Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena acordou antes do despertador. A luz suave da manhã atravessava as cortinas automáticas da suíte e iluminava cada detalhe da mansão. O chão frio, os móveis impecáveis e o silêncio absoluto lembravam que ela não estava mais em seu mundo simples. Estava dentro de algo maior. Muito maior. E, acima de tudo, desconhecido.
Ela respirou fundo e encarou a aliança em seu dedo. Um lembrete constante de que agora estava casada com Lorenzo Albuquerque, um homem que nunca demonstrou emoção além do controle absoluto. Um homem que poderia comprar qualquer coisa, menos sua confiança. Mas que, de algum modo, já conseguia mexer com seu coração.
O jantar com os acionistas seria naquela noite — seu primeiro teste público como esposa de Lorenzo. Cada detalhe foi cuidadosamente explicado por Marta, que parecia saber exatamente como guiá-la por aquele mundo de riqueza, poder e aparências.
— Sorria, mas não fale demais. Controle a postura, os gestos e cada palavra — Marta instruiu. — Eles observam tudo. Qualquer deslize pode se tornar notícia.
Helena assentiu, determinada a não tropeçar no papel que agora lhe fora imposto. Era apenas um acordo, ela repetiu mentalmente. Nada pessoal.
Quando o relógio marcou o horário do jantar, o vestido vermelho, elegante e perfeitamente ajustado, chegou. Ao vesti-lo, Helena sentiu-se… poderosa, mas vulnerável. Cada passo em direção ao carro parecia levá-la mais fundo em um mundo que não lhe pertencia, e ainda assim, do qual ela agora fazia parte.
Lorenzo estava esperando. Perfeito, como sempre. Os olhos escuros a estudavam com intensidade silenciosa. Um toque de curiosidade? Talvez. Um aviso sutil? Com certeza. Ele não sorria, mas a postura firme transmitia algo mais perigoso que qualquer palavra: controle absoluto.
— Está adequada — disse ele, com o tom frio habitual. Mas os olhos traíam algo. — Não estrague isso.
Durante o jantar, tudo parecia correr bem. Helena respondeu perguntas com elegância, manteve postura firme e recebeu discretos elogios. Lorenzo observava de perto, mantendo o controle do espetáculo, como se nada pudesse surpreendê-lo.
Até que uma voz feminina interrompeu a tranquilidade da noite.
— Que surpresa desagradável.
Helena virou-se. Uma mulher alta, elegante, vestida de preto, com cabelo perfeitamente arrumado e um olhar cortante como lâmina. Cada detalhe gritava perigo e confiança.
— Valentina… — Lorenzo murmurou, visivelmente tenso.
Helena sentiu a mão dele apertar a sua de forma quase imperceptível. O toque transmitia um aviso: cuidado.
— Eu soube do casamento — a mulher disse, com um sorriso venenoso — mas pensei que fosse mais uma encenação da imprensa. Vejo que você se superou desta vez.
O clima esfriou imediatamente. O sorriso dela não tinha bondade. Era estratégico, predador.
— Helena, esta é Valentina Ferraz — Lorenzo apresentou, a voz firme. — Ela é… parte do meu passado.
Valentina inclinou a cabeça para Helena, avaliando cada gesto, cada expressão, cada detalhe de sua roupa.
— Espero que saiba onde está se metendo — disse, sussurrando com tom suave, mas mortal.
Helena engoliu seco. A tensão era palpável.
— Eu estou aqui por escolha própria — respondeu, tentando manter a calma. — Não tenho interesse em atrapalhar nada.
— Interessante — Valentina respondeu, mantendo o sorriso. — Mas o interesse nem sempre é algo que se controla.
O jantar seguiu tenso. Cada olhar, cada gesto parecia uma batalha silenciosa. Helena sentiu a pressão aumentar a cada minuto que passava. Lorenzo a observava constantemente, quase como se a estivesse protegendo sem admitir.
No caminho de volta para a mansão, o silêncio dominava o carro. Nenhum deles falava. Mas os pensamentos corriam a mil por hora.
— Ela ainda sente algo por você? — Helena finalmente perguntou, quebrando o silêncio, tentando parecer indiferente.
— Isso não importa — respondeu ele, com firmeza.
— Importa sim — retrucou ela, encarando-o. — Porque eu estou no meio disso agora.
Ele virou-se para ela, o olhar penetrante.
— Você está no meio por escolha própria — disse, quase como um aviso.
Ao chegarem à mansão, Helena subiu as escadas rapidamente. Mas antes de entrar no quarto, sentiu a presença dele atrás de si.
— Hoje você foi perfeita — murmurou Lorenzo, a voz baixa, intensa.
O olhar dele não estava frio. Estava vivo. Tenso. Perigoso.
— Não estrague isso — completou, enquanto ela entrava no quarto com o coração acelerado.
Helena fechou a porta. Encostou-se na madeira, respirando fundo.
O maior perigo daquela noite talvez não fosse Valentina.
Mas o modo como Lorenzo a olhava…
O modo como ele começava a sentir algo pelo qual nem contrato nem razão poderiam protegê-lo.







