Mundo de ficçãoIniciar sessãoO The Fix não tinha nada de sofisticado; era o tipo de lugar autêntico e rústico que não tenta agradar ninguém. A fachada de tijolos vermelhos esmaecidos mal chamava a atenção de quem passava, e a placa de neon insistia em piscar de forma intermitente, mesmo sob o sol forte da tarde de Waco.
Ao entrar, fui atingida por aquele cheiro pesado, mas estranhamente reconfortante, de cerveja derramada, madeira velha e cheiro de cigarro. A luz poeirenta que atravessava as janelas se misturava ao brilho âmbar das lâmpadas penduradas no teto. O bar estava quase vazio, ocupado apenas por alguns clientes habituais que pareciam fazer parte da mobília. Charlotte, com aquela energia inesgotável, praticamente me arrastou até dois bancos altos em frente ao balcão de madeira escura e cheia de marcas do tempo. — Agora sim! — Ela bateu as mãos na madeira, abrindo um sorriso radiante para o atendente. — Por favor, duas doses de tequila, do bom. E duas cervejas bem geladas. Eu pisquei, incrédula. — Tequila, Charle? São três da tarde! Ela deu de ombros e se virou para mim com um sorriso maroto, fazendo seus cachos balançarem. — Não é todo dia que a gente livra uma golpista. Isso exige mais do que uma simples cerveja, Estela. É hora de comemorar! Observei o atendente servir o líquido dourado. O aroma forte do destilado subiu, invadindo minhas narinas. Antes que eu pudesse protestar novamente, Charlotte ergueu o copo e, em um movimento rápido e descontraído, virou a dose de uma vez. Ela nem sequer fez careta, apenas deu um breve de ombros como se estivesse bebendo água. — Pronto! — Ela bateu o copinho na madeira e me encarou com seus olhos verdes brilhando. — Vamos, Estela, bebe logo e tira essas preocupações da cabeça! Você fez seu trabalho muito bem feito. Ossos do ofício, sabe? Vamos nos divertir. Bebe e chega de drama! Olhei para o copo à minha frente. Senti minha armadura profissional se desfazendo. Era inútil tentar resistir à determinação alegre da Charlotte. — Tá bom, tá bom — rendi, pegando o copo com hesitação. — Você tem razão, Charle. Não vou mais pensar nisso. Fechei os olhos, levei o copo à boca e virei. O líquido desceu rasgando a minha garganta como fogo. Fiz uma série de caretas exageradas, tossindo e sentindo meus olhos lacrimejarem instantaneamente. — Ai, meu Deus! — exclamei com a voz rouca, batendo o copo no balcão. — Que negócio forte! Como você consegue beber isso, Charle? Ela deu uma gargalhada gostosa, pegou o meu segundo copo e já se preparou para virar também. — Ah, você é muito fresca! Ela entornou a segunda dose com a mesma facilidade da primeira. Acabamos caindo na risada juntas. O contraste entre nós era notável, mas a leveza dela era o alívio que eu precisava. Peguei uma garrafa de cerveja gelada, ansiosa para lavar aquele rastro queimante da tequila. — Olha só — eu disse, usando a garrafa de escudo. — Vou ficar só na cerveja, ok? Estou fora dessa tequila. — Tá bom, tá bom! — ela piscou para mim. — Eu bebo por nós duas então! — Alguém tem que ficar sóbria para achar o caminho de casa depois, né? — respondi, forçando um sorriso. Já tínhamos esvaziado algumas garrafas de cerveja e o som no The Fix só aumentava. O entardecer deu lugar à noite e, com ela, o fluxo de gente, transformando o bar em um formigueiro humano. Senti uma leve tonteira da bebida e a necessidade urgente de ir para casa. Avisei Charlotte que ia ao banheiro e que, na volta, finalmente encerraremos a noite. Desci do banco com a cabeça levemente zonza e comecei a serpentear entre as mesas, desviando de grupos e casais distraídos. Foi nesse trajeto que o notei. Em uma mesa semi-escondida perto da parede, um homem que parecia ter saído de um universo paralelo estava sentado. Ele deveria ter uns 60 anos e destoava completamente de tudo ali. Enquanto o resto do bar vestia jeans e xadrez, ele usava um terno escuro, de corte impecável e visivelmente caro. Parecia um executivo de alto escalão perdido em um bar de beira de estrada. Sua expressão era séria, imperturbável, e seus olhos estavam fixos em mim. Não era aquele olhar de flerte barato que costumuva receber em bares; era clínico, avaliativo. Uma pontada de preocupação me atingiu. Acelerei o passo, decidida a ignorá-lo e alcançar a segurança do banheiro feminino, mas quando passei por ele se levantou. Ele era alto e sua presença parecia impor um vácuo de silêncio ao redor. Com um movimento discreto, ele me impediu de passar. Sua voz, grave e controlada, cortou o burburinho: — Estela Anderson? O choque me congelou. A tonteira sumiu rapidamente, substituído por um alerta frio que percorreu minha espinha. Virei, estudando com a mesma intensidade que uso para encarar uma testemunha hostil no tribunal. — O que o senhor quer comigo? — perguntei baixo, sem esconder a desconfiança. Ele não respondeu. Estendeu a mão lentamente e me entregou um cartão de visita de altíssima qualidade. Meus olhos se arregalaram ao ler o nome gravado em relevo: STONE ADVOCACIA. Arqueei uma sobrancelha, o encarando. Eu conhecia o nome, é claro. Era uma das gigantes de Nova York, o sinônimo do poder, que eu só via em revistas ou séries de TV. Mas, como boa advogada, minha primeira reação foi o ceticismo. — Meu nome é Thomas Miller — disse ele, com uma precisão fria. — Trabalho para a Stone Advocacia. E vim até aqui porque queremos contratar os seus serviços.






