Mundo de ficçãoIniciar sessãoSoltei uma risada curta e irônica, tentando processar o absurdo da situação.
— Como assim? Você saiu de Nova York para vir até aqui, neste fim de mundo, só para contratar uma advogada? Desculpe, mas tente dar o golpe em outra. Thomas Miller não esboçou reação ao meu sarcasmo. — Temos acompanhado seu progresso. — comentou ele, ignorando minha ironia. — belo trabalho hoje. Não buscamos apenas pelo seu histórico de vitórias, Dra. Anderson. Buscamos a sua capacidade de enxergar brechas. O que você fez hoje com o Sr. Torres foi cirúrgico. Havia um reconhecimento genuíno em sua voz, o que me deixou ainda mais desconfortável. — Eu só tive sorte, Sr. Miller — respondi, jogando a carta da modéstia. — Precisamos dessa sorte na nossa empresa. Eu continuei incrédula. — Ah, tá bom. Olha só, eu bebi algumas cervejas, mas não perdi a noção da realidade. Ele continuou me encarando seriamente. A falta de qualquer traço de brincadeira ou segundas intenções tornava tudo ainda mais estranho e, ironicamente, mais crível. Apertei o cartão entre os dedos. — Escute — continuei, endurecendo a voz — eu vejo noticiários, sou uma advogada. Sei o que acontece com mulheres que caem na conversa de estranhos em bares,. Por mais que minha vida esteja uma bosta ultimamente, não pretendo amanhecer em uma vala. Aquela proposta parecia boa demais para ser verdade e, para mim, isso era um sinal de alerta. Me virei para sair dali, mas parei e estiquei a mão para devolver o cartão. Thomas Miller não se moveu para pegá-lo. — Não estou aqui por acaso, Dra. Anderson. Seu ex-mentor na Baylor Law School, Reitor George Preston, é um ex-colega de faculdade. Foi ele quem nos indicou o seu nome. Ele disse que você é a advogada de litígio mais implacável e talentosa. O Reitor sempre mencionava seus tempos em Nova York e seus contatos influentes, mas eu nunca imaginei que fossem tão influentes. — A maneira como você usou a falha moral do Sr. Torres e a ambiguidade do contrato de Evelyn Brooks para driblar a justiça... é exatamente o tipo de competência que precisamos. Parei, com o corpo ainda virado. O sorriso sarcástico desapareceu. O medo estava sendo rapidamente engolido pela curiosidade. — E se ainda estiver incrédula — enfatizou Thomas — pode perguntar ao Sr. Preston. Ele mesmo irá confirmar tudo o que estou dizendo. — AH! Sim! E qual é o cliente tão complexo em questão? — perguntei, voltando-me totalmente para ele. A névoa do álcool tinha se dissipado por completo. — Um caso envolvendo uma construtora — Miller respondeu, e pela primeira vez notei um vislumbre de urgência em sua expressão gélida. — A Stone oferece a chance de você ser um grande nome em Manhattan. Cuidaremos de toda a logística da sua transição. E este é um caso de muitos dígitos. O barulho do bar pareceu me atordoar. Minha crise de consciência foi subitamente engolida pela oportunidade. Meu coração acelerou. — Olha só, eu preciso... — comecei, apontando de forma vaga para a direção do banheiro, tentando ganhar um segundo para processar tudo aquilo. Charlotte, notou minha demora e a figura exótica do Thomas Miller, se aproximou. Ela estava cambaleante, mas a preocupação nos seus olhos verdes era real. — Amiga, está tudo bem? Você estava demorando uma eternidade! — Ela disparou, antes de desviar o olhar para o homem de terno com uma desconfiança cômica. — E quem é você? MIB, Homens de Preto? Amiga, cuidado! Se ele tirar um aparelho estranho do bolso, você corre! Ela colocou as mãos no rosto em um gesto dramático. Miller, no entanto, permaneceu como uma estátua, a personificação de um profissionalismo robótico que parecia imune ao humor de Charlotte. Ele simplesmente a ignorou e mantendo o foco em mim. — E então, Dra. Anderson? O que me diz? Respirei fundo, deixando a cautela vencer a impulsividade por enquanto. — Amanhã me encontre e eu te dou minha resposta. Aqui, às dezesseis horas. Preciso falar com o Sr. Preston primeiro. — Tentei manter a voz firme, escondendo a euforia que gritava por dentro. Miller apenas assentiu, sem alterar um único músculo da face. — Amanhã, às dezesseis. Aproveite sua cerveja, Dra. Anderson. Com aquela mesma postura rígida, ele deslizou pela multidão, sumindo sem um aceno ou despedida. Ficamos as duas ali, observando o rastro de autoridade que ele deixou para trás. — Caramba! Que homem estranho! — Charlotte soltou uma gargalhada histérica e aliviada. — Amiga, sua carência por figura paterna é tão séria que o universo te mandou um andróide de terno? Revirei os olhos, mas não consegui segurar o sorriso. — Ah, vê se não enche, Charle. Vou ao banheiro.






