força. Ela se foi para sempre. Estar aqui, neste lugar paradisíaco, parece um castigo. Ainda assim, tenho minha filha. Fernanda é a única razão que me mantém de pé.






