Mundo de ficçãoIniciar sessãoValerius Von Valkis
Mansão Von Valkis, Nova York
—Sua vadia insignificante, quem você pensa que é para encostar a mão em mim? —gritei, a voz ecoando como um trovão pelas paredes do escritório, o controle escapando completamente das minhas mãos diante da humilhação daquele impacto.
Eu mal tive tempo de recuperar o equilíbrio. Antes que a última palavra saísse da minha boca, Thalia moveu-se com uma rapidez furiosa e desferiu outro golpe, a palma da sua mão estalando com força contra o outro lado do meu rosto.
O impacto duplo deixou minhas bochechas ardendo em um tom carmesim. Por dentro, minha natureza rugia. Eu queria esquecer o contrato, esquecer a civilidade e fazê-la pagar pelo sangue que agora brotava no meu lábio. Mas engoli o orgulho a seco. Forcei meus músculos a travarem no lugar, trancando os dentes com tanta força que minha mandíbula estalou. Eu não podia matá-la. Ela era a humana com o sangue compatível, a única chave biológica existente para estancar a destruição das minhas células e acabar com a minha maldição.
Ergui o corpo lentamente, deixando que toda a minha estatura projetasse uma sombra sufocante sobre ela enquanto eu limpava o rastro de sangue do lábio com as costas da mão.
—Você vai se arrepender amargamente de tudo o que acabou de fazer —falei, minha voz saindo em um sussurro denso e gélido que fez o ar do escritório parecer congelar.
Dei um passo à frente, encurralando-a contra a borda da mesa de jacarandá. Antes que ela pudesse esquivar, estendi a mão e segurei a mandíbula dela com força, pressionando meus dedos contra os ossos do seu rosto, forçando-a a encarar o fundo dos meus olhos.
—Escute bem, senhorita D’Avila —aproximei meu rosto do dela, vendo o tremor sutil que começou a tomar conta dos seus ombros —. Você acha que a vida no abrigo foi difícil? Se você não assinar esse contrato agora mesmo, eu garanto que uso o meu nome e o meu poder para acabar com a sua vida ali mesmo, antes de o sol nascer. Ninguém vai procurar por você. Ninguém vai se importar.
O pavor humano legítimo finalmente venceu as barreiras da teimosia dela. Seus olhos escuros se arregalaram, a palidez tomou conta de suas bochechas e eu vi o exato momento em que ela percebeu que eu não estava blefando. Soltei o rosto dela com um empurrão firme e joguei a caneta de metal sobre os papéis dispostos na mesa.
—Assine —ordenei, apontando para a linha em branco.
Thalia respirou fundo, o peito subindo e descendo de forma irregular. Com os dedos trêmulos de puro susto, ela pegou o metal e rabiscou o próprio nome no documento, forçada pela gravidade da minha ameaça. Ela largou a caneta com força e deu dois passos para trás, massageando os pontos vermelhos que meus dedos haviam deixado na sua pele.
Recolhi as folhas, organizando-as dentro da pasta de couro preta com um baque seco, e curvei meus lábios em um sorriso diabólico, saboreando a submissão dela.
—Bem-vinda ao inferno, Thalia —falei, ajeitando o meu paletó com desdém —. Daqui em diante, a sua vida será puro sofrimento por um ano. Você vai aprender o seu lugar.
Eu esperava vê-la desabar, chorar ou manter os olhos fixos no tapete como qualquer um faria após aquela humilhação. Mas Thalia ergueu o queixo devagar. O medo sumiu do seu rosto de forma assustadora, dando lugar a uma expressão calculista e cheia de escárnio. Seus lábios se curvaram e ela me devolveu um sorriso igualmente diabólico, cruzando os braços sem demonstrar um único milímetro de submissão.
—Você acha que me assusta com esse seu terno caro e as suas ameaças de playboy mimado, Von Valkis? —ela deu um passo na minha direção, os olhos semicerrados exalando um veneno puro —. Se você acha que esta mansão vai ser o meu inferno, está muito enganado. Eu serei o próprio demônio desse inferno. E eu vou garantir ser o seu carrasco a cada dia desse ano.
Fiquei estático, observando a audácia daquela mulher enquanto ela sustentava o meu olhar sem piscar. Eu queria retrucar, queria lembrá-la de quem comandava aquele lugar, mas o som de batidas firmes na porta cortou a tensão no ambiente. Gideon colocou a cabeça para dentro do escritório, avaliando a cena com sua habitual neutralidade profissional.
—Senhor Von Valkis, o comitê encerrou o evento. Os convidados já foram embora e os carros estão posicionados —Gideon disse, abrindo espaço para que uma senhora de cabelos grisalhos e postura impecável entrasse —. A senhora Martha está aguardando para conduzir a senhorita D’Avila.
—Ótimo —ajeitei os punhos do meu paletó, recuperando a minha máscara gélida de sempre —. Leve-a. Não quero ver o rosto dela pelo resto da noite.
Thalia deu uma risada anasalada, um som carregado de deboche, antes de se virar de costas para mim e caminhar em direção à porta com os ombros erguidos. Ela não parecia uma prisioneira indo para a sua cela; parecia uma rainha marchando para o seu próprio trono.
Thalia D’Avila
Mansão Von Valkis, Nova York
O som dos meus sapatos velhos batendo contra o piso de mármore ecoava pelos corredores agora vazios da mansão. O burburinho do baile beneficente já havia desaparecido por completo, deixando apenas o silêncio opressor da madrugada. Martha, a governanta que parecia ter saído diretamente de um filme de época sobre a aristocracia europeia, caminhava alguns passos à frente, indicando o caminho com movimentos mecânicos e discretos.
Eu ainda conseguia sentir a pulsação nas minhas mãos. Minha loba interna arranhava o meu peito, furiosa por ter sido contida por tanto tempo, mas o tapa duplo que desferi no rosto de Valerius havia lavado parte da minha alma. Aquele maldito playboy achava que podia usar xingamentos misóginos e me tratar como um pedaço de carne barata sem sofrer as consequências. Ele era um idiota. Um homem gélido, prepotente e acostumado a ter o mundo inteiro implorando por sua atenção.
Mas, querendo ou não, ele acabou me salvando da sarjeta.
—Estes são os seus aposentos particulares, senhorita D’Avila —Martha disse, abrindo duas portas imensas de madeira maciça no final do corredor oeste —. O senhor Von Valkis ordenou que o seu espaço fosse totalmente isolado. Ninguém entrará aqui sem a sua permissão expressa. Se precisar de algo, basta usar o interfone ao lado da cama. Boa noite.
—Obrigada, Martha —respondi, esperando que ela fechasse a porta para finalmente me soltar do personagem que eu vinha sustentando.
Caminhei para o centro do quarto e o meu queixo quase caiu. O espaço era simplesmente gigante, três vezes maior do que o apartamento inteiro onde eu morava com o Thomas. Uma cama king-size com dossel de seda ocupava o centro da parede principal, ladeada por janelas imensas que iam do teto ao chão, oferecendo uma vista panorâmica dos jardins cobertos de névoa e das luzes distantes de Manhattan. Havia um closet que parecia uma loja de grife vazia e um banheiro todo revestido de mármore Carrara com uma banheira que parecia uma piscina.
Joguei-me no colchão macio, cobrindo o rosto com as mãos enquanto deixava o cansaço do último mês finalmente se espalhar pelo meu corpo. O tecido dos lençóis era tão caro que parecia cariciar a minha pele.
Encarando o teto trabalhado em gesso, comecei a analisar o tabuleiro daquele jogo. Eu estava com raiva, o meu orgulho estava ferido, mas eu não era uma mocinha frágil de livro que passaria a noite chorando pelos cantos e lamentando a minha sorte. Eu era uma sobrevivente. A vida tinha me jogado na lama e eu tinha acabado de dar a volta por cima usando a única moeda de troca que eu possuía.
Aquele contrato não era o meu fim; era a minha maior oportunidade.
Se Valerius Von Valkis achava que tinha comprado uma incubadora submissa, ele ia descobrir muito rápido o tamanho do erro que cometeu. Eu só precisava aguentar as arrogâncias dele por doze meses. Um ano de fachada perante os humanos, um ano fingindo ser a esposa perfeita para os holofotes do mundo financeiro, e eu estaria livre.
Mas eu não ia apenas receber o dinheiro e ir embora. Eu ia usufruir de cada centavo daquela fortuna. Ia usar a influência, o nome e os contatos internacionais da dinastia Von Valkis para blindar a minha própria vida. Com dez por cento das ações da empresa dele que já estavam garantidas no meu nome, eu teria poder econômico suficiente para criar uma barreira intransponível contra os caçadores de Vaelenor que continuavam farejando o meu rastro. Eles nunca ousariam tocar na esposa, ou ex-esposa, de um dos homens mais poderosos do planeta sob o risco de expor o mundo sobrenatural para a mídia humana.
Eu ia me matricular em uma faculdade de elite em Nova York, estudar como os humanos de verdade construíam seus impérios e aprender a jogar o jogo corporativo. Valerius achava que eu era insignificante? Ótimo. Que ele continuasse me subestimando. Eu ia usar a estrutura dele para crescer, para criar minhas próprias raízes e, quem sabe no futuro, me tornar ainda mais rica e poderosa do que ele.
Levantei-me da cama e caminhei até o espelho do banheiro. Retirei o avental de garçonete sujo e encarei o meu próprio reflexo. Segurei o amuleto de turmalina negra no meu pescoço, sentindo a vibração protetora da magia da minha mãe. O sofrimento do abrigo tinha acabado ali.
Sorri para mim mesma no espelho, o mesmo sorriso diabólico que havia deixado Valerius sem palavras no escritório. O playboy achava que tinha me mandado para o inferno, mas ele não fazia ideia de que eu pretendia roubar a coroa dele antes de ir embora. A guerra estava declarada, e eu pretendia vencer cada batalha.







