Capítulo 4

Essa semana passou voando. Ainda estive com minhas amigas por mais dois dias. Não devia ter desobedecido a meu pai, mas não via problema algum em estar com Adriana. 

Estava novamente na porta do Instituto. Respirei fundo e entrei. 

Daniele estava se despedindo de outra mulher. Quando me viu, sorriu e veio até mim. 

- Bom dia. Pode me acompanhar. Preparada para o início da formação do seu filho?

- Sim, estou muito ansiosa. - menti. 

- Que bom. Renato ainda não chegou. Parece estar um pouco atrasado. - ela fez uma expressão de desagrado. 

- Vai chegar muito depois da hora? 

- Ele não deu nenhuma justificativa, mas ainda não chegou. 

Paramos diante de uma porta de vidro. 

- Pode entrar. É só aguardar. 

- Obrigada. - sorri e entrei. Ela ficou esperando do lado de fora. 

A sala era menor do que a outra onde estivemos com o Doutor. Era mais fria e tinha apenas duas poltronas e uma mesa pequena com alguns doces. 

Questionei-me quanto tempo demoraria e porque ele estava atrasado. Ainda mais, nem havia avisado ninguém. O que será que tinha acontecido?

Olhei para o relógio e já haviam se  passado quinze minutos da hora marcada. Isso era ruim. A sociedade não tolerava atrasos, muito menos em uma situação como aquela.

Mais trinta minutos passaram. Comi um doce. A ansiedade estava tomando conta de mim. 

Então, Renato entrou pelo outro lado. Tinha os olhos vermelhos e inchados. Já havia passado uma hora do horário previsto. 

- Bom dia. Como está você? - cumprimentou-me apertando minha mão.

- Bom dia. Bem, obrigada. E você? 

- Peço desculpas por fazer você esperar…

Pareceu que ia continuar, mas não disse mais nada. 

Silêncio total. 

Também não insisti. 

O Doutor Fábio entrou. Estava menos simpático do que da última vez. Cumprimentou-nos e disse que podíamos entrar pela porta por onde ele havia aparecido. 

Renato fez sinal para que eu passasse, e entrei primeiro. 

Uau! 

O que eu estava vendo era grandioso! Uma máquina transparente, enorme, com braços de metal. Nunca tinha visto nada parecido. Tinha vários feixes de luz e uma grande tela. 

Entramos em um cubículo que tinha um vidro, para podermos assistir ao grande acontecimento. Havia várias pessoas perto da máquina, confirmando se estava tudo funcionando corretamente.

Entraram dois técnicos, cada um segurando uma caixa metálica selada. O Doutor abriu uma delas, colocou-a de um lado da máquina e fez o mesmo com a outra, do outro lado. Em seguida, fez um sinal, indicando que daria início à junção. 

Um dos técnicos foi até à tela da máquina e iniciou o processo. 

- Reprodução Humana Iniciada

A voz da IA me sobressaltou um pouco. Vi pelo canto do olho que Renato olhou para mim, confirmando se eu estava bem. 

Os braços da máquina começaram a se mover. O braço do lado esquerdo agarrou o recipiente que estava dentro da caixa da direita e despejou seu conteúdo dentro de uma espécie de bacia transparente: o Núcleo Vital, com um fluído viscoso. 

O braço do lado direito repetiu o processo com o recipiente da caixa do lado esquerdo. 

Nossas amostras de medula já estavam dentro do invólucro, que entretanto, se fechou. 

De repente várias células começaram a se multiplicar. Pareciam pequenas bolinhas, todas unidas. 

Nós acompanhávamos tudo por uma tela dentro do cubículo, pois, de onde estávamos seria impossível enxergar diretamente. 

Cada vez mais rápido, novas células se formavam. 

Até que começaram a tomar a forma de um ser humano em miniatura. 

Eu não sabia o que estava sentindo, mas era alguma coisa dentro do meu peito. Nunca tinha visto nada parecido, isso sem dúvida. 

- O que você acha? - Renato cortou o silêncio, sem olhar para mim. 

- Nem sei descrever o que estou vendo. É incrível. - levantei-me e me aproximei mais da tela. 

- Como é que duas simples amostras conseguem fazer tudo isso? 

- É o milagre da natureza. Misturado com o poder da tecnologia, claro. 

- Antes, os bebês eram formados dentro das mulheres, sabia? Tão estranho não é? Como seria isso? - notei um certo entusiasmo em sua voz. 

- Não sei se é boa ideia estarmos falando desse assunto aqui, não é? 

Renato pareceu esquecer-se por momentos de onde estava. Logo se recompôs. 

Mesmo assim, já havia conseguido um vislumbre de algo além daquela pessoa contida e correta, defensora de cumprir todas as leis e regras da melhor forma possível. 

Até chegou atrasado e tudo. 

Eu estava quase perguntando porque havia chegado depois da hora quando fomos interrompidos. 

- Podem me acompanhar até a sala onde estavam, por favor. - a técnica Daniele fez sinal para que a seguissemos. - O que acharam? Gostaram da experiência? 

- Gostamos, sim. Foi incrível! - os olhos dele brilhavam. 

- Foi algo inesquecível, sem dúvida. - dessa vez, eu estava sendo sincera. 

Queria perguntar a Renato porque é que ele havia chegado atrasado. Estava curiosa demais. Não sabia se ele iria querer me contar. 

Quando ficamos um pouco sozinhos na sala, esperando, tentei a minha sorte. 

- Espero que não tenha sido nada de grave o seu atraso de hoje. - reparei que ele ficou um pouco desconfortável

- Bom, já está tudo resolvido. - tentou claramente fugir do assunto. 

- Se precisar falar sobre isso, eu não me importo de ouvir.

Ele pareceu hesitante.

- Sabe… não devemos compartilhar coisas íntimas com nosso parceiro de reprodução. 

- Eu sei. Mas que mal pode haver em contar o que aconteceu? Eu acho que até merecia uma justificativa. 

- Mas são regras, e as regras são para serem cumpridas! - ele tinha os punhos cerrados. Começou outra vez a ficar com os olhos vermelhos. 

- Como quiser. 

Ele relaxou as mãos, suspirou e disse:

- É o meu pai… 

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