A proposta

Thalia D’Avila

Mansão Von Valkis, Nova York

O chão de concreto do alojamento comunitário no Queens me ensinou mais sobre a podridão do mundo do que qualquer história de terror que minha mãe contava em Vaelenor. Quando a tranca do apartamento em Manhattan foi trocada por falta de pagamento, não houve tempo para recolher dignidade. Minhas poucas mudas de roupas terminaram compactadas em sacos plásticos pretos na calçada, sob o olhar indiferente dos pedestres. No abrigo, o ar fedia a desinfetante barato misturado com o suor de dezenas de corpos amontoados em beliches que rangiam ao menor movimento. Eu dormia com os dedos firmes ao redor da turmalina negra no meu pescoço, sabendo que se alguém tentasse arrancar a única herança que me restava, a magia rastejante sob a minha pele acordaria e eu terminaria dilacerando um humano no meio da noite.

A fome ignora o orgulho. Quando a agência de empregos temporários me ofereceu uma vaga para cobrir o desfalque de um buffet de luxo, não fiz perguntas sobre o endereço ou os contratantes. Eu precisava dos dólares no fim do turno para garantir uma refeição que não viesse de uma lata de doações. Passei duas semanas lavando copos em cozinhas industriais e carregando bandejas pesadas de prata para pessoas que nem sequer me olhavam no rosto. Para aquela gente, eu era apenas parte da mobília funcional. Um uniforme branco com avental engomado que servia champanhe cuja garrafa pagaria seis meses do meu aluguel atrasado.

O problema de se esconder entre os humanos é que você começa a acreditar que eles controlam todas as regras. Eu achava que estava segura sob a camuflagem da miséria. Mas a van do buffet cruzou os portões de ferro fundido daquela propriedade na parte alta da cidade e o meu estômago despencou. O palácio de pedra clara e colunas imponentes exalava um tipo de opulência que parecia insultar a noite escura. Quando entrei pelos fundos e vi o brasão discreto gravado nos lenços de linho e nos talheres de prata, o ar faltou nos meus pulmões. Von Valkis. O nome impresso nos relatórios financeiros queThomas mantinha na mesa da cozinha. O homem da tempestade. O sujeito de sobretudo escuro e olhos de metal que havia desregulada a frequência do meu colar um mês atrás.

Tentei manter a cabeça baixa durante as primeiras horas da recepção. O salão principal estava saturado pelo cheiro de perfumes caros, maquiagens e o odor adocicado de álcool refinado. Sempre que Valerius cruzava o espaço, cercado por acionistas e mulheres de vestidos longos, a turmalina contra o meu peito pulsava. Era um calor incômodo, uma estática que subia pela minha espinha e me fazia segurar a bandeja com mais força para conter o tremor das mãos. Eu tinha certeza de que ele era apenas o topo da cadeia alimentar dos humanos arrogantes, mas a presença dele desorganizava os meus instintos.

Aproveitei o momento em que a atenção dos convidados se voltou para os discursos oficiais e recuei em direção ao corredor de serviço. Abri uma porta lateral de vidro e saí para o jardim de inverno. O ambiente ali era mais frio, dominado pela umidade da terra e pelo aroma de folhagens densas que abafavam o barulho da orquestra. Apoiei as costas contra uma pilastra de sustentação, fechando os olhos para tentar dissipar o cansaço que pesava nas minhas pálpebras.

—O avental esconde a miséria, mas a postura continua defensiva.

Abri os olhos rapidamente, o corpo entrando em estado de alerta. Valerius estava parado a três passos de distância, com as mãos recolhidas nos bolsos da calça de alfaiataria. A luz que passava pela cobertura de vidro cortava as feições dele, destacando a linha rígida da mandíbula e a imobilidade das suas pupilas cinzentas.

—Senhor Von Valkis —falei, limpando a voz e ajustando a barra do avental para recuperar o tom profissional —, eu estava terminando de organizar o descarte das taças da ala leste. Estou retornando para o salão.

Tentei contornar a posição dele, mas Valerius bloqueou o espaço com uma velocidade que me fez parar abruptamente. Quando fiz menção de desviar pelo flanco oposto, ele estendeu a mão direita e fechou os dedos ao redor do meu antebraço. O contato físico desencadeou uma descarga elétrica violenta. Senti o calor subir pela minha pele como uma agulha quente, fazendo a turmalina no meu peito queimar por baixo do tecido da blusa.

—Solte o meu braço —disse, estreitando as pupilas e abandonando o tom submisso de funcionária —, o protocolo da sua festa certamente não inclui o toque forçado nas pessoas que servem a sua mesa.

—Você mantém a audácia mesmo usando sapatos gastos pela umidade do Queens —ele reduziu a pressão dos dedos, mas não se afastou um centímetro sequer. O olhar dele desceu pelo meu rosto, analisando as sombras sob os meus olhos com uma insolência controlada —, passei semanas aguardando o momento em que a sua agência registraria o seu paradeiro, Thalia. Mas parece que o seu orgulho prefere o trabalho braçal por trinta dólares a hora.

—O meu nome é senhorita D’Avila —retruquei, sustentando o olhar dele enquanto dava um passo à frente —, e eu não procuro favores de homens que acreditam que o dinheiro compra a rotação da Terra. Se me der licença, meu horário de serviço não prevê conversas particulares com o proprietário.

Valerius soltou uma risada curta, um som sem nenhuma leveza, visivelmente contrariado pela minha recusa. Ele encurtou a distância entre nós até que eu pudesse perceber o aroma sutil de madeira e o calor fora do comum que emanava da sua pele.

—A sua teimosia raspa o limite da idiotice —ele inclinou o rosto na minha direção, a voz caindo para um registro mais grave —, você tem consciência de quem gerencia as licenças de moradia e os contratos de trabalho nesta cidade?

—Um homem que investe uma fortuna em alfaiataria, mas que demonstra uma incapacidade crônica de entender o significado da palavra não —forcei um sorriso rígido —, o seu intelecto corporativo precisa que eu use termos mais simples ou o conceito de rejeição já está claro?

Os olhos dele mudaram de nuance, o cinza gélido ganhando uma intensidade turva. A arrogância que ele vestia parecia uma armadura, mas a proximidade física estava criando uma perturbação que nenhum de nós dois conseguia camuflar.

—Muito bem —Valerius cruzou os braços sobre o peito, os lábios desenhando uma linha sutil de sarcasmo —, vamos observar quanto tempo essa sua altivez resiste quando eu reportar o sumiço de uma das peças da coleção de relógios da família ao supervisor do buffet.

—O quê? —minhas mãos se fecharam ao lado do corpo, a indignação subindo pela minha garganta.

—Vou informar à gerência que surpreendi você tateando os ornamentos do corredor privado —ele deu de ombros, mantendo a voz em uma calmaria calculada —, em quem você supõe que a polícia vai acreditar? Na funcionária sem registro habitacional fixo ou no homem que financia o distrito? O seu desligamento ocorre antes do término do jantar, e nenhuma outra empresa de serviços vai aceitar a sua ficha no estado de Nova York.

O sangue subiu para a minha cabeça com tanta força que um zumbido agudo tomou conta dos meus ouvidos. A covardia daquela ameaça me causou uma náusea física. A vontade de ignorar o colar, de liberar a força rastejante que Thomas chamava de frieza e arruinar aquele rosto perfeito com as minhas próprias mãos quase me fez perder a razão.

—Você é um miserável —sussurrei, os dentes travados pelo esforço de não rosnar —, eu nunca toquei em nada que não me pertencesse. Eu trabalho para pagar o que consumo.

—A verdade é um detalhe irrelevante para os fatos administrativos, Thalia —ele sorriu, o vinco de satisfação no canto da boca tornando-o ainda mais detestável —, o mercado responde ao poder de coerção. E, neste momento, a sua estabilidade imediata depende da minha boa vontade.

—O que você quer extrair de mim? —perguntei, sentindo o desgaste das últimas noites de sono perdidas desabar sobre os meus ombros. Eu não podia perder o valor daquela diária; a alternativa era o relento de Manhattan.

—Quero que você suba até o meu escritório de apoio. Sem alarde —ele girou o corpo, apontando a direção da passagem interna —, existe uma proposta que você precisa analisar. Se escutar os termos, a conversa com o seu supervisor será cancelada. Se optar pela recusa, pode deixar o avental na portaria e tentar a sorte nas ruas sob o resfriamento da madrugada.

Encarei a linha das costas dele, engolindo o amargor de ser manipulada daquela forma. O ódio que senti por ele foi cirúrgico, fixado em cada detalhe da sua postura e na certeza que ele carregava de que o mundo se dobrava aos seus caprichos. Acompanhei-o pelos corredores secundários, subindo uma escadaria de acesso restrito que terminava na ala mais isolada do andar superior.

Valerius empurrou as portas de um escritório espaçoso, revestido por painéis de madeira escura e com o ar impregnado pelo cheiro de couro e papel antigo. Ele caminhou até a mesa central de jacarandá, pegou uma pasta de couro preta e a soltou sobre a superfície polida com um impacto seco.

—Sente-se —ele determinou, assumindo o assento na cadeira de encosto alto.

—Vou permanecer em pé —fiquei próxima ao batente, mantendo a postura rígida e os braços esticados.

—Como preferir —ele abriu o fichário, exibindo folhas com timbres oficiais da holding —, serei direto, pois meus minutos possuem custo elevado. O documento diante de você estipula as regras para um casamento de conveniência com prazo de validade de doze meses. Durante este período, você exercerá o papel de minha cônjuge em eventos públicos e corporativos. Em contrapartida, haverá a liquidação integral de qualquer pendência financeira em seu nome, a emissão de uma nova documentação legalizada e a transferência imediata de dez por cento das cotas da nossa divisão de biotecnologia.

Fiquei observando o movimento dos lábios dele, processando a insanidade daquelas frases.

—Você está me propondo uma transação matrimonial? —deixei que uma risada seca escapasse —, a sua sanidade se perdeu nos seus laboratórios? Por que um homem com a sua estrutura financeira precisaria recrutar uma esposa em um abrigo público?

Valerius inclinou o tronco para a frente, apoiando os antebraços no jacarandá. O olhar dele manteve-se plano, despido de qualquer empatia, avaliando a minha presença como quem inspeciona um componente industrial.

—Não crie teorias românticas. A minha necessidade não é de uma companheira, é do resultado que a sua estrutura física pode fornecer —ele fez uma pausa pontual, fixando o cinza das pupilas nas minhas —. O contrato exige a consumação e a entrega de um herdeiro legítimo. Você vai conduzir uma gestação. Assim que o descendente nascer, o vínculo será desfeito, você receberá a compensação em espécie e terá os recursos necessários para desaparecer de qualquer radar.

A frieza daquela exigência bateu contra o meu rosto com a força de uma agressão física. Ele estava reduzindo a minha existência a um receptáculo, um utilitário que ele pretendia alugar para garantir a continuidade dos seus negócios familiares.

—Você supõe que o dinheiro compra o controle sobre o meu corpo? —avancei dois passos, a voz oscilando pela fúria comprimida —, você se posiciona atrás dessa mesa e acredita que pode dispor das pessoas como mercadorias descartáveis? Você me causa repulsa, Valerius Von Valkis.

—A repulsa não resolve a sua falta de teto, Thalia —ele rebateu, o tom de voz cortante —, e sejamos práticos: você não possui alternativas viáveis. Amanhã a sua realidade será o abrigo de recolhimento. Estou disponibilizando recursos que você não acumularia em vidas de esforço comum. Gerar esse descendente será a sua única serventia para o mundo, e você deveria manifestar gratidão por eu ter selecionado a sua figura para o processo. É um acordo comercial. Guarde a sua indignação para os seus iguais.

O ar dentro do escritório pareceu congelar, saturado pela tensão que se acumulou entre nós. O magnetismo que antes nos puxava na chuva transformou-se em uma barreira de hostilidade pura. Meu orgulho, o sangue de Vaelenor que eu tentava sufocar todos os dias para parecer inofensiva, rompeu as amarras.

Dei a volta na escrivaninha com passos rápidos, o ódio apagando qualquer vestígio da prudência que minha mãe havia me pedido para manter entre os humanos.

—Seu verme arrogante —falei alto, parando rente à cadeira dele.

Valerius levantou-se com um movimento súbito, a estatura dele pairando sobre mim, os olhos cinzas acesos por um ímpeto selvagem que eu nunca vira em um humano. Antes que eu pudesse desferir o golpe que planejava, ele segurou os meus dois pulsos com uma força desmedida, prensando o meu corpo contra a parede de madeira do escritório. O impacto fez a turmalina no meu peito estalar.

—Você não sabe o perigo que está atraindo, Thalia —ele rosnou, o hálito quente tocando a minha pele, a aura dele expandindo-se de uma forma que esmagou a minha capacidade de defesa.

O magnetismo entre nós explodiu. Valerius colou o corpo ao meu, soltou um dos meus pulsos e cravou a mão livre na minha nuca, puxando a minha cabeça para trás com violência. Antes que eu pudesse formular um xingamento, ele esmagou os seus lábios contra os meus em um beijo agressivo, carregado de uma sede escura e possessiva que não tinha nada de humana. O gosto dele era de perigo e metal. A força da boca dele contra a minha me paralisou por um milésimo de segundo, uma colisão violenta de energias que fez a minha própria natureza de loba responder nas profundezas do meu sangue, reconhecendo o predador que estava diante de mim.

A eletricidade do toque me chocou, mas o choque durou pouco. A humilhação de ser subjugada daquela forma me devolveu a força. Reuni a energia que restava nas minhas pernas, usei o joelho para empurrar o quadril dele e consegui livrar o meu braço direito do aperto.

Arranquei a minha boca da dele com um puxão violento, respirando o ar de forma sôfrega. No segundo seguinte, ergui a mão e desferi um tapa esmagador contra o rosto de Valerius.

O estalo seco do impacto quebrou o silêncio do escritório como um disparo de arma de fogo.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App