5- Ossos do ofício

O The Fix não tinha nada de sofisticado; era o tipo de lugar autêntico e rústico que não tenta agradar ninguém. A fachada de tijolos vermelhos esmaecidos mal chamava a atenção de quem passava, e a placa de neon insistia em piscar de forma intermitente, mesmo sob o sol forte da tarde de Waco.

​Ao entrar, fui atingida por aquele cheiro pesado, mas estranhamente reconfortante, de cerveja derramada, madeira velha e cheiro de cigarro. A luz poeirenta que atravessava as janelas se misturava ao brilho âmbar das lâmpadas penduradas no teto. O bar estava quase vazio, ocupado apenas por alguns clientes habituais que pareciam fazer parte da mobília.

​Charlotte, com aquela energia inesgotável, praticamente me arrastou até dois bancos altos em frente ao balcão de madeira escura e cheia de marcas do tempo.

​— Agora sim! — Ela bateu as mãos na madeira, abrindo um sorriso radiante para o atendente. — Por favor, duas doses de tequila, do bom. E duas cervejas bem geladas.

​Eu pisquei, incrédula.

​— Tequila, Charle? São três da tarde!

​Ela deu de ombros e se virou para mim com um sorriso maroto, fazendo seus cachos balançarem.

​— Não é todo dia que a gente livra uma golpista. Isso exige mais do que uma simples cerveja, Estela. É hora de comemorar!

​Observei o atendente servir o líquido dourado. O aroma forte do destilado subiu, invadindo minhas narinas. Antes que eu pudesse protestar novamente, Charlotte ergueu o copo e, em um movimento rápido e descontraído, virou a dose de uma vez.

Ela nem sequer fez careta, apenas deu um breve de ombros como se estivesse bebendo água.

​— Pronto! — Ela bateu o copinho na madeira e me encarou com seus olhos verdes brilhando. — Vamos, Estela, bebe logo e tira essas preocupações da cabeça! Você fez seu trabalho muito bem feito. Ossos do ofício, sabe? Vamos nos divertir. Bebe e chega de drama!

Olhei para o copo à minha frente. Senti minha armadura profissional se desfazendo. Era inútil tentar resistir à determinação alegre da Charlotte.

​— Tá bom, tá bom — rendi, pegando o copo com hesitação. — Você tem razão, Charle. Não vou mais pensar nisso.

​Fechei os olhos, levei o copo à boca e virei. O líquido desceu rasgando a minha garganta como fogo. Fiz uma série de caretas exageradas, tossindo e sentindo meus olhos lacrimejarem instantaneamente.

​— Ai, meu Deus! — exclamei com a voz rouca, batendo o copo no balcão. — Que negócio forte! Como você consegue beber isso, Charle?

​Ela deu uma gargalhada gostosa, pegou o meu segundo copo e já se preparou para virar também.

​— Ah, você é muito fresca!

​Ela entornou a segunda dose com a mesma facilidade da primeira. Acabamos caindo na risada juntas.

O contraste entre nós era notável, mas a leveza dela era o alívio que eu precisava.

Peguei uma garrafa de cerveja gelada, ansiosa para lavar aquele rastro queimante da tequila.

​— Olha só — eu disse, usando a garrafa de escudo. — Vou ficar só na cerveja, ok? Estou fora dessa tequila.

​— Tá bom, tá bom! — ela piscou para mim. — Eu bebo por nós duas então!

​— Alguém tem que ficar sóbria para achar o caminho de casa depois, né? — respondi, forçando um sorriso.

Já tínhamos esvaziado algumas garrafas de cerveja e o som no The Fix só aumentava. O entardecer deu lugar à noite e, com ela, o fluxo de gente, transformando o bar em um formigueiro humano.

​Senti uma leve tonteira da bebida e a necessidade urgente de ir para casa. Avisei Charlotte que ia ao banheiro e que, na volta, finalmente encerraremos a noite.

Desci do banco com a cabeça levemente zonza e comecei a serpentear entre as mesas, desviando de grupos e casais distraídos.

​Foi nesse trajeto que o notei.

​Em uma mesa semi-escondida perto da parede, um homem que parecia ter saído de um universo paralelo estava sentado. Ele deveria ter uns 60 anos e destoava completamente de tudo ali.

Enquanto o resto do bar vestia jeans e xadrez, ele usava um terno escuro, de corte impecável e visivelmente caro. Parecia um executivo de alto escalão perdido em um bar de beira de estrada.

​Sua expressão era séria, imperturbável, e seus olhos estavam fixos em mim. Não era aquele olhar de flerte barato que costumuva receber em bares; era clínico, avaliativo.

​Uma pontada de preocupação me atingiu.

Acelerei o passo, decidida a ignorá-lo e alcançar a segurança do banheiro feminino, mas quando passei por ele se levantou.

​Ele era alto e sua presença parecia impor um vácuo de silêncio ao redor. Com um movimento discreto, ele me impediu de passar. Sua voz, grave e controlada, cortou o burburinho:

​— Estela Anderson?

​O choque me congelou. A tonteira sumiu rapidamente, substituído por um alerta frio que percorreu minha espinha. Virei, estudando com a mesma intensidade que uso para encarar uma testemunha hostil no tribunal.

​— O que o senhor quer comigo? — perguntei baixo, sem esconder a desconfiança.

​Ele não respondeu.

Estendeu a mão lentamente e me entregou um cartão de visita de altíssima qualidade. Meus olhos se arregalaram ao ler o nome gravado em relevo:

STONE ADVOCACIA.

​Arqueei uma sobrancelha, o encarando. Eu conhecia o nome, é claro. Era uma das gigantes de Nova York, o sinônimo do poder, que eu só via em revistas ou séries de TV. Mas, como boa advogada, minha primeira reação foi o ceticismo.

​— Meu nome é Thomas Miller — disse ele, com uma precisão fria. — Trabalho para a Stone Advocacia. E vim até aqui porque queremos contratar os seus serviços.

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