Não vou mentir, mas Duda me atrai muito como mulher. Depois que fiquei viúvo, demoro muito para ter relações com outra mulher. Ainda sinto uma falta enorme da minha esposa, mas meu instinto de homem fala mais alto e acabo cedendo.
— Prometo liberar você cedo — diz ela, mordendo os lábios e me olhando com claro desejo.
— Você venceu — respondo, pegando o celular para mandar uma mensagem para minha mãe avisando que chegarei tarde.
— Vamos?
— Vamos.
Entro no carro dela. Duda entra ao meu lado e coloca o cinto de segurança. Enquanto dirige, ela coloca a mão na minha coxa.
— Você está tenso hoje... — comenta ela, com a voz suave.
— Foi um dia longo — respondo.
— Então deixa eu cuidar de você essa noite.
Quando chegamos ao apartamento novo dela, fico realmente fascinado. Vista para o mar, terraço bonito, rede ao vento.
Olho tudo. Quando me viro, Duda vem com duas taças de vinho.
— Obrigado — falo, pegando a taça.
— Um brinde ao meu primeiro convidado... e espero que não seja o último — diz ela, sorrindo.
Brindamos. Nos sentamos lado a lado.
— Engraçado, Davi. Você é um homem tão bonito e ainda solteiro... — comenta ela.
— Sou um homem ocupado.
— Ocupado, charmoso, interessante... As mulheres não te deixam em paz, né?
— Obrigado pelos elogios — respondo, olhando para ela.
— Podemos pular as formalidades, querido? — pergunta ela, mordendo o lábio.
Ela se levanta e tira o vestido devagar, revelando seu corpo escultural. Fico em silêncio, observando.
— Vira de costas — digo, a voz rouca.
Posiciono-me atrás dela, puxando seu corpo contra o meu. Minhas mãos deslizam por sua pele quente. Sinto sua respiração acelerada.
— Você gosta quando eu te toco assim? — sussurro em seu ouvido.
— Sim... Não para — responde ela, ofegante.
— Você mexe comigo de um jeito que eu não consigo resistir.
O beijo vem intenso, urgente. Naquela noite, entrego-me ao desejo. Com Renata era fazer amor — era conexão, era alma, era carinho. Com Duda é diferente. É só desejo físico, uma forma de descarregar toda a energia masculina acumulada, sem compromisso e sem promessas. Quando terminamos, deixo-a dormindo no quarto, me visto e vou embora de táxi.
Eu não estou pronto para o amor. Meu coração morreu no mesmo dia em que perdi minha esposa.
A memória fresca dela ainda está em minha mente. Enquanto o táxi segue, repasso todos os momentos felizes e até mesmo as pequenas discussões que me faziam questionar minhas decisões. Voltando à realidade, olho para o relógio no pulso e vejo que já entardeceu. Lembro que havia prometido levar minha filha para o parque recém-inaugurado.
Durante o trajeto de táxi até minha residência, fico observando a paisagem. Ao chegar, pago o motorista, desço do carro e caminho até a entrada. Pego as chaves no bolso esquerdo da calça e abro a porta.
Entro em casa e vejo no celular que já são três horas da manhã. Resolvo passar no quarto da minha filha para ver se ela está bem. Entro devagar e a vejo dormindo toda encolhida, abraçada ao seu ursinho de pelúcia cor-de-rosa. Ela dorme como um anjinho, tão linda que me emociono de repente ao lembrar da minha esposa. Me aproximo, aliso sua testa com carinho e dou um beijo de boa-noite.
— Te amo, filha — murmuro.
Saio do quarto fechando a porta devagar para não acordar minha princesa. Quando entro no meu quarto, já vou tirando os sapatos. Desabotoo a camisa social branca, que ainda tem marca de batom e cheiro de perfume feminino. Tiro o cinto e passo em frente ao espelho, notando um arranhão visível na minha costela.
— Vou ter que evitar ficar de camiseta na viagem, senão vou parecer um pervertido — falo comigo mesmo, observando a situação no meu corpo.
Aproveito e vou até o banheiro para me limpar. Em seguida, me aproximo da hidromassagem, praticamente me deito e começo a lembrar da minha esposa. Que saudade tenho dela... Da risada dela, do olhar que ela fazia para mim toda vez que fazíamos amor em nosso quarto, pela casa inteira.
Balanço a cabeça tentando afastar os pensamentos que me fazem lembrar do tempo em que eu era o homem mais feliz do mundo. Minha vida era completa quando tinha a razão da minha existência ao meu lado, me fazendo ser o homem mais amado desse mundo. Saio da banheira, coloco uma toalha na cintura e saio do banheiro, desolado e com raiva. Pego uma garrafa de whisky que fica em cima do criado-mudo ao lado do sofá da suíte.
Encho uma dose generosa do líquido âmbar e bebo de uma vez. Começo a beber uma atrás da outra, com raiva e tristeza. Saio para a varanda e grito com todas as forças que tenho — um grito puro de sofrimento, dor e amargura no peito. A única hora que tenho um pouco de paz é quando estou com minha filha. Porque longe dela, eu me sinto um ser humano sem valor algum.
Entro, sento na cama e choro com as mãos no rosto. Choro tanto que parece que meu peito vai rasgar. Mesmo depois de tantos anos, a dor da perda da minha esposa não passa. Eu simplesmente não consigo esquecê-la e talvez nunca consiga.