Capítulo 5

Fiquei surpresa por ele ter falado. 

- Oh! O que aconteceu com seu pai? 

- Ele passou mal essa manhã, antes de eu sair de casa. Eu o ajudei, por isso cheguei atrasado. 

- Entendo. Mas como ele está? 

- Está estável. Está internado no hospital. Assim que eu sair daqui, vou vê-lo. 

- Que bom. Então foi um grande susto. 

- Foi sim. - ele olhou para o chão, tentando esconder sua emoção. 

- Você já sabe o que ele teve? 

- Sim. Ele teve um ataque cardíaco. 

- Meu deus! - tapei a boca com a mão. - Ele teve muita sorte. Ainda bem que você estava presente. 

- É verdade. Imagine se eu já tivesse saído. Nem quero pensar nisso. - ele balançou a cabeça, como se tentasse afastar aquela ideia. 

- Não pense nisso agora. O importante é que ele vai se recuperar. 

- Deus te ouça! 

- Vai sim. Desejo melhoras para ele. 

- Obrigado… - ele ficou pensativo por alguns segundos. - Mel, nós nunca tivemos essa conversa!

- Certo. Claro que não. Obrigada por ter confiado em mim. 

Ele não falou mais. Ficou olhando para a parede, refletindo sobre nossa conversa. Provavelmente também estava com medo. Falar daquela maneira com alguém do sexo oposto, sem ser os pais, era proibido. 

O Doutor Fábio entrou com dois monitores nas mãos, já conectados ao nosso filho, e nos entregou um para cada um. 

Olhei para a tela e vi o mesmo que tinha visto no monitor de Adriana. A diferença é que o meu ainda era muito pequeno, quase do tamanho de uma formiga. 

- Este é o dispositivo de acompanhamento do desenvolvimento. É proibido mostrá-lo a outras pessoas que não sejam os pais. Em caso de descumprimento, serão aplicadas medidas sancionatórias. Aqui no menu, vocês podem escolher ver seu filho de vários ângulos. Também há várias cores para trocar a iluminação, de acordo com a preferência de vocês. Há instruções sobre quando deverão escolher o nome dele, como ocorrerá o nascimento, e quanto tempo falta. Todas as explicações sobre o desenvolvimento dele também estão disponíveis. Alguma pergunta? 

Respondemos que não tínhamos nenhuma dúvida e nos despedimos. 

Fiquei pensando no momento que tive com Renato. Ele realmente tinha me contado tudo. Eu não esperava por isso. A preocupação estava estampada em seu rosto. 

Nem acreditava que já tinha meu filho naquela tela, dentro da minha bolsa. 

Foi tudo tão rápido! 

Desci a rua em direção a casa. Quase corri para ler um pouco do diário. Como meu pai ainda estava trabalhando, poderia ficar à vontade. 

Entrei em casa e fui rapidamente até o armário. 

Ali estava.

Queria me perder naquele mundo novamente. 

Março, 2012

“Querido Diário! 

No meu peito não cabe tanta felicidade! Nem sei como aguentar até mais tarde para contar a Joaquim a novidade. 

Estou esperando nosso primeiro filho! Ele vai ficar tão radiante. 

Mal posso esperar para compartilharmos esse amor imenso. Nós nos mudamos para uma casinha perto da praia. Ironicamente, moramos perto de onde nos conhecemos. 

Mas estou um pouco apreensiva com uma coisa. Existem muitos desentendimentos entre os países. Se houver uma terceira guerra, não sei se vamos sobreviver. Já existem bombas nucleares. Se isso acontecer, o mundo pode acabar. 

Neste momento, não vou pensar nisso. Com certeza, tudo vai se resolver e não vamos chegar a esse ponto. 

Depois conto como foi a reação dele. “

Fechei o diário e fiquei pensando no que tinha acabado de ler. Mal sabia Renato que eu já tinha toda a informação de que, antigamente, os filhos se desenvolviam no ventre das mães. 

Eu gostaria de viver isso, principalmente com amor. 

Como seria amar alguém? 

Resolvi preparar o jantar. 

Massa à bolonhesa. Eu sabia que meu pai adorava.

Queria fazer algo por ele. Dali a três meses, eu iria para minha casa com meu filho e Renato.

Meu pai, Davi, entrou com um ar cansado.

- Oi papai. Você está cansado não está? - fui lhe dar um beijo.

- Oi, minha filha. Estou sim. Foi um longo dia. Tivemos muito trabalho. Cheira muito bem! - ele olhou para mim com curiosidade. - Você vai me mostrar meu neto?

- Vem sentar aqui à mesa. O jantar está quase pronto. Eu vou mostrar, claro, depois que comermos.

Eu não tinha mais olhado para o monitor desde que tinha saído do instituto.

- Quero muito ver. Não me deixe na curiosidade, por favor!

- Está bom. Então, senta aqui que eu vou buscar.

Fui buscar o equipamento e pus a tela na frente dele.

Ele arregalou os olhos.

- Meu neto! - seus olhos se encheram de lágrimas. - eu estava com saudades de ver esse milagre.

- Seu neto está crescendo. - não consegui dizer mais do que isso.

Olhei para a tela e vi o pequeno. Ainda nem tinha nome. 

- Como faço agora para decidir o nome com o pai dele?

- Tem uma opção aqui para vocês entrarem em  contacto pelo monitor e decidirem como vão chamá-lo.

Ele tocou na tela e apareceram várias opções no menu. Abriu uma espécie de chat.

- Vocês só podem conversar aqui sobre o nome da criança. - alertou.

- Claro. Que outra conversa poderíamos ter?

Não contei que Renato tinha me falado sobre seu pai.

- Aqui vocês também têm informações sobre o desenvolvimento dele e sobre quando ele vai nascer.

- Obrigada, pai. Agora vamos jantar?

Ele assentiu e coloquei o monitor sobre a mesa.

Jantamos em paz e o ajudei a lavar a louça.

Quando estava no meu quarto, decidi olhar mais uma vez para o aparelho. Meu filho, ainda muito pequeno, estava flutuando serenamente no líquido.

Senti algo… 

Mas eu não queria.

Decidi guardá-lo na minha gaveta.

Ia tirar o diário, mas, pela primeira vez, não o fiz.

Em vez disso, tirei a tela da gaveta e adormeci olhando para ela…

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