Capítulo 2

Já passava das seis da tarde quando saí para a rua.

Aquele dia estava sendo muito difícil para mim. Só queria chegar em casa e dormir. 

Sabia que meu meu pai ia me fazer perguntas. Não estava com vontade de falar mais sobre aquele assunto.

O dia estava bonito. Senti calor e pensei que um sorvete era exatamente o que precisava. Havia uma sorveteria perto de casa. Decidi cortar caminho e ir até lá. 

Sentei-me em uma mesa do lado de fora, e a atendente se aproximou.

- Boa tarde. O que vai desejar? - perguntou, simpática segurando um tablet nas mãos. 

- Boa tarde. Quero uma taça de sorvete com dois sabores e calda de chocolate por cima. 

- Sim. E quais são os sabores?

- Stracciatella e cheesecake. 

- Com certeza. Quer Chantilly? 

- Pode ser. 

- Em dois minutos estará pronto. 

Ela registrou o pedido no tablet, e vi a máquina lá dentro preparando o doce. Pouco depois, a atendente trouxe a taça na bandeja. Era perfeito, como tudo o que saía daquelas máquinas. 

Ainda bem que o gelado não derretia. Comi devagar, saboreando cada colherada. 

Renovada pelo açúcar, fui para casa. Meu pai não estava lá, e suspirei aliviada. Tomei um banho e pedi à IA, Gaya, para colocar uma música relaxante de jazz.

Meu pai chegou em casa e me chamou.

- Olá pai. Como você está? - dei-lhe um beijo e me sentei no sofá, esperando pelas perguntas.

- Olá, filha. Estou bem. Fui tomar um café com o Fernando. Como foi? 

Por alguns instantes, tive a sensação de que ele estava com a voz triste. Não sabia bem porquê e até estranhei.

- Fez bem. Correu tudo bem. Amanhã já vai começar o processo. Acredita?

- Já amanhã? Mais cedo que o normal. Deve ser por causa das pessoas que morreram esse ano. Qual o nome do seu parceiro de Reprodução? 

- Sim. Foi exatamente essa a informação que nos deram. Ele se chama Renato. 

- Muito bem. Então você precisa descansar cedo para estar bem amanhã. A partir de agora, tudo será diferente.

- Eu sei pai. - sorri e fui dar-lhe um beijo de boa noite.

Entrei no quarto sentindo que precisava cumprir meu dever.

Olhei na direção do armário e pensei em pegar aquilo que fazia com que eu me sentisse um pouco melhor. Mudei de ideia. Meu pai ainda estava acordado, e não valia a pena correr aquele risco.

Deitei-me na cama e tentei dormir. 

Virei de um lado para o outro. As horas passavam, e os pensamentos vinham em catadupa. 

Só por volta das quatro da manhã consegui adormecer, vencida pelo cansaço.

Na manhã seguinte, me custou muito abrir os olhos, mas tinha que ser. Arrastei-me para fora da  cama. Fui me arrumar. Olhei meu reflexo no espelho e tinha olheiras enormes.

Passava pouco das sete e meia quando saí de casa. 

Meu pai ainda dormia. Tentei não fazer barulho para não acordá-lo.

O tempo estava nublado, parecia que ia chover.

Eu estava tão nervosa. 

Cheguei ao Instituto e entrei pela grande porta de vidro.

Havia pouca gente lá dentro. 

O cheiro de limpeza e o ambiente luxuoso contrastavam com a função daquele lugar.

Olhei ao meu redor e não havia sinais de Renato. 

Sentei-me em uma cadeira almofadada, esperando. Era confortável.

Não se passaram nem dez minutos quando uma garota com uma postura leve e jovem, veio na minha direção. 

- Olá, bom dia. É a Mel Medrado? - perguntou, apertando gentilmente minha mão.

 - Sou sim. 

- Prazer. Sou a Técnica de Reprodução, Daniele Matias. Então, pode me acompanhar. Seu companheiro de Reprodução Humana já está fazendo o exame.

Seguia-a por um corredor comprido e branco. Subimos um lance de escadas e viramos à esquerda.

- Pode se despir e vestir isto. - ela me entregou uma espécie de vestido largo e descartável, na cor azul. 

Até aquilo que era feito para ser descartado tinha qualidade e era bonito. 

- Muito obrigada. Vou me trocar agora. 

- Quando estiver vestida, dirija-se aquela porta lá no fundo, entre na máquina e feche a porta. Ela fará o resto.

Deixou-me sozinha. 

Dobrei minhas roupas e entrei na sala. A máquina era realmente grande. Já tinha utilizado outras, mas aquela era muito maior, com várias luzes piscando.

Segui as instruções da moça. Assim que fechei a porta, a IA falou:

- Controlo de saúde iniciado

Feixes de luz invadiram a parte interna da cabine, e todo o meu corpo foi escrutinado por eles.

- Controlo de saúde concluído

Daniele entrou sorrindo. 

- Sua saúde está ótima. Tudo dentro dos níveis normais. Seu tipo sanguíneo é raro. - fez uma pausa e, como não respondi, continuou: - Agora vamos passar para a fase de coleta de DNA. Não sei se sabe como funciona, mas garanto que não dói.

Dito isso, carregou em alguns botões e foi embora.

- Coleta de amostra de DNA iniciada

Novas luzes começaram a piscar, diferentes das anteriores. Senti algo metálico, pontiagudo e  frio, encostado nas minhas costas. Começou a aquecer, assim que entrou em contacto com a minha pele. 

Fiquei com medo, admito. Acho que prendi a respiração durante todo o tempo. 

Senti uma forte vibração, até que tudo parou.

- Coleta de amostra de DNA concluída 

Depois desse processo, vesti-me e segui a técnica até uma sala toda branca, com uma mesa, uma cadeira para o médico, mais duas cadeiras e várias máquinas. Renato, estava sentado em uma delas. Quando me viu entrar, levantou-se. 

- Bom dia. Como está? - cumprimentou educadamente, com um aceno de cabeça. 

- Bom dia. Bem, obrigada. E você? - devolvi o cumprimento e me sentei na cadeira ao lado dele. 

- Estou bem sim. Obrigado. 

Como não acrescentou mais nada, resolvi fixar o olhar em um cartaz parecido com o que tinha visto ontem, quando fui assinar contrato. 

Esse era igual, mas tinha outro slogan: A Emoção é Incerta. A Ciência não. 

Desviei os olhos e me arrependi de ter lido. Como podia ser tudo isso que diziam? Aquilo que eu sei não é… 

 - Vou deixá-los por um instante. O Doutor Fábio vem em cinco minutos. 

Daniele interrompeu meus pensamentos com a informação e fechou a porta. Renato mexeu-se na cadeira e pousou as mãos no colo.

- Alguma vez tinha visto uma máquina tão grande? - perguntou, sem olhar para mim. 

- Não. Penso que só existem aqui para esse fim. Eu me assustei um pouco com a coleta de DNA. 

- Eu também. - sorriu e olhou para mim. 

- Sabe o que vai acontecer agora? 

- Sei que vão nos dar um dispositivo para acompanharmos o bebê. Para podermos vê-lo se desenvolver. Dizem que, dessa forma, os pais criam empatia por ele. Mas não sei mais nada. 

- E o sexo do bebé, quando vamos saber? 

- Acho que vão nos dizer agora, para podermos escolher um nome. 

O Doutor entrou. Era jovem, tinha por volta de 25 anos. 

- Boa tarde Mel e Renato. Meu nome é Fábio Oliveira e sou o médico que vai acompanhar vocês durante esse processo. Os exames de vocês estão bons e as amostras de DNA estão em perfeitas condições para avançarmos. O bebê de vocês será do sexo masculino. Na próxima consulta, vocês irão acompanhar a junção das amostras que dará origem à criança. Será entregue a cada um de vocês um monitor para poderem acompanhar de perto toda a evolução do bebê dentro do Núcleo Vital. Alguma dúvida? 

- Quando será a próxima consulta? - questionou Renato. 

- Daniele vai marcar agora com vocês. Mas, provavelmente, daqui a uma semana. Mais alguma coisa? 

- Sim, Doutor. Quando precisamos ter o nome do menino escolhido? - perguntei, ansiosa. 

- Pouco antes de ele nascer. Mas no monitor que vocês receberão terão todas as informações. Boa tarde e até à próxima. - sorriu e saiu. 

- De que nomes você gosta? Eu gosto de João, Ricardo, Rodrigo…

Eu queria um nome forte para o meu filho e que tivesse alguma coisa a ver com minha mãe, então arrisquei. 

- Pode ser um nome diferente? Minha mãe se chamava Valença e, como ela já não está entre nós, eu gostaria de chamá-lo de Valen, em memória dela. 

- Valen… - ele avaliou o nome durante algum tempo. - Claro compreendo, acho que pode ser Valen. Mas podemos pensar melhor sobre isso? Ainda temos algum tempo. 

- É verdade. Decidimos depois, então. Obrigada. 

Daniele entrou e marcamos a consulta para exatamente dali a uma semana. Ela nos acompanhou até a porta e me despedi de Renato. 

Quando cheguei em casa, só conseguia pensar em uma coisa: tomar um banho relaxante depois de todas as emoções fortes daquele dia. Meu pai ainda estava trabalhando. 

Então, abri a torneira e deixei a banheira encher. Coloquei meus sais de banho favoritos de lavanda e pedi a Gaya para colocar sons da natureza. Deitei-me na água quente e fechei os olhos por um instante. 

Acordei com a voz de meu pai me chamando. 

Nem percebi que tinha adormecido. 

Vesti-me e fui encontrá-lo. 

- Olá filha. Como você está?

- Pai, porque você não me contou como funcionavam esses processos?

- Bom, porque, desde que sua mãe… Desde aquela época, você nunca mais quis saber desse assunto. 

- Eu gostava da ideia de ter um filho… 

Meu pai parou de lavar a louça e olhou para mim atentamente. 

- E por que você não gosta mais? 

- Ainda gosto. - tentei disfarçar. Fiquei vermelha e comecei a sentir as mãos suadas. 

- Você não mudou de ideia por medo de ter perdido sua mãe, não é? 

- Não, pai. - as lágrimas já ameaçavam cair. - Estou cansada, vou me deitar. Até amanhã. Boa noite. 

Dei um beijo de boa noite no meu pai e fui para meu quarto.

Esperei um pouco, atualizei minha rede social e ouvi meu pai fechar a porta do quarto e se deitar. 

Então, fui até meu armário e o tirei para fora. 

Era um pouco pesado. Tinha um aspecto antigo, com as pontas dobradas. 

Sentei-me na cama e li uma passagem: 

Setembro, 2010

“Querido Diário! 

Hoje fui à praia e ele estava lá. 

Quando encostou a mão dele na minha por baixo da areia da praia, meu coração disparou e minha pele se arrepiou. 

Meu Deus, a felicidade vem de coisas tão simples! 

Se o mundo terminasse hoje, eu morreria feliz. 

Talvez ainda não seja o momento de ele saber a verdade. 

Talvez eu conte amanhã… “

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