3- Vencer a qualquer custo

Waco, Texas – Tribunal Distrital.

Estela Anderson

O calor de Waco parecia ter decidido instalar-se aqui dentro, pesado e espesso. Apesar do esforço do ar condicionado, os ventiladores de teto giravam com uma lentidão preguiçosa, apenas remexendo o cheiro de pó e o meu próprio nervosismo.

​No centro do tribunal, o Sr. Torres, o homem que eu estava prestes a destruir, depunha com a voz embargada.

​— Essa Sra. Brooks, ela me enganou! — ele bradou, batendo na tribuna. — Disse que era a melhor taxa de juros do mercado! Escondeu as cláusulas abusivas... Por causa desse contrato, vou perder a casa. Minha esposa, meus filhos pequenos... não temos para onde ir!

​A dor crua nos olhos dele era palpável. Cada palavra sobre os filhos pequenos atravessava a minha armadura como uma lâmina quente. Sob a mesa, as minhas unhas cravaram-se na palma da minha mão, escondidas. Senti um frio incômodo subir pela espinha e precisei de todo o meu autocontrole para manter a respiração regular. A verdade, aquela que eu tentava sufocar com códigos legais, era inegável: ele tinha razão sobre Evelyn, minha cliente.

​Desviei o olhar para o lado. Evelyn Brooks, parecia estar em outro planeta. Usava um vestido vermelho justo, decotado demais para um tribunal, e exibia uma maquiagem impecável que era, na verdade, a sua armadilha favorita. Enquanto o Sr. Torres se desintegrava em lágrimas, ela apenas o observava com um tédio cínico, quase divertida.

​Senti uma onda de náusea. Eu estava sendo paga para limpar as sujeiras daquela mulher. O peso do contrato nas minhas mãos parecia pesar toneladas.

​— Sem mais perguntas, excelência — concluiu o advogado de acusação, com um suspiro cansado e justo.

​O silêncio voltou a pairar, quebrado apenas pelo zumbido dos ventiladores. Era a minha vez.

​— Dra. Anderson? — o juiz chamou, apoiando os cotovelos na mesa. — Sua vez de interrogar.

​Eu não me mexi. O mundo parecia ter ficado em câmara lenta. A pausa estendeu-se, estranha, longa demais. Senti a cotovelada impaciente de Evelyn no meu braço e pisquei, regressando abruptamente à realidade.

​— Excelência... — a minha voz saiu rouca, irreconhecível. Limpei a garganta e levantei-me, endireitando a saia. — Peço desculpa. A defesa solicita um breve recesso de dez minutos.

​O juiz assentiu, surpreso com a minha falha na compostura. Saí dali sem olhar para trás, em direção ao banheiro.

​Lá dentro, abri a torneira com força e atirei água fria ao rosto, ignorando a maquiagem. O choque térmico foi um alívio momentâneo, uma tentativa desesperada de lavar a sensação de sujeira que me subia pela pele. Encarei o meu reflexo no espelho rachado. A imagem era a de uma advogada de elite, mas os meus olhos... estavam me traindo.

​O rosto cínico de Evelyn pareceu sobrepor-se ao meu no reflexo. Respirei fundo, tentando silenciar a voz da consciência que ameaçava destruir minha ascensão.

​— Estela, não é a hora nem o momento para ter crises de moral — Sibilei para a minha própria imagem, com uma autoridade fria. — Você precisa vencer este caso. Precisa desse dinheiro. FOCO. Vencer é a única opção.

​Naquele momento, eu não era a advogada justa que um dia sonhei ser. Eu era a jovem marcada pelo abandono do meu pai na infância e pela traição do meu noivo. A jovem que aprendeu, da forma mais dura, que a única segurança real neste mundo é aquela que o dinheiro pode comprar.

​Pratiquei a minha máscara profissional: ergui o queixo, relaxei os ombros e treinei aquele olhar cortante que desarmava qualquer testemunha. A armadura estava de volta. Verifiquei se o meu coque estava perfeito. O nojo que sentia pela Evelyn foi empurrado para um canto escuro da minha mente, substituído pela necessidade imperativa de vencer.

​Saí do banheiro com a postura impecável e a mente programada. O recesso tinha acabado. Voltei para a mesa com o olhar frio e vazio. Eu era, novamente, a advogada que ganhava a qualquer custo.

Caminhei lentamente até a tribuna. Cada passo, acentuado pelo estalo seco do meu salto alto no chão de madeira, parecia ecoar o destino inevitável do Sr. Torres. Ele parecia encolher sob o meu olhar enquanto eu me posicionava, dominando o espaço.

​— Senhor Torres — comecei, minha voz saindo grave e autoritária. Cada sílaba era uma peça de um quebra-cabeça que eu estava montando para prendê-lo. — O senhor nos relatou que a Sra. Brooks o enganou com o contrato. Correto?

​— Foi isso que eu disse! Ela me fez assinar sem...

​— Responda apenas sim ou não, Senhor Torres! — Minha voz cortou a dele como uma navalha.

​— Sim — ele murmurou, intimidado.

​— Mas, na verdade, sua falha em ler e compreender o documento de vinte páginas não teve a ver com complexidade técnica, mas sim com uma falha de seu próprio discernimento, não é mesmo? — Não esperei que ele processasse a pergunta. Prossegui, afirmando com autoridade: — O senhor estava CLARAMENTE interessado em outras coisas além da taxa de juros. Pelas imagens que tive acesso nota-se seu interesse romântico pela minha cliente.

O rosto dele ficou vermelho-vivo.

​— Isso é um absurdo! Não tem nada a ver!

​Ignorei o protesto. Era hora de usar a informação que eu havia desenterrado meticulosamente das cinzas da vida dele.

— O senhor mencionou seus filhos. Um fato lamentável. Mas concorda que o contrato com a Sra. Brooks não foi o único fator para o seu fracasso financeiro? — Fixei meus olhos nos dele, deixando claro o que vinha a seguir: Eu sei tudo sobre você. — O senhor possui um histórico de dez anos de padrões de consumo extravagantes e irresponsáveis. Hábitos que drenaram suas reservas. Inclusive... — arqueei uma sobrancelha, — eu quero anexar esse documento a defesa. As provas de que seu endividamento antecede e é paralelo à assinatura deste contrato.

O advogado de acusação saltou, tentando salvar o que restava da dignidade do cliente.

— Protesto! Isso é uma tática de difamação!

— Indeferido. O tribunal entende que a defesa está questionando a credibilidade do requerente — o juiz respondeu, folheando as provas. — Continue, Dra. Anderson.

Virei-me para o Sr. Torres. Ele estava encurralado, o suor escorrendo pela testa. Senti uma pontada de náusea, mas a sufoquei.

Eu precisava vencer.

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