4- O gosto da vitória

— Senhor Torres, dado o seu fascínio pela minha cliente e o seu histórico de má gestão, é mais plausível que o senhor não tenha lido o contrato por estar distraído por motivos pessoais. E agora busca vingança por um interesse que ela rejeitou.

​— Eu fui enganado! — ele gritou, mas o som era de puro desespero. O dano estava feito. Eu o havia transformado, aos olhos do tribunal, a vítima em um homem vingativo e irresponsável.

​Avancei um passo, perdendo qualquer traço de cortesia. Minha voz agora era uma ordem inegociável.

— É verdade ou não o que estou dizendo? Responda!

​— Protesto! Ela está intimidando o meu cliente! — o advogado dele gritou.

​— Aceito — afirmou o juiz. — Reformule pergunta Dra Anderson.

​O Sr. Torres cobriu as orelhas, como se tentasse abafar o peso do meu julgamento. Ele estava quebrado. Ele ergueu a cabeça subitamente, as lágrimas escorrendo.

​— Não foi bem assim! Ela está distorcendo tudo! Eu fui enganado!

​Nem sequer olhei para ele. O senhor Torres estava destruído. Dirigi-me ao juiz com a frieza de quem acaba de fechar um contrato.

— Sem mais perguntas, Meritíssimo.

​Pelo canto do olho, vi o Sr. Torres encolhido, as lágrimas formando pequenas manchas úmidas na madeira da tribuna. Virei-me e retornei à minha mesa, sentindo o peso do silêncio no tribunal.

​A ruína dele era o degrau que eu precisava para completar meu número de vitórias antes dos 30 anos, que eu completaria em alguns meses.

Esse era meu passaporte para estar acima da média. Eu tinha conseguido o que queria. Mas, não imaginava que o gosto da vitória tivesse um sabor tão amargo.

Sem dizer uma única palavra a Evelyn, me retirei dali. Catei minha pasta de couro e comecei a marchar pelo corredor, meus passos rápidos e secos ecoando no chão de mármore.

À distância, ainda podia ouvir a voz estridente de Evelyn celebrando a vitória, mas eu não me dei ao trabalho de olhar para trás.

Sentia-me contaminada, como se o meu terno tivesse sido manchado por aquele contrato.

​Afastei-me da sala de audiência com um nó na garganta. Eu tinha vencido, as estatísticas diriam isso, mas o preço cobrado pela minha consciência era alto demais. A imagem da esposa do Sr. Torres, desabando em lágrimas, estava gravada na minha mente como uma marca. Eu tinha o veredito, tinha o bônus, mas continuava me sentindo miseravelmente vazia.

Apressei o passo, querendo apenas o silêncio dentro do meu carro, mas meus planos de fuga foram abruptamente interrompidos.

​— Estela! Espera!

​Reconheci a voz vibrante instantaneamente. Era Charlotte. Minha melhor amiga era o meu oposto exato: um furacão de alto-astral que parecia imune à gravidade da vida. Ela vinha em minha direção com seu terno azul vibrante que contrastava com seus cachos volumosos, os olhos verdes brilhando com aquela alegria que eu, naquele momento, invejava e estranhava. Ela me alcançou um pouco ofegante, mas com um sorriso de ponta a ponta.

​— Uauuuuu! Você arrasou, amiga! Totalmente arrasou! — Antes que eu pudesse reagir, ela me envolveu em um abraço apertado no meio do corredor. Tentei me desvencilhar, mas Charlotte era imparável. — Você destruiu amiga, mas de um jeito tão elegante! Seu argumento foi de mestre!

​Consegui me soltar, mas não fui capaz de esconder o desânimo que pesava no meu rosto.

​— Obrigada, Charle — minha voz saiu baixa, sem vida, desprovida de qualquer traço do triunfo que ela esperava.

​Charlotte inclinou a cabeça, me estudando com uma confusão genuína.

​— Que isso, amiga? Nem parece que acabou de ganhar o caso que vai ser seu passaporte para Nova York! Muda essa cara, mulher, pelo amor de Deus!

​Suspirei fundo, esfregando a têmpora onde uma dor de cabeça começava a latejar sob o coque firme.

​— Ah, Charle... eu não sei. Não consigo me animar. Só quero ir para casa.

​Charlotte soltou uma gargalhada incrédula e agarrou meu braço com uma firmeza. Ela não aceitava "não" como resposta.

​— Que casa o quê! Nem pensar! A gente vai para o The Fix tomar uma cerveja gelada e comemorar essa vitória. Você merece, Estela!

​Ela começou a me puxar com uma determinação feroz em direção à saída.

​— Não! Beber não, Charle...

​Mas Charlotte simplesmente ignorou meus protestos. Com seu entusiasmo inabalável, ela continuou a me arrastar, forçando a deixar para trás o tribunal e a minha crise de consciência, empurrando para qualquer tipo de esquecimento temporário que o álcool pudesse oferecer.

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