Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena não conseguiu dormir.
As palavras de Valentina ecoavam em sua mente como um aviso constante: “Espero que saiba onde está se metendo.”
Ela se virou na cama enorme, sentindo-se pequena demais dentro daquele quarto luxuoso. Não era apenas uma ex-namorada ressentida. Havia algo mais ali. Algo perigoso.
Na manhã seguinte, Helena desceu para o café decidida a não demonstrar fraqueza.
Lorenzo já estava sentado à mesa, lendo no tablet, impecável como sempre. Parecia que a noite anterior não o tinha afetado.
— Bom dia — ela disse, mantendo a postura.
Ele ergueu os olhos lentamente.
— Dormiu bem?
— O suficiente.
Ele a observou por alguns segundos, como se tentasse ler algo além das palavras.
— Valentina não costuma aparecer sem intenção — ele disse, voltando ao tablet. — Se ela se aproximar de você, não reaja impulsivamente.
Helena sentiu o orgulho se manifestar.
— Eu não sou fraca.
Ele sustentou o olhar dela.
— Eu sei.
A resposta foi mais suave do que o esperado.
Naquela tarde, Lorenzo insistiu para que ela o acompanhasse até a empresa.
— A imprensa já sabe do casamento. Sua ausência pode levantar suspeitas.
Helena vestiu um conjunto elegante que Marta separou. O prédio da empresa era ainda mais imponente do que ela lembrava. Funcionários olhavam discretamente enquanto ela atravessava o saguão ao lado de Lorenzo.
Ele mantinha a mão em sua cintura, firme. Protetor.
Ou possessivo?
No elevador, o silêncio era quase íntimo.
— Está nervosa? — ele perguntou.
— Não.
Mentira.
Quando as portas se abriram no último andar, Helena viu Valentina.
Ela estava encostada na mesa da secretária, como se pertencesse àquele lugar.
— Que coincidência — disse, sorrindo. — Não sabia que a nova esposa também participaria das decisões.
Helena sentiu o olhar de vários funcionários sobre ela.
— Estou conhecendo o ambiente — respondeu com elegância.
Valentina caminhou devagar em sua direção.
— Cuidado. Esse mundo não é gentil com quem não sabe jogar.
Antes que Helena respondesse, Lorenzo se colocou discretamente entre as duas.
— Valentina, marque horário antes de aparecer.
O tom dele era frio. Autoritário.
Valentina sorriu, mas seus olhos estavam furiosos.
— Claro, Lorenzo. Não gostaria de atrapalhar… a vida de casado.
Ela saiu, deixando um rastro de tensão.
Dentro da sala, Helena soltou o ar.
— Ela trabalha aqui?
— Era diretora de marketing. Pedi afastamento temporário depois do término.
— E mesmo assim ela entra como quer?
Ele passou a mão pelos cabelos, irritado.
— Ela ainda possui ações da empresa. Não é simples afastá-la.
Helena sentiu algo estranho no peito.
Ciúmes?
Não fazia sentido. Aquilo era um contrato.
Mas a ideia de Valentina ter feito parte da vida dele, de ter ocupado o espaço que agora ela ocupava… incomodava.
— Vocês ficaram juntos por quanto tempo? — ela perguntou, tentando soar casual.
Lorenzo a encarou.
— Tempo suficiente para perceber que não era o que eu queria.
— E o que você quer? — a pergunta escapou antes que ela pudesse impedir.
O silêncio se instalou.
Ele se aproximou devagar.
— Estabilidade. Controle. Nada que complique minha vida.
Helena sentiu o coração acelerar.
— Então eu sou apenas parte do controle?
Ele ficou muito perto agora. Perto demais.
— Você é parte do acordo.
A resposta deveria machucar.
Mas a forma como ele a olhava dizia outra coisa.
Os olhos escuros desceram lentamente até os lábios dela.
Helena percebeu.
O ar ficou pesado.
O mundo pareceu encolher ao redor deles.
— Isso não faz parte do contrato — ela murmurou.
— Não — ele respondeu, a voz mais baixa do que nunca.
Ele ergueu a mão, tocando levemente o rosto dela.
O gesto foi lento. Cuidadoso.
Perigoso.
Helena fechou os olhos por um segundo.
Se ele se inclinasse apenas alguns centímetros…
Mas o telefone tocou.
O som cortou o momento como uma lâmina.
Lorenzo se afastou imediatamente, recuperando a postura fria.
— Sim? — atendeu, firme novamente.
Helena deu um passo para trás, tentando controlar a respiração.
O que quase aconteceu ali não era parte do acordo.
E isso tornava tudo mais arriscado.
Quando ele desligou, o semblante estava tenso.
— A imprensa publicou fotos do jantar. Valentina está ao fundo em algumas imagens.
Helena sentiu o estômago revirar.
— O que isso significa?
Ele a encarou.
— Significa que a guerra começou.
E, pela primeira vez, Helena entendeu que o contrato não os protegeria do que estava por vir.
Muito menos do que começava a nascer entre eles.







