capitulo 4 (Duda)

🪴 Algum tempo atrás 🪴

Nascer bonita e rica não é para todo mundo. Eu nasci no berço de ouro, mas nunca recebi o amor dos meus pais. A vida deles sempre girou em torno de superficialidade, poder e traição. Nunca conheci o verdadeiro amor... até ver Davi pela primeira vez.

Aos meus dezesseis anos, meu coração disparou com tanta força que achei que fosse desmaiar. Ele tinha vinte e seis anos, estava na faculdade, e eu era apenas uma adolescente sonhadora. Então Renata apareceu e o roubou de mim. Fiquei com raiva. Eu já havia me declarado através de cartas, e mesmo assim ele escolheu outra pessoa.

Flashback

Lembro-me daquela noite chorando até acabar o rolo de papel higiênico. Como um homem como Davi se apaixonaria por uma garota magricela e sem graça como eu? Essa pergunta me atormentava todos os dias. Até que decidi ir embora para a Alemanha atrás do sonho de me tornar modelo...

Depois daquele dia, tentei seguir em frente.

Alemanha, anos atrás

Uma noite, decido sair com uma amiga para uma boate rústica frequentada pela elite e pela mídia. O lugar tem paredes de tijolos aparentes, iluminação baixa com tons avermelhados e uma música eletrônica suave misturada com batidas profundas que vibram no peito. O ar cheira a perfume caro, whisky e cigarro eletrônico.

Sento no balcão do bar e peço uma bebida forte, tentando afogar a mágoa que ainda queima dentro de mim. O álcool desce quente pela garganta, mas não apaga o nome de Davi da minha mente.

Sinto uma mão tocar meu ombro. Viro-me e encontro um homem alto, olhos azuis penetrantes, porte atlético mas não exagerado — um londrino comum, bem vestido.

— Posso? — pergunta ele, apontando para o banco vazio ao meu lado.

— É público — respondo com desdém, sem nem olhar direito para ele.

Ele ri baixinho, um som grave e confiante, e se senta mesmo assim.

— Quero duas bebidas do que ela está tomando e uma pilsen — pede ao barman, ignorando meu tom.

— Não precisa pagar bebida para mim — digo secamente, virando o rosto.

Minha amiga, sentada do outro lado, aperta meu braço com força e me lança um olhar furioso, como se dissesse “não estraga tudo”.

O homem ri novamente, virando-se completamente para mim.

— Então a senhorita é orgulhosa e brava? — pergunta, com um sorriso divertido que me irrita ainda mais.

— Eu tenho dinheiro para bancar minhas próprias bebidas — respondo, direta e fria.

— Ok. Você venceu — diz ele, levantando as mãos em rendição, mas ainda sorrindo. — Então me conta, de onde vem essa dama tão independente e linda?

Ele se inclina um pouco mais perto. Noto que é bem arrumado, perfume sofisticado, mas nada nele chega aos pés de Davi. Ninguém nunca chega.

— Ela se chama Eduarda. Mas pode chamar de Duda — intervém minha amiga, sem minha permissão.

Dou-lhe um olhar mortal. Ela ignora completamente.

— Ah, Duda... Ele é gatinho e você tá precisando esquecer aquele velho que nunca te deu bola — murmura ela perto do meu ouvido. — E piorou agora, né?

Sinto o sangue ferver.

— Não chame ele de velho — rebato entredentes. — Eu amo o Davi. Sempre vou amar só ele.

Levanto-me bruscamente do banco, pego minha bolsa e começo a andar em direção à saída. A música parece mais alta agora, as luzes piscando no ritmo do meu coração acelerado. Ouço minha amiga me chamar, mas não dou atenção. Preciso sair dali.

Chego do lado de fora da boate. O ar da noite está mais fresco, mas ainda carregado de energia. Estou prestes a chamar um táxi quando sinto uma mão forte, porém gentil, segurar meu braço e me puxar levemente para trás.

— Ei, espera — diz o homem da boate, aparecendo atrás de mim. Seus olhos azuis me encaram com curiosidade. — Não me diga que você já vai embora assim, sem nem se despedir... Pelo que ouvi lá dentro, você é apaixonada por um homem que não corresponde. Vale realmente a pena esperar tanto tempo por alguém que nem olha para você?

Suas palavras acertam em cheio. Fico parada na calçada, sentindo o peso de anos de espera, de sonhos não realizados, de um amor não correspondido. Estou exausta. Aos vinte e três anos, ainda sou virgem, guardando meu corpo para um homem que construiu uma vida com outra pessoa e agora vai ser pai.

Olho para o estranho à minha frente. Por um segundo, penso em jogar tudo para o alto — esquecer Davi, deixar alguém preencher esse vazio, mesmo que por uma noite.

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