Depois que o acordo de divórcio foi assinado, Jaqueline parou de cuidar da casa.
Ela não precisava mais acordar às cinco da manhã para preparar um café da manhã nutritivo para as crianças.
Também não precisava mais esperar Francisco voltar tarde da noite das reuniões e compromissos para preparar água morna com mel e limão para ele.
Tudo aquilo que antes fazia passou a ser responsabilidade das empregadas.
No começo, ninguém percebeu nada de diferente.
Até o dia em que Arthur chegou atrasado à escola e levou uma bronca da professora, Helena não encontrou o caderno de tarefas e o relógio de bolso de Francisco parou de funcionar.
As empregadas ficaram completamente perdidas.
Por mais que tentassem, não conseguiam manter o mesmo padrão de cuidado que Jaqueline sempre teve.
A cozinha começou a acumular louça suja.
Os brinquedos das crianças ficavam espalhados pela sala.
As camisas passadas nunca pareciam tão impecáveis quanto antes.
A casa que costumava estar sempre em perfeita ordem começou, aos poucos, a perder a organização.
Quando Francisco abriu a porta do quarto, encontrou Jaqueline sentada perto da janela, lendo um livro.
A luz do sol atravessava a cortina fina e iluminava sua silhueta.
Ele ficou parado na entrada e falou em voz baixa:
— Até quando você vai continuar com isso?
Jaqueline fechou o livro e levantou os olhos para ele.
— Eu não estou fazendo nada.
Francisco deu alguns passos, e o leve aroma amadeirado do perfume dele logo tomou conta do ambiente.
— Então por que você não cuida mais das coisas da casa? Ainda está magoada pelo que aconteceu da última vez?
Ela colocou o livro de lado.
— Eu não estou magoada. Só não quero mais cuidar disso.
Francisco estreitou os olhos e tamborilou os dedos sobre a mesa.
— Me dê um motivo.
Jaqueline respondeu com calma:
— Eu estou cansada. A casa tem empregadas. Não preciso fazer tudo sozinha.
Ela se lembrou da vida passada.
Todos os dias, acordava antes do amanhecer.
O café de Francisco precisava estar exatamente a 85 graus.
O sanduíche dele precisava ser tostado até ficar dourado e crocante.
As roupas das crianças precisavam ser lavadas à mão.
Até as meias eram passadas para ficarem perfeitamente lisas.
Mas o que ela recebeu em troca?
A atenção e o carinho que Francisco sempre dava a Marina.
A proximidade dos filhos com Marina.
E a morte solitária no dia em que completou 62 anos.
A voz de Francisco ficou ainda mais fria.
— Se você quer fazer birra, então diga de uma vez. Não aja como uma criança.
Jaqueline curvou levemente os lábios.
— Eu não estou fazendo birra. Só quero descansar.
Antes que terminasse de falar, a porta do quarto se abriu com força.
Arthur e Helena entraram correndo, com expressões de raiva no rosto.
Helena gritou:
— A mamãe é muito preguiçosa! Nós queremos que a Marina cuide da gente!
Arthur também falou:
— A Marina é mais gentil que você, mais dedicada que você e mil vezes melhor!
Francisco ficou olhando para Jaqueline, esperando que ela cedesse.
Mas ela apenas respirou fundo e respondeu em voz baixa:
— Já que vocês acham que Marina é melhor, então chamem ela para vir. Eu não tenho problema com isso.
O quarto ficou em silêncio naquele instante.
A expressão de Francisco escureceu completamente.
— Você tem certeza?
Jaqueline respirou fundo.
— Tenho absoluta certeza.
Helena puxou a manga de Francisco.
— Papai, vamos logo! Eu quero que a Marina venha agora!
Arthur fez uma careta para Jaqueline.
— Com a Marina, nós nunca mais vamos precisar de você! Vai embora! Sai dessa casa!
Francisco olhou para Jaqueline uma última vez.
Ao perceber que ela continuava sem nenhuma reação, se virou e saiu levando as crianças.
Jaqueline permaneceu parada no mesmo lugar.
Ela ouviu o som do carro se afastando lentamente.
Então fechou os olhos.
Em pouco tempo, realizaria o desejo deles.
Ela iria embora de vez.
Longe deles.
Longe daquela casa.