Mundo de ficçãoIniciar sessãoEm um mundo onde o amor é proibido e a reprodução humana é controlada pela Inteligência Artificial, Mel Medrado é obrigada a gerar um filho com um homem que não conhece. Mas existe um segredo que faz com que ela não aceite as regras. Entre mistérios, rebeldia e um amor proibido, Mel descobrirá que algumas verdades podem ser perigosas demais. Em uma sociedade construída para controlar sentimentos, até onde uma mulher será capaz de ir para descobrir a verdade?
Ler maisSabia que esse dia chegaria. Isso nunca o tornou mais fácil.
As cadeiras da sala de espera estavam ocupadas por mulheres, cujos olhos brilhavam como se estivessem prestes a realizar o maior sonho de suas vidas. Olhei ao meu redor. Os sorrisos eram contagiantes. Algumas mulheres trocavam olhares cúmplices, outras não conseguiam ficar paradas na cadeira. A ansiedade parecia ocupar cada canto daquela sala. Perguntava-me se existia alguém que odiasse essa lei tanto quanto eu, mas, pelo que observava, era a única.
Acomodei-me melhor na cadeira e soltei um suspiro. Apertei minhas mãos trêmulas e suadas, uma contra a outra, enquanto esperava a minha vez.
Não me saía da cabeça que, dali a alguns meses, minha vida deixaria de me pertencer. Olhei para a porta, quando uma enfermeira sorridente apareceu chamando uma das mulheres sentadas ao meu lado. Ela se levantou de um salto, como se a cadeira tivesse molas. Vi a porta se fechando atrás dela.
Lá dentro, ninguém ia me perguntar o que eu queria. Aos vinte e um anos, passamos a ter apenas uma função.
-Olá! Então, animada? - perguntou uma garota loira que tinha acabado de se sentar ao meu lado.
Ela era bonita. Tinha olhos azuis, sardas e o nariz arrebitado. Usava o cabelo preso em um coque, mas dava para perceber que era muito comprido.
Olhei para ela e forcei um sorriso. Não estava com vontade de explicar por que eu não estava feliz como as outras pessoas naquela sala. Antes que eu pudesse responder, ela estendeu a mão para me cumprimentar.
- Prazer em conhecer você. Sou a Lara. - Estendi a mão e me apresentei.
- O prazer é meu. Sou a Mel, e a melhor palavra para definir o que estou sentindo é… nervosismo.
- É normal. Eu também entendo esse nervosismo.
Ela riu e me olhou atentamente. Seus olhos azuis eram intensos. Senti que ela parecia enxergar a minha alma. Ficou em silêncio por alguns instantes.
- Estou tão ansiosa. Esperei por esse dia durante tanto tempo. Acho que é o dia mais feliz da vida de uma mulher.
Só balancei a cabeça. Foi o máximo que consegui fazer.
Antes que ela começasse a fazer perguntas, levantei e disse que ia ao banheiro.
Segui pelo corredor. Vi um cartaz na parede com a imagem de um casal sorrindo com um bebê no colo. Eles não olhavam um para o outro. Olhavam para a criança.
O slogan dizia:
O FUTURO DA HUMANIDADE COMEÇA COM CADA NASCIMENTO.Tive vontade de arrancá-lo da parede branca impecável e rasgá-lo em mil pedaços, mas continuei andando.
Entrei no banheiro e molhei o rosto. O ambiente era amplo, com pias reluzentes, grandes espelhos e uma funcionária sorridente na entrada, que perguntou se precisava de perfume, desodorante ou sabão líquido.
Agradeci e observei meu reflexo no espelho. Eu não parecia tão mal como me sentia por dentro.
Soltei meus cachos, molhei um pouco o cabelo e o prendi novamente em um rabo de cavalo. As olheiras eram inevitáveis. Afinal, eu não tinha conseguido dormir nada na noite anterior.
De repente, ouvi meu nome pelo alto-falante.
Era a minha vez.
Precisava me apressar e ir até o balcão.
A moça sorriu para mim com dentes perfeitamente brancos.
- Boa tarde, Mel Medrado. Preciso que me dê o dedo indicador da mão esquerda, por favor. É só uma picadinha! - brincou, piscando para mim.
- Boa tarde. Claro. - Como se eu tivesse outra opção.
Eu sorri sem vontade e estendi o dedo na direção dela. Sinceramente, quase não doeu.
Logo em seguida, coloquei o dedo em um pequeno aparelho prateado. Uma luz verde piscou e, poucos segundos depois, a atendente sorriu.
- Tudo certo. Seu cadastro foi validado. Aqui está um papel para limpar o dedo. Falta só assinar aqui, por favor.
- Ela me entregou uma espécie de tablet do tamanho de uma prancheta, acompanhado de uma caneta digital.
- Agora é só aguardar chamarem seu nome. É naquela sala. - informou, apontando para a grande porta branca do outro lado do corredor.
Segui a direção que ela apontava e vi Lara me encarando. Quando nossos olhares se cruzaram, ela sorriu e desviou o olhar.
Cheguei perto da porta. Dessa vez já não consegui me sentar.
Não esperei muito, a porta se abriu e uma mulher saiu de lá com um sorriso radiante no rosto.
Uma técnica chamou meu nome.
Chegou a minha vez. Tudo o que eu queria era fugir. Tentei engolir, mas minha boca estava completamente seca.
- Por aqui. - ela apontou o caminho para que eu seguisse à sua frente.
- Obrigada. Quanto tempo vai demorar?
- Não vai levar muito tempo. Não se preocupe.
Ela sorriu para mim.
- Esse é um dia muito feliz, não é?
- Pois é. - foi a única resposta que consegui dar.
Ninguém podia saber minha verdadeira opinião. Afinal, todas as pessoas concordam com aquilo. Também nunca conheceram outra realidade…
- É aqui. Pode entrar. - ela interrompeu meus pensamentos, ao abrir uma linda porta branca, com maçaneta e detalhes dourados.
Respirei fundo e entrei em uma sala incrivelmente limpa. Lá dentro, o ambiente cheirava a lavanda.
Havia uma mesa grande e quatro cadeiras.
Um homem estava sentado em uma delas.
Ele parecia sereno. Assim que entrei, olhou para mim com curiosidade. Tinha olhos cor de mel.
- Boa tarde. Sou Renato. Prazer em conhecê-la.
Levantou-se e estendeu a mão, cumprimentando-me educadamente.
- Sou Mel. O prazer é meu. - estendi a mão e apertei a dele.- É estranho conhecer alguém assim, não é?
A humanidade inteira já estava acostumada com a felicidade feminina naquele dia específico. Mas eu era diferente de todas aquelas pessoas. Mal ele sabia.
- Sim, bastante. - sorri e me sentei à mesa, de frente para ele.
- Vou deixar vocês sozinhos por um momento. É só aguardar o advogado, ele já vai entrar.
Dito isso, a técnica nos deixou sozinhos.
Senti-me tão desconfortável dividindo o mesmo espaço com aquele estranho, que cruzei os braços, as pernas e me afundei na cadeira.
- Como se sente? - perguntei querendo quebrar o silêncio.
- Bem, um pouco curioso. Apesar de saber o que vai acontecer, confesso que quero ver de perto como funciona todo o processo. - colocou as mãos entrelaçadas sobre a mesa. - Meu pai me contou como foi quando chegou a vez dele. Disse que, depois disso, tudo acaba virando rotina.
Percebi que ele falava de forma ponderada. Parecia escolher cuidadosamente cada palavra antes de dizê-la.
- Minha mãe também me contou algumas coisas. Infelizmente, ela morreu há quatro anos. Moro com o meu pai.
Assim que mencionei minha mãe, senti um aperto no peito. Estranhei estar contando aquilo a um estranho que conhecia havia apenas alguns minutos.
Renato desviou o olhar e o fixou nas próprias mãos por alguns instantes. Percebi o constrangimento em seu rosto.
Não sabia como reagir ao que eu acabara de lhe contar.
Quando pensei que a conversa tinha terminado ali, ele acrescentou:
- Como foi a entrevista? - mudou completamente de assunto e voltou a olhar para mim.
- Foram só algumas perguntas. Nada de mais. E a sua?
- Correu bem. Houve apenas um problema no meu computador e tiveram que me levar para outra sala. Acabou demorando bem mais, claro.
- Pelos vistos, as nossas respostas nos trouxeram até aqui. - mudei de posição na cadeira e descruzei as pernas.
- Sim, é verdade. - ele sorriu de leve e voltou a ficar em silêncio.
Finalmente, o advogado entrou.
Sentou-se entre nós dois e tirou um tablet igual ao que eu tinha usado para assinar minha presença.
- Boa tarde. Eu sou o Dr. Tiago Almeida, IC 041298765. Sou advogado do Ministério da Reprodução Humana, e estarei responsável pela leitura e validação do Contrato de Parceria Parental de vocês.
Cidadã Mel Medrado IC - 045291134. Cidadão Renato Silva IC - 044324567. Confirmam suas identidades?
Nós dois confirmamos em voz alta, um de cada vez, e o advogado continuou.
- Antes de iniciar a leitura, informo que a Inteligência Artificial certificou que ambos cumprem os requisitos previstos na Lei da Reprodução Humana. Apresentam compatibilidade genética e parental dentro dos parâmetros exigidos e incompatibilidade afetiva compatível com os índices legalmente estabelecidos. Em virtude dessa avaliação, foram selecionados para celebrar esse contrato de Parceria Parental.
Naquele momento comecei a sentir vontade de fugir.
- Vou iniciar a leitura das cláusulas:Cláusula primeira
Os Contratantes têm o dever de participar no Programa Nacional da Parceria Parental até ao cumprimento de todas as responsabilidades previstas na lei.
Cláusula segunda
O material genético dos Contratantes será utilizado para a criação de um descendente, através do processo de reprodução assistida por Inteligência Artificial.
Naquela altura, eu já não conseguia mais me concentrar.- Cláusula terceira…. Cláusula quarta… Cláusula quinta…
Como é que iria viver daquela forma depois de tudo o que descobri?
Perdida em meus pensamentos, percebi que o Dr. Tiago havia parado de ler para beber um pouco de água. Tentei me concentrar.
- Cláusula sexta
O sexo da criança será definido pelo Ministério da Reprodução Humana, de acordo com as necessidades da população.
- Cláusula sétima… Cláusula oitava…
Tentava manter o foco mas não estava conseguindo, olhei discretamente para o homem que, supostamente, faria tudo aquilo comigo. Ele estava muito atento e tinha um ar tão natural quanto o de alguém que está na escola aprendendo uma matéria nova.
- Cláusula nona
Após
o nascimento da criança, os Contratantes deverão residir na Unidade Residencial Familiar designada pelo Ministério durante o prazo estabelecido em lei.Cláusula décima
É proibido aos Contratantes desenvolver qualquer relação afetiva entre si. O descumprimento desta Cláusula, será tratado de acordo com a lei da Reprodução Humana.
E lá estava ela, a lei mais importante da nossa sociedade.
Naquele momento, já não havia mais como escapar.
O Dr. Tiago leu mais algumas cláusulas, mas eu já não ouvi nenhuma delas.
Agora era hora de assinar.
Minha mão tremia e acho que Renato percebeu, mas não demonstrou qualquer reação. De qualquer forma, também não podíamos ter qualquer aproximação.
Devíamos nos limitar apenas ao contacto necessário por causa da criança.
Fui a primeira. Em seguida, passei a caneta digital para Renato. O que mais me incomodava era o som metálico que o tablet emitia para confirmar cada assinatura.
Assim que ele terminou, ouviu-se a voz da IA, fria e completamente sem emoção, ecoando do tablet:
Processo de Reprodução Humana iniciado
Senti um frio tomar conta de mim, mas pelo menos ainda teria algum tempo para me recompor e ganhar coragem antes de todo aquele pesadelo realmente começar.
O advogado permaneceu em silêncio, mexendo no tablet por tempo suficiente para que eu alimentasse a esperança de que houvesse alguma coisa errada.
Então, olhou para nós e sorriu discretamente.
- Os procedimentos começarão amanhã pela manhã. Vocês deverão se apresentar às oito horas no Instituto de Reprodução Humana.
Amanhã….
Não podia ser possível.
As outras pessoas começaram apenas um mês depois da assinatura. Porque nós éramos diferentes?
Minha cabeça latejava, e ele continuava falando.
- Como é de conhecimento público, nesse ano morreram mais pessoas do que o previsto. Por esse motivo, tivemos de acelerar os processos. Daqui a três meses, vocês já terão seu filho.
Três meses!
Em pouco tempo, eu teria um ser sob minha responsabilidade, ao lado de uma pessoa que não conhecia e que nunca poderia conhecer de verdade.
Nossa IA estava, pelos vistos, evoluindo cada vez mais. Qualquer dia fará bebês em apenas um dia…
Perdida em meus pensamentos, ouvi alguém pigarrear e percebi que era comigo.
- Estão liberados. Podem sair. Boa tarde.
Levantei com dificuldade. As pernas tremiam. Era muito difícil me manter de pé.
- Até amanhã, então. Boa tarde. - despediu-se Renato, fazendo um leve aceno com a cabeça.
- Boa tarde. Até amanhã. - respondi com aceno, dirigindo-me à minha porta de saída, enquanto ele seguia para a dele.
Lara já não estava na sala de espera.
Eu só conseguia pensar que, a partir daquele momento, toda a minha vida iria mudar.
Amanhã….
Estava tomando café da manhã, quando recebi uma mensagem de Ana. Pedia para que eu ligasse para ela. Achei estranho, então fiz a chamada. - Alô amiga. Podemos nos encontrar? Preciso falar com você. - Alô! Claro, mas você está bem? - Estou sim. Falamos quando estivermos juntas. Pode ser agora? - Estou terminando meu café da manhã. Depois vou me vestir e vou encontrar você. - Estou esperando no Café Azul, na esquina da minha rua. - Eu vou até aí. Até já. O que será que estava acontecendo? Estranhei o encontro tão repentino. Me apressei o máximo que consegui e saí para encontrá-la. - Oi. - dei um beijo na testa dela. - Como você está? - Oi. Na verdade, estou um pouco preocupada. - ela baixou bastante o tom de voz. - O que aconteceu? - senti-me imediatamente alarmada. - Adriana desapareceu. - olhou para mim. Lágrimas começaram a se formar em seus olhos. - Desapareceu como? - Ela não atendeu o celular durante dois dias, então fui até a casa dela. - A mãe abriu a porta e estav
Fiquei surpresa por ele ter falado. - Oh! O que aconteceu com seu pai? - Ele passou mal essa manhã, antes de eu sair de casa. Eu o ajudei, por isso cheguei atrasado. - Entendo. Mas como ele está? - Está estável. Está internado no hospital. Assim que eu sair daqui, vou vê-lo. - Que bom. Então foi um grande susto. - Foi sim. - ele olhou para o chão, tentando esconder sua emoção. - Você já sabe o que ele teve? - Sim. Ele teve um ataque cardíaco. - Meu deus! - tapei a boca com a mão. - Ele teve muita sorte. Ainda bem que você estava presente. - É verdade. Imagine se eu já tivesse saído. Nem quero pensar nisso. - ele balançou a cabeça, como se tentasse afastar aquela ideia. - Não pense nisso agora. O importante é que ele vai se recuperar. - Deus te ouça! - Vai sim. Desejo melhoras para ele. - Obrigado… - ele ficou pensativo por alguns segundos. - Mel, nós nunca tivemos essa conversa!- Certo. Claro que não. Obrigada por ter confiado em mim. Ele não falou mais. Ficou olhando
Essa semana passou voando. Ainda estive com minhas amigas por mais dois dias. Não devia ter desobedecido a meu pai, mas não via problema algum em estar com Adriana. Estava novamente na porta do Instituto. Respirei fundo e entrei. Daniele estava se despedindo de outra mulher. Quando me viu, sorriu e veio até mim. - Bom dia. Pode me acompanhar. Preparada para o início da formação do seu filho?- Sim, estou muito ansiosa. - menti. - Que bom. Renato ainda não chegou. Parece estar um pouco atrasado. - ela fez uma expressão de desagrado. - Vai chegar muito depois da hora? - Ele não deu nenhuma justificativa, mas ainda não chegou. Paramos diante de uma porta de vidro. - Pode entrar. É só aguardar. - Obrigada. - sorri e entrei. Ela ficou esperando do lado de fora. A sala era menor do que a outra onde estivemos com o Doutor. Era mais fria e tinha apenas duas poltronas e uma mesa pequena com alguns doces. Questionei-me quanto tempo demoraria e porque ele estava atrasado. Ainda mais,
Abri os olhos e olhei para o teto. Aquela passagem não saía da minha cabeça. Tentei recordar as palavras. … “meu coração disparou, minha pele se arrepiou… “Também queria sentir tudo aquilo. Compreendo porque foi abolido da nossa sociedade, mas… não era justo. Não entendia por que esses sentimentos podiam provocar coisas tão ruins no mundo, se existia tanta felicidade associada a eles. Recebi uma ligação e olhei para o tela do celular. Era minha colega de faculdade, Adriana. - Alô, Adriana.- Alô, Mel. Como você está? - a voz dela era simpática e leve. Fez-me sentir um pouco melhor. - Estou combinando um almoço hoje com o nosso grupo da faculdade. Você quer vir? - Quero sim. Onde vai ser o almoço? - Vai ser no restaurante Bloom, perto da sua casa. Comecei a me sentir animada. Poderia fazer algo diferente e descontraído, sem pensar nas obrigações que tinha pela frente. - A Ana e a Vitória vão?- Vão sim. Nos encontramos todas, ao meio-dia e meia lá na porta, pode ser? - Sim,





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