Capítulo 3
No primeiro dia em que Marina se mudou para a casa, ela já começou a dar ordens às empregadas e mandou mudar completamente a organização da sala.

Seus dedos deslizaram pelo sofá de couro legítimo.

Depois, ela se virou para Francisco e sorriu com delicadeza.

— Esse sofá é muito feio. Que tal trocarmos por um de tom bege-claro?

Francisco nem hesitou.

Apenas ordenou ao mordomo Anselmo:

— Faça como Marina pediu.

No canto da escada, Jaqueline observava em silêncio enquanto os funcionários retiravam o sofá que ela havia escolhido cuidadosamente seis meses antes.

Arthur e Helena seguiam Marina como duas pequenas sombras, cheios de animação.

— Marina, essa almofada também precisa ser trocada! Foi a mamãe que comprou. É muito feia!

Marina passou a mão na cabeça dos dois com carinho.

— Tudo bem. Vamos trocar todas.

Os dedos de Jaqueline se apertaram por um instante, mas logo relaxaram.

Aquelas almofadas tinham sido costuradas por ela mesma quando estava grávida.

Dentro delas, havia enchimento de fibra antialérgica, porque a pele das crianças era muito sensível quando eram pequenas.

Agora, eram jogadas fora sem que ninguém se importasse.

Nos dias seguintes, aquela casa foi se tornando cada vez mais estranha para Jaqueline.

Na mesa de jantar, Marina passou a se sentar no lugar que antes era dela e colocava comida no prato das duas crianças com todo cuidado.

Às vezes, Francisco até preparava café para Marina pessoalmente, colocava a xícara diante dela com delicadeza, enquanto seus olhos revelavam uma ternura que Jaqueline nunca tinha recebido dele.

À noite, as luzes da sala ficavam mais aconchegantes.

Os quatro se reuniam no sofá para assistir a filmes.

Helena ficava deitada nos braços de Marina.

Arthur apoiava a cabeça no ombro de Francisco.

As risadas deles preenchiam a sala.

Quando Jaqueline passava por perto, ninguém sequer notava sua presença.

Era como se ela nem existisse.

O mais irônico era que, no passado, Francisco, Arthur e Helena sempre foram extremamente exigentes com o padrão de vida que tinham.

Mas agora...

Ela via Marina colocar o relógio de milhões de dólares de Francisco sobre a mesa com o mostrador virado para baixo.

Via as crianças irem felizes para a escola usando uniformes que Marina simplesmente jogava na máquina de lavar, ainda com manchas do molho do dia anterior na gola.

Via Marina colocar comida de entrega em pratos e dizer que tinha preparado tudo, sem que ninguém a questionasse.

O mais absurdo era que todos naquela casa tratavam Marina como uma verdadeira princesa.

Quando Marina tentou recolher os pratos da mesa, Francisco segurou delicadamente o pulso dela.

— Você não precisa fazer esse tipo de coisa. Suas mãos foram feitas para tocar piano.

Arthur pegou a bolsa de edição limitada de Marina e falou cheio de admiração:

— Eu carrego sua bolsa para você!

Jaqueline nunca tinha visto Arthur agir daquela forma.

Anselmo entregou a Marina um par de chinelos feitos à mão com todo respeito.

— Você só precisa descansar. O resto pode deixar com a gente.

Jaqueline tinha sido a pessoa que cuidou daquela casa durante seis anos.

Eles fingiam não perceber tudo o que ela fazia.

Mas, assim que Marina chegou, ela se transformou na princesa daquela família.

As empregadas comentavam em voz baixa:

— O Sr. Francisco trata a Srta. Marina tão bem... Eu nunca vi ele agir assim com a Sra. Jaqueline. E as crianças também gostam tanto dela. Acho que essa casa logo vai ter uma nova dona.

Jaqueline já estava completamente decepcionada.

Ela não queria mais se importar com nada.

Apenas continuava arrumando suas coisas em silêncio.

Até que, naquela tarde, seu celular começou a vibrar sem parar.

— Jaqueline! Arthur e Helena tiveram uma reação alérgica na escola! A ambulância acabou de levar os dois para o hospital!

Quando Jaqueline chegou ao hospital, as duas crianças já tinham sido levadas para a emergência.

Francisco estava parado no corredor.

O paletó estava jogado sobre um dos braços, a gravata estava frouxa no pescoço e seu olhar era extremamente frio.

Com raiva, ele perguntou:

— Jaqueline, o que você fez?

Jaqueline ficou surpresa.

— O quê?

Francisco deu um passo à frente.

Sua presença imponente fez com que ela parecesse ainda menor diante dele.

— Eles têm alergia a manga. Você não sabe disso? Por que deixou eles tomarem suco de manga?

Jaqueline encarou os olhos dele.

— Não fui eu! Eu nunca compro manga para casa.

Desde a primeira vez que as crianças comeram manga e precisaram ser internadas, ela fazia questão de avisar a todos.

Ninguém podia dar manga para Arthur e Helena.

Ela até fazia questão de verificar pessoalmente o cardápio da escola.

Como poderia cometer um erro tão básico?

Francisco soltou uma risada fria.

— Não foi você? Então foram as empregadas? Ou eles mesmos fizeram isso?

Jaqueline abriu a boca para responder.

Nesse momento, a enfermeira abriu a porta e saiu.

— As crianças acordaram.

No quarto, Arthur e Helena estavam deitados na cama, com o rosto pálido.

Quando viram os dois entrando, desviaram o olhar por um instante.

Francisco perguntou com voz grave:

— O que aconteceu?

As duas crianças trocaram olhares.

Então, de repente, apontaram ao mesmo tempo para Jaqueline.

— Foi por causa dos doces que a mamãe comprou antes. Tinham manga!

Jaqueline olhou para eles, sem conseguir acreditar.

— O que vocês disseram?

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