capítulo 3 ( David)

🪴 Algumas horas antes da viagem 🪴

— Filha, você já acordou? — pergunto, abaixando-me até ficar na altura dos olhos dela.

Fernanda me olha com aqueles grandes olhos verdes cheios de tristeza.

— Papai não vai… — murmura, a vozinha embargada.

O aperto no peito vem forte. Por um segundo, me arrependo amargamente de ter comprado essa passagem. Suspiro fundo e tento manter a voz calma.

— Vai ser uma viagem rápida, tá certo? Assim que eu voltar, vamos naquele parque novo da cidade que você tanto quer?

— Vamos, papai! — grita ela, pulando em meus braços e apertando o pescoço com toda a força.

Sinto o corpinho quente contra o meu, o cheirinho de loção de bebê e shampoo de morango. Abraço-a com força, fechando os olhos por um instante. Meu coração aperta dolorosamente por ter que deixá-la um fim de semana inteiro.

— Agora papai precisa enviar uns documentos para o tio Richard — digo baixinho, colocando-a no sofá e ligando o desenho animado.

Vou até o escritório, envio os acordos de negociação para meu irmão — meu braço direito na empresa e a única pessoa em quem realmente confio. Depois de finalizar tudo, arrumo minha mala no quarto com movimentos automáticos.

Ao descer, minha mãe está na sala.

— Já vai, filho? — pergunta ela, levantando-se do sofá.

Fernanda agora cochila tranquilamente, o rostinho sereno apoiado na almofada. Agradeço mentalmente por ela estar dormindo; um choro dela agora seria mais difícil de suportar.

— Sim, mãe. O voo é às duas da tarde.

Dou um beijo leve na testa da minha filha, sentindo o calor da pele macia, e abraço minha mãe com gratidão sincera. Saio de casa. O ar fresco de Nova York b**e no rosto enquanto espero o táxi.

Durante o trajeto, observo a cidade pela janela: os telões gigantes de Manhattan piscando, o fluxo constante de pessoas apressadas, buzinas e o burburinho eterno. Meu celular vibra. É Duda.

« Oi querido, você saiu cedo. Já estou com saudades de você 😍 »

Ela envia uma foto sensual, só de sutiã, com aquele sorriso provocante. Suspiro e não respondo. Duda é bonita, persistente, mas eu não quero isso.

Conheço Duda desde que éramos adolescentes. O pai dela era sócio do meu. Ela frequentava nossa casa, me mandou uma cartinha de amor na época, mas nunca senti nada além de amizade. Na faculdade, conheci Renata e tudo mudou.

Renata tinha um sorriso que iluminava qualquer lugar. Seus olhos brilhavam quando comia croissants. Tínhamos tudo em comum. No último semestre, pedi-a em casamento. Enquanto isso, Duda se afastou por alguns anos — foi tentar carreira de modelo na Alemanha, voltou loira, mais madura, com silicone e experiência na Victoria’s Secret. Só reapareceu depois que Renata morreu.

Chego ao aeroporto, pago o táxi e entro.

— Bom dia, passagem para a Grécia.

— Bom dia, senhor. Aqui está.

— Obrigado.

Embarco no avião sentindo um peso familiar no peito. Faz tanto tempo que não viajo. Sento-me, olho pela janela e respiro fundo. Quero apenas um ar puro, longe de tudo. Quero tentar, mesmo que por poucos dias, deixar de ser esse homem controlador e amargurado que a dor transformou. Mas sei que é difícil. A mulher que deveria estar ao meu lado não está mais aqui.

Enquanto o avião taxiia na pista, fecho os olhos e as memórias vêm suaves: o jeito envergonhado como Renata sorria, o brilho nos olhos dela ao comer algo que gostava. A aeromoça se aproxima com um sorriso gentil.

— Boa tarde, deseja comprar algo?

— Apenas um café, sem açúcar.

Ela me entrega o copo quente da Starbucks. Pago com a carteira e fico sozinho novamente, olhando as nuvens lá embaixo enquanto o avião ganha o céu.

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