Capítulo 6

Estava tomando café da manhã, quando recebi uma mensagem de Ana. Pedia para que eu ligasse para ela. Achei estranho, então fiz a chamada.

- Alô amiga. Podemos nos encontrar? Preciso falar com você.

- Alô! Claro, mas você está bem?

- Estou sim. Falamos quando estivermos juntas. Pode ser agora?

- Estou terminando meu café da manhã. Depois vou me vestir e vou encontrar você.

- Estou esperando no Café Azul, na esquina da minha rua.

- Eu vou até aí. Até já.

O que será que estava acontecendo? Estranhei o encontro tão repentino. Me apressei o máximo que consegui e saí para encontrá-la.

- Oi. - dei um beijo na testa dela. - Como você está?

- Oi. Na verdade, estou um pouco preocupada. - ela baixou bastante o tom de voz.

- O que aconteceu? - senti-me imediatamente alarmada.

- Adriana desapareceu. - olhou para mim. Lágrimas começaram a se formar em seus olhos.

- Desapareceu como?

- Ela não atendeu o celular durante dois dias, então fui até a casa dela.

- A mãe abriu a porta e estava chorando. Me contou que a filha tinha sido levada.

- Levada? Mas como assim? Por quem? - minha preocupação aumentava cada vez mais.

- Aqui não. Vamos sair.

- Ela se levantou para pagar, e fomos para uma rua transversal.

- Por favor, Ana. Me explica melhor essa história.

- Ela foi levada por alguém do governo.

- Mas por qual motivo? - assim que fiz essa pergunta, lembrei-me da reação de meu pai quando contei o que tinha acontecido no restaurante três semanas atrás.

- Ela desrespeitou uma regra, lembra? - olhou para os dois lados da rua, certificando-se de que ninguém estava nos ouvindo.

- E o que vai acontecer com ela?

- Ninguém fala sobre o assunto. Não se sabe o que acontece. Nem é conveniente questionar.

- Não. Isso não está certo. Vou perguntar ao meu pai. Acho que ele sabe de alguma coisa. Quando contei para ele o que tinha acontecido, ele ficou preocupado demais.

- Ele deve apenas saber que as pessoas desaparecem.

- Ela vai voltar?

- Eu não sei. Espero que sim.

- Nós nos abraçamos e choramos durante algum tempo.

- E Vitória, já sabe disso?

- Ainda não. Liguei para você primeiro. Mas penso que ela já foi para sua casa com o bebê.

Passamos o resto do dia juntas. Faltava alguma coisa. Sabia que Ana sentia exatamente o mesmo, mas nenhuma de nós tocou mais no assunto.

Papai me ligou perguntando se eu queria ir ter com ele perto de seu trabalho. Não estava com muita disposição, mas aceitei.

- Oi Mel, minha filha. O que você andou fazendo hoje?

- Assim que cheguei, ele notou que alguma coisa não estava bem.

- Estive com a Ana. Ela foi à casa de Adriana porque ela não atendia o celular.

- A expressão dele mudou imediatamente. Claramente ficou nervoso.

- Então, ela está doente?

- Não, papai. Ela foi levada.

- Mel, podemos trocar de assunto? Como está meu neto? Um pouquinho maior hoje?

- Eu quero falar sobre isso. Preciso fazer uma pergunta para você.

- Filha… em casa. - pousou a mão sobre a minha e olhou nos meus olhos, como se quisesse que eu entendesse.

- Está bem.

- Vocês já escolheram o nome ou já conversaram sobre o assunto?

- Eu pedi ao Renato para colocarmos Valen. Ele disse que ia pensar.

- Bonito nome! Você tem que explorar mais o monitor, Mel.

- Vou fazer isso hoje.

Eu estava ansiosa para poder conversar com ele sobre Adriana.

Assim que chegamos em casa, sentei-me no sofá, esperando que ele começasse o assunto. Em vez disso, ele foi para o quarto tomar banho.

Pareceu-me que estava tentando adiar.

- Você não vai se refrescar?

- Pai, por favor! Você sabe que temos uma conversa pendente.

Ele suspirou e se sentou à minha frente.

- É verdade. Eu sabia que algo assim iria acontecer. O que você quer saber?

- Primeiro, quero saber se você já conheceu alguém que quebrou alguma regra.

Não respondeu imediatamente. Pensou bastante antes de falar.

- Sim, eu conheci…

- Quem?

- Uma pessoa. Não interessa… você nem conhece. - ele estava muito na defensiva.

- O que aconteceu?

- A pessoa quebrou uma regra e também foi levada.

- Você viu isso acontecer?

- Vi, sim. Foi bem na minha frente.

- E depois? Voltou? Correu tudo bem? O que aconteceu com ela?

- Minha filha, tenha calma. Ninguém sabe o que acontece ou o que fazem com as pessoas que são castigadas. Quando elas voltam, nem se lembram. Mas nunca mais quebram regras. Isso eu posso garantir para você. Sua amiga vai voltar. É só algo temporário.

Senti que ele estava escondendo alguma coisa.

Não insisti. Eu o conhecia bem. Ele não ia contar.

Fui para o meu quarto e recebi uma mensagem de Vitória. Ela me pediu para que contasse quando soubesse alguma coisa sobre Adriana. Ela já estava instalada em sua nova casa e não podia vir se encontrar conosco.

Tirei o monitor da gaveta e observei meu filho. Ele estava flutuando. Iniciei a exploração do aparelho.

Tinha seu IC, seu peso e seu tamanho. Reparei que tinha aumentado mais um centímetro desde o dia anterior.

Entrei no chat com Renato e decidi enviar uma mensagem para ele.

- Boa noite. Espero que você esteja bem. Você já pensou no nome do bebê?

Esperei dez minutos, até que ele respondeu.

- Boa noite. Sim, eu pensei. Sinceramente, quanto mais penso no nome Valen, mais gosto dele.

- É sério? Fico muito feliz. Então vai ser esse o nome dele?

- Sim.

- Muito obrigada, Renato. Isso significa muito para mim.

- Eu sei.

Meu celular recebeu uma nova mensagem. Muito estranho. Não tinha nenhum número nem registro. Apenas o texto:

“Cuidado com o que você procura…”

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