Capítulo 3

Abri os olhos e olhei para o teto.

Aquela passagem não saía da minha cabeça. Tentei recordar as palavras. 

… “meu coração disparou, minha pele se arrepiou… “

Também queria sentir tudo aquilo. Compreendo porque foi abolido da nossa sociedade, mas… não era justo. 

Não entendia por que esses sentimentos podiam provocar coisas tão ruins no mundo, se existia tanta felicidade associada a eles. 

Recebi uma ligação e olhei para o tela do celular. Era minha colega de faculdade, Adriana. 

- Alô, Adriana.

- Alô, Mel. Como você está? - a voz dela era simpática e leve. Fez-me sentir um pouco melhor. - Estou combinando um almoço hoje com o nosso grupo da faculdade. Você quer vir? 

- Quero sim. Onde vai ser o almoço? 

- Vai ser no restaurante Bloom, perto da sua casa. 

Comecei a me sentir animada. Poderia fazer algo diferente e descontraído, sem pensar nas obrigações que tinha pela frente. 

- A Ana e a Vitória vão?

- Vão sim. Nos encontramos todas, ao meio-dia e meia lá na porta, pode ser? 

- Sim, pode ser. - eu estava precisando conversar com outras pessoas que já me eram familiares. Eu sabia que elas estavam no meio do processo pelo qual eu estava passando , menos Ana. Ela ainda não tinha completado 21 anos. - Te vejo daqui a pouco, então. Beijo.

Eram dez horas. 

Fui tomar café da manhã. 

O Bloom era um restaurante chique e o primeiro da nossa região a ter atendimento totalmente feito por IA. 

Queria ir bem vestida, então fui ver o que tinha no armário. Experimentei várias roupas. Nada parecia bom o suficiente para usar. 

Até que me lembrei de um vestido que era da minha mãe. Ainda estava guardado dentro da caixa. Tirei-o da prateleira e experimentei. 

Era muito bonito, branco e azul. Justo até à cintura e depois caía em roda até os joelhos. Ficava muito bem em mim. 

Não sabia se meu pai iria gostar que eu o usasse, mas era uma ocasião especial. Tinha que viver aqueles momentos antes da grande responsabilidade. 

Cheguei na porta do restaurante. Ana já estava lá esperando. 

- Olá querida, como você está? - cumprimentamo-nos com um beijo na bochecha. - ela estava muito bonita, vestindo um macacão vermelho. Como era loura e pele muito clara, a cor realçava bastante sua beleza. - Você está linda. Seu vestido é incrível. 

- Olá. Obrigada, eu estou bem. Esse vestido era da minha mãe. Acho que ela o usou em apenas uma ocasião. Você também está linda. 

Os olhos dela brilharam, e eu conseguia sentir sua excitação. Estava ansiosa para fazer perguntas às amigas que estavam passando por coisas que ela ainda não conhecia.

- Então, conta para mim como está indo. Já sabe o sexo do bebê? E ele já está em formação? Como é o pai? Como ele se chama? Conta tudo. 

Não queria falar sobre aquele assunto. Aceitei o almoço para deixar de pensar nele e, afinal, lá estava eu, revivendo tudo. 

Tentei contar da melhor maneira que consegui. 

- O pai se chama Renato. Ele é bem parecido, educado e… está cumprindo seu dever. Ainda vamos assistir à junção do nosso DNA na próxima semana. É um menino.

- Só isso? Conta mais coisas. O que você sentiu? Imagino que esteja entusiasmada. Você vai ter um bebê daqui a pouco tempo e vai para sua própria casa. Eu estou ansiosa para fazer meu aniversário e passar por tudo isso. 

Não podia dizer como me senti realmente. 

Minha descoberta era muito solitária. Não tinha com quem falar sobre aquilo. O que eu podia fazer era disfarçar e tentar ser o mais igual possível a todo o mundo. 

- Sim, estou muito feliz. Vou finalmente poder ter meu filho e educá-lo junto com outra pessoa. Vou contribuir para a nossa Humanidade. Isso é algo grandioso! Quero poder observar o desenvolvimento do meu filho. Estou muito curiosa. Você sabia que vão nos dar um aparelho para monitorar todo o crescimento dele dentro do Núcleo Vital? 

- Uau! Mal posso esperar para chegar a minha vez. Eu já sabia. Minha mãe me contou como era. Meu pai me contou que estava ansioso para que eu nascesse, para poder me pegar no colo. Mas só foi assim quando estava acompanhando meu desenvolvimento pela tela. Antes disso, ele estava apenas cumprindo seu dever, como você disse que o Renato está fazendo. 

- Pois é. Talvez tudo mude quando o virmos de verdade. 

Entretanto, chegaram Vitória e Adriana. 

Todas nos cumprimentamos alegremente, felizes por estarmos juntas. Mas fiquei pensando na conversa anterior. 

Para mim, nada ia mudar. 

Eu não queria aquela criança, muito menos criá-la com alguém que nunca poderia conhecer de verdade.

Preferia nunca ter filhos, nem um companheiro de reprodução, se não pudesse sentir nada do que estava descrito naquele diário. 

- Vamos entrar? Reservei a melhor mesa para nós. - Adriana interrompeu meus pensamentos e segurou meu braço. - tenho que mostrar minha bebê para vocês. Eu trouxe o monitor. 

- Mas você não pode andar com isso assim pela rua, pode? - perguntei, sussurrando. 

- Não, mas por vocês eu abro uma exceção… - piscou para nós e entramos. 

Lá dentro estava fresco. O espaço era lindo, com decoração em preto e dourado. Grandes janelas deixavam entrar a luz do sol. 

Sentamo-nos e pegamos o cardápio. 

O cheiro da comida recém-preparada abriu meu apetite assim que comecei a ler o que havia para comer.

Os pratos eram variados. Havia massas, lagosta e outros frutos do mar, assados e grelhados. 

Escolhi lagosta grelhada com manteiga de ervas, em cama de purê de batata trufado, acompanhada por aspargos grelhados e molho cremoso de açafrão e lima. Decidimos beber uma garrafa de vinho para acompanhar. 

Anotamos tudo no dispositivo de pedidos que estava sobre a mesa e esperamos. 

O ambiente entre nós estava delicioso. Rimos e conversamos sobre os tempos da faculdade.

Até que, sem aguentar mais, Adriana se aproximou do canto da mesa e tirou o monitor da bolsa. 

Por baixo da mesa, mostrou-nos a tela. 

No topo estava escrito: 

"Humano em evolução IC - 123126278”. 

Uma luz azul brilhava e, dentro de um invólucro transparente, havia um ser humano, pequenino e frágil, flutuando em um líquido. 

Estava de olhos fechados e, de vez em quando, fazia alguns movimentos. 

Admito que era algo bonito de ver. 

Mas eu não sentia nada. 

Nenhum tipo de emoção. 

Um androide chegou à nossa mesa com um grande tabuleiro com o almoço. Pareceu estar focando Adriana enquanto colocava os pedidos sobre a mesa. 

Ela guardou rapidamente o monitor. 

Quando ele foi embora, rimos muito da situação. 

A comida estava fantástica. 

Sempre que alguma delas entrava naquele assunto, eu tentava desviar a conversa. Funcionou. Passamos o resto da tarde conversando naturalmente sobre peripécias da infância. 

Queríamos pedir outra garrafa de vinho, mas apareceu um aviso no dispositivo: 

Não é recomendável continuar. Os níveis de álcool atingiram o limite estabelecido pelo Ministério da Saúde. Acesso a nova garrafa bloqueado. 

Havia cada vez mais restrições à medida que o tempo passava. 

- Nós bebemos tão pouco. Porque será que não podemos beber mais? - questionou Vitória. 

- Não temos como saber, mas talvez seja porque a maioria de nós já completou 21 anos e vamos ser mães. - respondi, desanimada. 

Adriana ficou chateada com a situação, mas sorriu. 

- Não tem problema. Daqui a pouco terei minha filha e serei muito mais feliz. 

- Tomara que sim. - dei-lhe um abraço e um beijo. 

Levantei-me para ir embora e vi, de relance, no lado do restaurante onde ficavam os homens, Renato com um amigo. 

Ele não me viu, estávamos bem longe um do outro, mas parecia bem descontraído. 

Gostei de vê-lo rir. 

Fazia umas covinhas na bochecha. 

Decidi voltar pela rua principal e parei diante da vitrine de uma loja de roupas. 

Havia um conjunto de saia e casaco muito bonito. Branco, com renda. 

Decidi experimentar. 

Porque não? Eu podia me mimar um pouco. 

O dia estava correndo bem e eu estava de bom humor. Já não me sentia assim, feliz, havia mais de um mês. 

Experimentei meu tamanho e me olhei no espelho. 

A roupa realçava minhas curvas. Ficava muito bem. 

Paguei e saí da loja. 

Cheguei em casa e meu pai estava preparando alguma coisa. 

Pelo cheiro delicioso, parecia ser a especialidade dele: carne assada com batatas no forno. 

- Oi pai. O trabalho correu bem? - dei-lhe um beijo na testa. 

- Oi filha. Foi um pouco cansativo. Hoje todo o sistema da empresa caiu, então passamos metade do dia tentando resolver o problema  e a outra metade adiantando o que ficou atrasado. - quando olhou para mim, seus olhos brilharam. - Você está deslumbrante filha! Nem estou acreditando que finalmente você o vestiu. Fica lindo em você! - vi lágrimas em seus olhos. 

- Obrigada pai. Que bom que gostou e ficou feliz. Seu dia foi muito cansativo. O senhor trabalha demais. Posso fazer uma pergunta? - não tinha certeza se ele iria concordar com a atitude de Adriana, mas decidi contar. 

- Claro que sim, Mel. Estarei sempre aqui para responder a todas elas. 

Meu pai abriu o forno. Virou a carne no tabuleiro e ajeitou as batatas. 

Depois, parou encostado no balcão da cozinha para me ouvir atentamente. 

- O que você sentiu quando me viu no monitor pela primeira vez? 

- Senti orgulho daquele ser que era uma multiplicação dos meus genes. Estava ansioso para poder te ensinar tudo o que sei. E sua mãe estava muito feliz. 

- Eu vi o monitor da Adriana hoje. Ela mostrou para nós no Bloom, onde fomos almoçar. 

Meu pai ficou preocupado. Seu rosto ficou pálido. 

- Ela levou o monitor para mostrar para outras pessoas? Isso é proibido! - começou a falar cada vez mais baixo. Tive que me esforçar para ouvi-lo. - ainda mais naquele restaurante, que é totalmente controlado por IA. O que ela tinha na cabeça? 

- Sim. Eu disse que ela não deveria ter feito isso. O que pode acontecer com ela se descobrirem que infringiu uma regra? 

- Alguém viu? 

- Acho que, quando o androide foi levar os pedidos à mesa, ele focou nela. Pode ter sido só impressão minha. 

- Meu Deus! Ela vai ter problemas. Não vá mais encontrar com ela, Mel, por favor. Prometa! - ele agarrou meus ombros com força e me abraçou. 

- Prometo que não vou. 

Jantamos em silêncio. 

Meu pai estava seriamente preocupado, o que me levou a desconfiar de que ele sabia mais do que tinha me contado. 

O jantar estava realmente muito saboroso. 

Arrumamos a cozinha e fui me deitar. 

Pensei no quanto meu pai tinha ficado assustado quando contei o que minha amiga havia feito. 

Será que a punição era assim tão rígida? 

Cansada, adormeci num instante. 

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App