capitulo 1

Davi

Ser empresário e pai solo é uma tarefa exaustiva. Especialmente quando não há uma esposa ao lado para dividir os momentos difíceis e as pequenas vitórias.

Há cinco anos...

— Vamos, amor. Força! — Seguro a mão de Renata com firmeza, sentindo seus dedos apertarem os meus com toda a força que lhe restava.

O quarto de hospital está quente, iluminado por luzes brancas frias. Renata suada, o rosto vermelho, as têmporas latejando. Ela respira fundo, contrai o corpo e solta um grito rouco que ecoa entre as paredes.

— Isso, querida... A cabecinha dela já está aqui — murmuro, a voz embargada de emoção.

Quando a bebê nasce, um choro forte enche o ambiente. Levanto o olhar, emocionado, e vejo minha filha pela primeira vez: pele rosada, cabelos escuros úmidos colados na cabecinha. Linda. Perfeita.

Mas ao me virar para Renata, meu sangue gela. Seus olhos estão se fechando devagar, o rosto perdendo a cor.

— Renata? — chamo, a voz falhando.

Os monitores começam a apitar freneticamente. Uma linha reta corta a tela. Médicos e enfermeiras correm ao redor da cama, empurrando-me para o lado.

— Saia daqui, senhor! Ela está em parada cardíaca! — ordena o médico, sem tirar os olhos do corpo da minha mulher.

Cambaleio para o corredor, as pernas fracas. Apoio as costas na parede fria e deslizo até o chão, as mãos na cabeça. O mundo gira. Ela não pode me deixar. Não agora. Não assim. Eu a amo demais. Se Renata partir, tudo desaba.

Os minutos se arrastam como horas. Quando a porta finalmente se abre, levanto-me num salto.

O médico sai, o olhar cansado e solidário. Não precisa dizer nada. Eu já sei.

— Sinto muito, senhor Davi.

Meu peito se rasga. O chão parece sumir sob meus pés.

— Não... Não pode ser... — repito, a voz falhando. As lágrimas descem quentes e grossas. — Não pode ser!

Caio de joelhos no corredor gelado do hospital, o choro saindo em soluços desesperados. Meu mundo havia acabado ali.

Cinco anos depois

— Papai, amanhã o senhor vai viajar? — pergunta Fernanda, minha princesinha de cinco anos.

Ela está sentada na cama, os grandes olhos verdes brilhando sob a luz suave do abajur. Seus cabelos pretos, cacheados e volumosos, caem em cascata sobre os ombros. Cada vez que ela me olha assim, sinto um aperto no peito — é o mesmo olhar de Renata.

— Vou sim, filha. Mas prometo que não vou demorar — respondo, sentando-me ao lado dela.

— Vou sentir muita falta... — A vozinha dela falha. Lágrimas começam a se acumular nos cantos dos olhos.

— Vem cá — sussurro, puxando-a para o meu colo. Abraço seu corpinho pequeno e cheiro seus cabelos, sentindo o doce aroma de loção de bebê e shampoo infantil. Fecho os olhos por um instante, imaginando como seria se Renata estivesse aqui, ao nosso lado, arrumando os cachos da nossa filha.

Minha mãe aparece na porta do quarto, sorrindo com carinho.

— Seu pai precisa viajar para trabalhar, meu bem — diz ela suavemente, colocando a mão no meu ombro. O toque firme me dá força, como sempre. — Vovó vai cuidar de você direitinho.

— Obrigado, mãe — murmuro, levantando-me para abraçá-la. Aperto-a com gratidão sincera. Ela tem sido meu pilar nesses cinco anos. Sem ela, eu não teria conseguido criar Fernanda sozinho.

— A Duda está lá embaixo te esperando — completa ela, com um leve sorriso cúmplice e uma piscadela.

Suspiro. Duda é persistente. Uma mulher atraente, sim. Mas meu coração ainda pertence a quem se foi.

Desço as escadas da nossa casa em Nova York. Ao abrir a porta, vejo o carro vermelho dela estacionado na frente, brilhando sob a luz dos postes. Duda sai do veículo com elegância: vestido preto justo, saltos altos que realçam suas pernas longas e torneadas, cabelos loiros caindo em ondas sobre os ombros.

Ela se aproxima com um sorriso confiante e deposita um beijo suave no meu maxilar.

— Oi, Davi.

— Duda... — respondo, mantendo um tom educado. — A que devo a visita?

— Soube da sua viagem e vim te convidar para tomar uma taça de vinho no meu novo apartamento. Tem vista para a praia. E não aceito “não” como resposta — diz ela, inclinando a cabeça com um brilho desafiador nos olhos.

Hesito, passando a mão pelo cabelo.

— Amanhã cedo eu viajo e...

Ela continua me olhando, esperando.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Edi BeckertQue dó, gente
Digitalize o código para ler no App