Mundo de ficçãoIniciar sessãoValerius Von Valkis
Mansão Von Valkis, Nova York
Uma semana inteira se passou sem que eu pisasse na ala oeste da mansão. Presumi, com a segurança cega de quem está acostumado a ditar os termos de qualquer acordo, que o silêncio que vinha daqueles aposentos fosse o prenúncio da aceitação. Na minha mente, Thalia estava recolhida, digerindo o peso do contrato que havia assinado e tentando se ajustar à nova realidade. O estalo dos dois t***s que ela me deu na noite do baile já havia sumido da minha pele, mas a lembrança da audácia daquela garota ainda causava uma queimação incômoda no fundo da minha mente. O lobo sob a minha pele andava inquieto, irritado pela quebra de protocolo, enquanto a minha metade vampírica exigia a ordem habitual.
Eu estava na sede da Von Valkis Biotech, com os olhos fixos nos gráficos de projeção de mercado do próximo trimestre, quando Alistair bateu à porta. Meu contador-chefe raramente me interrompia sem um motivo sólido. Ele entrou segurando uma pasta de couro preta, a expressão oscilando entre o profissionalismo rígido e uma dúvida compreensível.
—Senhor Von Valkis —ele começou, parando diante da minha mesa de mogno —, peço desculpas pela interrupção direta, mas o sistema de segurança do seu cartão corporativo prioritário disparou três alertas de movimentação incomum nos últimos dias. Como o senhor é o único portador com acesso a essa linha de crédito irrestrita, achei prudente verificar se houve alguma brecha de segurança.
—Brecha? —afastei o teclado e olhei para ele, estreitando os olhos —. O cartão principal está comigo, Alistair. Do que exatamente estamos falando?
—O principal sim, senhor —Alistair abriu a pasta, estendendo um relatório impresso com várias linhas marcadas —. Mas o cartão dependente que o senhor autorizou na manhã seguinte ao baile beneficente entrou em uso contínuo. As transações começaram discretas, mas escalaram rapidamente.
Peguei o papel. Meus olhos correram pelos nomes impressos na folha e senti a mandíbula travar quase instantaneamente. Não eram compras comuns. Chanel, Dior, Hermès, as joalherias mais exclusivas do miolo da Quinta Avenida e duas clínicas de estética integradas com atendimento privado em Manhattan. Os números finais de cada linha eram pesados, acumulando-se com uma rapidez impressionante.
—O montante consolidado até o fechamento desta hora —Alistair ajustou os óculos, medindo o tom de voz — está em trezentos e quarenta e dois mil dólares.
—Não há fraude, Alistair —disse, mantendo a voz o mais estável e fria possível, embora o relatório estivesse quase amassando sob a pressão dos meus dedos —. É uma linha de despesas planejada para a representação da empresa. Pode suspender os alertas no sistema. Eu mesmo cuidarei do gerenciamento desses gastos.
Ele assentiu com um breve aceno de cabeça e se retirou, fechando a porta em silêncio. Assim que fiquei sozinho, joguei o papel sobre a mesa. Trezentos e quarenta e dois mil dólares em menos de uma semana. Aquela garota, que dias atrás estava encolhida em uma calçada fria com os sapatos furados pela chuva, tinha descoberto o alcance do limite do cartão e decidido usar o meu dinheiro como uma arma de retaliação direta. Ela não estava trancada no quarto chorando pelo destino que a forcei a aceitar; ela estava saqueando os meus recursos com uma eficiência cirúrgica.
Deixei o escritório principal antes do horário habitual. O trânsito de Nova York pareceu ainda mais insuportável no trajeto de volta para a mansão. Meu sangue fervia com a audácia dela, uma irritação puramente territorial que me cobrava uma resposta imediata. Ela precisava entender que o acesso ao meu patrimônio exigia submissão, não insolência.
Subi os degraus da entrada principal e marchei direto para os aposentos da ala oeste. Empurrei as portas duplas do quarto de Thalia sem me dar ao trabalho de anunciar minha presença, pronto para o confronto que deveria ter acontecido dias atrás.
O quarto estava mergulhado em um silêncio absoluto. A cama estava arrumada, os lençóis de seda intocados e o ar-condicionado mantinha a temperatura baixa, deixando o ambiente quase gélido. Caminhei a passos largos até o closet e puxei as portas de correr com força, esperando encontrar as prateleiras vazias de antes.
O que vi me fez parar no lugar.
O espaço parecia a curadoria de uma boutique de luxo europeia. Vestidos de alta costura estavam alinhados por tonalidades, transitando suavemente do marfim até os tons mais profundos de azul e preto. Nos nichos inferiores, sapatos de salto alto exibiam o brilho discreto de solados novos. Bolsas de couro legítimo de edições limitadas ocupavam as prateleiras superiores, acompanhadas por casacos de cashmere estruturados de forma impecável.
Fiquei observando aquela disposição por alguns segundos. O choque não veio do valor total gasto, mas sim do subtexto das escolhas dela. Não havia nada espalhafatoso, nada que denunciasse uma reação vulgar de quem acabou de enriquecer. O gosto de Thalia era refinado, minimalista e imponente. Cada peça exalava o peso de uma elegância madura. Era um contraste absurdo com Cassandra, minha ex-namorada, cujo guarda-roupa era uma coleção barulhenta de logotipos e ostentação visual para os fotógrafos. Thalia havia se vestido exatamente como uma legítima integrante da linhagem Von Valkis, sem precisar de conselhos ou de um estilista para guiá-la.
Saí do closet com os pensamentos confusos, a raiva inicial dando lugar a uma desconfiança pesada. Ao descer o corredor em direção à escadaria principal, encontrei a governanta vindo da cozinha.
—Martha —chamei, fazendo a mulher parar e segurar firme a bandeja de prata que carregava —. Onde está a senhorita D’Avila? Ela não está nos aposentos e o carro de apoio continua na garagem.
—Senhor Von Valkis —Martha respondeu, mantendo a expressão calma —. A senhorita Thalia saiu logo ao amanhecer. Ela deixou recomendações muito específicas para a equipe de administração da casa antes de partir.
—Recomendações? Sobre o quê?
—Ela utilizou a nossa agência de turismo parceira para fretar um voo privado até Atenas —a governanta explicou, sem desviar os olhos —. Ela nos informou que a transição para a cidade e os eventos recentes haviam cobrado um preço alto da sua saúde. Mencionou que precisava de uma estada de quinze dias em um resort de repouso na Grécia para estar em plenas condições antes que os compromissos oficiais do casamento fossem anunciados. Ela levou parte das malas novas.
O silêncio que se seguiu no topo da escada foi denso. Senti os músculos do meu pescoço enrijecerem. Quinze dias nas ilhas gregas, usando o meu crédito corporativo para financiar suas férias particulares, enquanto eu lidava com a contagem regressiva da minha própria biologia em Nova York. Ela não apenas aceitou o contrato; ela encontrou uma forma de transformar o acordo em um exílio de luxo bem longe de mim, deixando-me apenas com as faturas para assinar.
—Gideon! —o chamado ecoou pelo hall inferior com o peso da minha irritação, fazendo a madeira da balaustrada vibrar.
O chefe de segurança surgiu no pé da escada em poucos segundos, com a postura alerta de quem já previa o teor da ordem.
—Sim, senhor.
—Quero o jato particular pronto para decolar na próxima hora —disse, descendo os degraus sem pressa, mas com uma rigidez cortante em cada passo —. Entre em contato com a torre, consiga a liberação do plano de voo internacional e localize exatamente em qual resort aquela humana se hospedou.
Gideon apenas assentiu, puxando o rádio de comunicação do cinto.
—O senhor irá pessoalmente até lá?
—Vou —respondi, pegando o sobretudo escuro que estava no cabideiro do hall —. Thalia achou que poderia usar o meu sobrenome para comprar um esconderijo do outro lado do oceano. Ela vai descobrir que cada centavo gasto naquele cartão tem um preço, e eu pretendo cobrar o adiantamento pessoalmente.







