6- Uma proposta inesperada

— Hã?! — Soltei uma risada curta e irônica, tentando processar o absurdo da situação. — Como assim? Você saiu de Nova York para vir até este fim de mundo só para contratar uma advogada? Desculpe, mas isso não faz o menor sentido.

​Thomas Miller não esboçou reação ao meu sarcasmo.

​— A propósito, belo trabalho hoje — comentou ele, ignorando minha ironia. — Temos acompanhado seu progresso. Não buscamos você apenas pelo seu histórico de vitórias, Dra. Anderson. Vitórias, qualquer advogado mediano consegue. Buscamos você pela sua capacidade de enxergar a brecha onde outros veem apenas uma parede. O que você fez hoje com o Sr. Torres foi cirúrgico. É esse instinto que o Sr. Stone quer ao lado dele.

​Havia um reconhecimento genuíno em sua voz, o que me deixou ainda mais desconfortável.

​— Eu tive sorte, Sr. Miller — respondi, jogando a carta da modéstia para ver até onde ele ia.

​— Precisamos dessa sorte na nossa empresa.

​Eu continuei incrédula.

​— Ah, tá bom, eu acredito nisso. Olha só, eu bebi algumas cervejas, mas não perdi a noção da realidade.

​Ele continuou me encarando seriamente. A falta de qualquer traço de brincadeira ou segundas intenções tornava tudo ainda mais estranho e, ironicamente, mais crível. Apertei o cartão entre os dedos.

​— Escute — continuei, endurecendo a voz —, eu vejo noticiários, sou uma advogada. Sei o que acontece com mulheres que caem na conversa de estranhos em bares, especialmente quando o estranho veste um terno de cinco mil dólares e diz que é de Manhattan. Por mais que minha vida esteja uma bosta ultimamente, não pretendo amanhecer em uma vala, se é que me entende.

​Aquela proposta parecia boa demais para ser verdade e, para mim, isso significava que era perigosa.

Comecei a me virar para sair dali, mas parei e estiquei a mão para devolver o cartão.

​Thomas Miller não se moveu para pegá-lo.

​— Não estou aqui por acaso, Dra. Anderson. Seu mentor na Baylor Law School, o Reitor George Preston, é um velho conhecido meu e ex-colega de faculdade. Foi ele quem nos indicou o seu nome. Ele disse que você é a advogada de contencioso mais implacável e talentosa que ele viu nos últimos anos.

​Lembrei-me na hora de que o Reitor sempre mencionava seus tempos em Nova York e seus contatos influentes, mas eu nunca imaginei que fossem tão influentes.

​Ele fez uma pausa calculada antes de continuar:

​— Eu não vim em busca, vim em diligência. Vim confirmar o que já sabíamos. A maneira como você usou a falha moral do Sr. Torres e a ambiguidade do contrato de Evelyn Brooks para driblar a justiça... é exatamente o tipo de competência que a Stone Advocacia precisa para os clientes mais complexos de Manhattan.

​Parei, com o corpo ainda meio virado. O sorriso sarcástico desapareceu. O medo do estranho estava sendo rapidamente engolido pela curiosidade.

​— E se ainda estiver incrédula quanto à proposta — enfatizou Thomas —, pode perguntar ao Reitor. Ele mesmo irá confirmar tudo o que estou dizendo.

— Sim, claro! Amanhã mesmo eu falo com ele. E qual é o cliente tão complexo em questão? — perguntei, voltando-me totalmente para ele. A névoa do álcool tinha dissipado por completo.

​— Um caso envolvendo a construtora do filho do Sr. Stone — Miller respondeu, e pela primeira vez notei um vislumbre de urgência em sua expressão gélida. — O risco é alto, Dra. Anderson. Mas o impacto de uma vitória ressoa em toda Wall Street. A Stone não oferece apenas um cargo; oferecemos a chance de você deixar de ser um grande nome em uma cidade pequena para se tornar uma força em Manhattan. Cuidaremos de toda a logística da sua transição, o melhor que Nova York tem a oferecer estará à sua disposição. Quanto aos honorários... digamos que a Stone valoriza o talento na mesma proporção da complexidade. E este é um caso de muitos dígitos.

​O barulho do bar pareceu emudecer. Minha crise de consciência de minutos atrás foi subitamente engolida pela enormidade daquela oportunidade. Senti meu coração acelerar.

​— Olha só, eu preciso... — comecei, apontando de forma vaga para a direção do banheiro, tentando ganhar um segundo para processar tudo aquilo.

​Nesse momento, Charlotte, notando minha demora e a figura exótica do Thomas Miller, se aproximou.

Ela estava visivelmente mais cambaleante, mas a preocupação nos seus olhos verdes era real.

​— Amiga, está tudo bem? Você estava demorando uma eternidade! — Ela disparou, antes de desviar o olhar para o homem de terno com uma desconfiança cômica. — E quem é você? MIB, Homens de Preto? Amiga, cuidado! Se ele tirar um aparelho estranho do bolso, corre!

​Ela colocou as mãos no rosto em um gesto dramático.

Miller, no entanto, permaneceu como uma estátua, a personificação de um profissionalismo robótico que parecia imune ao humor de Charlotte.

Ele simplesmente a ignorou e manteve o foco em mim.

​— E então, Dra. Anderson? O que me diz?

​Respirei fundo, deixando a cautela vencer a impulsividade por enquanto.

​— Amanhã nos encontraremos novamente e eu te dou minha resposta. Aqui, às dezesseis horas. Preciso falar com o Reitor Preston primeiro. Pode ser? — Tentei manter a voz firme, escondendo a euforia que gritava por dentro.

​Miller apenas assentiu, sem alterar um único músculo da face.

​— Amanhã, às dezesseis horas. Aproveite sua cerveja, Dra. Anderson.

​Com aquela mesma postura rígida, ele se virou e deslizou pela multidão, sumindo sem um aceno ou uma palavra a mais. Ficamos as duas ali, observando o rastro de autoridade que ele deixou para trás.

​— Caramba! Que homem estranho! — Charlotte soltou uma gargalhada histérica e aliviada. — Amiga, sua carência por figura paterna está tão séria que o universo te mandou um androide de terno?

​Revirei os olhos, mas não consegui segurar o sorriso.

​— Ah, vê se não enche, Charle. Você está muito tonta, isso sim. Vou ao banheiro.

​Deixei-a rindo sozinha e apressei o passo em direção ao toalete.

Já pensando que teria que ligar para o Reitor Preston para confirmar aquela história, pois a minha vitória no caso da Evelyn Brooks abriu muito mais portas do que eu imaginava.

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