Mundo de ficçãoIniciar sessãoA mansão parecia ainda maior por dentro.
Helena entrou devagar, sentindo o salto ecoar no piso de mármore polido. Lustres brilhavam no teto alto, quadros modernos decoravam as paredes e um aroma suave de flores preenchia o ambiente.
Tudo era luxuoso.
Tudo era distante da vida que ela conhecia.
— Seja bem-vinda, senhora Albuquerque — disse uma mulher elegante de cabelos grisalhos presos em um coque impecável.
Helena quase se virou para ver se havia outra pessoa atrás dela.
Senhora Albuquerque.
Aquilo ainda não parecia real.
— Esta é Marta — Lorenzo explicou. — Trabalha comigo há anos. É de confiança.
A palavra “confiança” soou importante.
— O quarto da senhora já está preparado — Marta informou com um leve sorriso respeitoso.
Helena percebeu o detalhe.
O quarto da senhora.
Não “o quarto do casal”.
Ela olhou discretamente para Lorenzo.
Ele entendeu.
— Como combinado, quartos separados — afirmou com naturalidade. — Mantemos a aparência apenas quando necessário.
Helena assentiu, aliviada e… estranhamente desapontada.
Subiram a escadaria em silêncio. Cada degrau parecia afastá-la mais da vida simples que conhecia.
Quando Marta abriu a porta da suíte, Helena parou na entrada.
O quarto era maior do que todo o apartamento onde morava com a mãe. Cama king-size, varanda com vista para a cidade iluminada, closet enorme e banheiro revestido de mármore claro.
Era lindo.
Mas também parecia frio.
— Se precisar de algo, estarei à disposição — Marta disse antes de sair.
Helena entrou devagar, passando os dedos pela colcha macia da cama. Aquela não era apenas uma mudança de endereço. Era uma mudança de identidade.
Ela agora fazia parte daquele mundo.
Ou pelo menos fingiria fazer.
Lorenzo permaneceu encostado na porta por alguns segundos.
— Amanhã teremos um jantar com alguns acionistas importantes — ele informou. — Será sua primeira aparição oficial como minha esposa.
Helena virou-se para ele.
— E o que exatamente você espera de mim?
Ele caminhou até ficar a poucos passos dela.
A proximidade fez o ar parecer mais pesado.
— Postura elegante. Segurança. Discrição. Não fale demais. Não confronte ninguém. E nunca demonstre insegurança.
Ela ergueu o queixo levemente.
— Eu sei me comportar, senhor Albuquerque.
Um pequeno brilho surgiu nos olhos dele.
— Espero que sim.
O silêncio que se seguiu era diferente dos anteriores.
Mais carregado.
Mais íntimo.
Helena percebeu, pela primeira vez, o quanto ele era bonito de perto. O maxilar definido, os olhos escuros intensos, a forma como parecia sempre no controle.
Mas havia algo ali… algo que não era completamente frio.
— Sua mãe está sendo preparada para a cirurgia — ele disse de repente. — O médico garantiu que tudo correrá bem.
O coração dela apertou.
— Obrigada… de verdade.
Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos.
— Eu cumpro minha parte dos acordos.
Ela não sabia se aquilo era tranquilizador ou assustador.
— E você? — ele perguntou. — Consegue cumprir a sua?
Helena sentiu o desafio implícito na pergunta.
— Sim.
Ele assentiu.
— Ótimo.
Quando ele saiu do quarto, Helena soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
Caminhou até a varanda.
A vista da cidade à noite era impressionante. Luzes por toda parte, carros minúsculos se movendo como formigas, o mundo acontecendo lá embaixo.
Ela abraçou o próprio corpo.
Era só um ano.
Um ano fingindo.
Um ano controlando sentimentos.
Um ano sendo esposa de um homem que não acreditava no amor.
Do outro lado do corredor, Lorenzo também não conseguia relaxar.
Sentado em sua poltrona com um copo de uísque na mão, ele pensava nela.
Helena não reagira como as mulheres do seu círculo social reagiriam. Não demonstrou ganância. Não tentou seduzi-lo. Não se mostrou deslumbrada com o luxo.
Ela parecia… genuína.
E aquilo o incomodava.
Porque tornava o acordo mais perigoso.
Ele não precisava de alguém que despertasse curiosidade.
Precisava de estabilidade.
Mas, ao lembrar do olhar firme dela ao dizer “eu aceito”, algo dentro dele se moveu de forma inesperada.
E isso não estava em nenhuma cláusula do contrato.
Naquela noite, sob o mesmo teto pela primeira vez, dois estranhos oficialmente casados encaravam o mesmo problema em quartos separados:
Como manter distância quando a proximidade já começava a ser sentida?







