Mundo de ficçãoIniciar sessãoValerius Von Valkis
Mansão Von Valkis, Nova York
O peso da minha própria biologia era um lembrete constante de que eu funcionava com o tempo estritamente cronometrado. Dentro do meu peito, o ritmo cardíaco não seguia um compasso natural; era o resultado de um atrito violento entre duas naturezas que a própria criação considerava impossíveis de coexistirem. O calor abrasador do lobo tensionava meus músculos, exigindo ação e território, enquanto o frio estático da linhagem vampírica cobrava seu tributo na forma de uma sede silenciosa que subia pela minha garganta. Eu carregava o título de único Alfa Híbrido vivo, uma condição que a maioria dos anciãos classificava como uma heresia biológica.
A questão sobre quem havia me gerado ou me abandonado em uma alcova de pedra nunca consumiu meus pensamentos. Fui recolhido por Marcus e Elena Von Valkis quando minhas feições mal haviam se definido, e o respeito que eu nutria por eles era a estrutura mais sólida da minha existência. Eles me blindaram contra a rejeição do mundo, construíram um império farmacêutico para camuflar nossa influência e me ensinaram a governar os negócios humanos com a mesma firmeza com que se lidera uma alcateia. No entanto, o equilíbrio estava desmoronando. A guerra celular que ocorria no meu organismo destruía minha integridade física semana após semana. Os três anéis de obsidiana que eu trazia na mão direita ajudavam a conter a oscilação da minha energia, mas o metal já começava a perder a capacidade de absorver o desgaste.
Um mês completo havia se passado desde aquela noite de tempestade em Manhattan. O breve instante em que encarei aquela garota na calçada de cimento rachado permaneceu fixo na minha memória, incomodando-me como uma ferida que se recusa a fechar. O puxão involuntário que senti durou apenas o tempo de um batimento cardíaco antes que meus assessores me direcionassem para o veículo, e a rotina sufocante de reuniões e exames me impediu de ordenar uma busca imediata. Minha atenção precisava estar concentrada na noite de hoje.
O salão principal da mansão de veraneio abrigava o baile beneficente anual da nossa fundação. Para as colunas sociais e para os empresários que exibiam suas joias sob os lustres de cristal, o evento representava o ápice da filantropia da elite. Para os Von Valkis, contudo, a festa funcionava como uma triagem meticulosa. Há décadas, utilizávamos a recepção para coletar e testar de forma velada amostras sanguíneas de mulheres selecionadas de várias linhagens. Consumir o sangue com a compatibilidade celular exata aliviava os sintomas da minha degeneração por alguns meses, limpando a queimação interna e me permitindo conduzir a empresa sem demonstrar fraqueza. Mas aquilo era apenas um paliativo paliativo. A resolução definitiva, a quebra da restrição genética que encurtava meus dias, dependia do encontro com a mulher cujo sangue fosse o encaixe perfeito para gerar um herdeiro. Sem essa continuidade, meu organismo cederia antes do inverno.
Fechei a porta pesada de madeira do meu escritório de apoio, reduzindo o eco da orquestra a um zumbido distante, e encarei a mulher que me esperava perto da lareira apagada. Cassandra vestia um longo em tom esmeralda que contrastava com a rigidez de sua postura.
—Meus pais foram bastante claros na última reunião do conselho, Cassandra —falei, caminhando até a mesa de centro sem pressa —, e eu não costumo ignorar as avaliações deles. O nosso arranjo chegou ao fim.
—Você está encerrando tudo como se estivesse descartando um fornecedor antigo —a voz dela saiu ligeiramente mais alta, carregada de uma indignação que ela tentava controlar —. Depois de todas as concessões que fiz? Das barreiras que ergui com a minha magia para manter o seu sistema circulatório funcionando?
Virei-me devagar, ajustando o tecido do punho do meu paletó. Meu olhar não trazia nenhuma concessão emocional.
—Nós dois estabelecemos os limites desde o primeiro dia. O nosso envolvimento sempre foi uma engrenagem útil para unificar as nossas corporações, e a sua ascendência como bruxa tornou o processo conveniente para ambos os lados. Você me garantiu estabilidade temporária através dos seus rituais, e em contrapartida o clã da sua família obteve a proteção de mercado e o aporte financeiro que precisavam para operar entre os humanos. Mas a compatibilidade falhou. Meu corpo está rejeitando os efeitos das suas poções.
—Eu realmente dediquei tempo a você, Valerius —ela deu dois passos na minha direção, as pupilas estreitadas pelo orgulho ferido —, acreditei que essa postura indiferente fosse apenas um mecanismo de defesa, mas você se comporta exatamente como o monstro pragmático que descrevem nos relatórios. Não farei nenhuma oposição pública, os acordos comerciais entre as nossas firmas permanecem intocados. Mas o suporte da minha magia deixa de existir a partir deste minuto. Quero ver quanta resistência esse seu sangue misturado possui sem a minha intervenção.
—O suporte anterior foi devidamente compensado —respondi, estendendo a mão para indicar a saída —, tenha uma boa noite, Cassandra.
Ela passou pelo batente da porta com passos firmes, deixando o ambiente impregnado com o rastro do seu perfume denso. Respirei fundo, sentindo um espasmo agudo pressionar minhas costelas inferiores. Sem a contenção que ela fornecia, o processo de degradação ganhava velocidade.
Deixei o aposento e desci a escadaria curva de mármore que dava acesso ao salão principal. A densidade do ar, o odor de espumante e a mistura de fragrâncias caras me atingiram assim que pisei no último degrau. Cumprimentei dois diplomatas e um diretor de fundo de investimentos com um aceno protocolar, mantendo a expressão controlada que o mercado financeiro esperava de mim.
Foi quando a minha percepção espacial se alterou por completo.
Uma vibração seca subiu pelos meus calcanhares, tão intensa que os três anéis de obsidiana pareceram ganhar peso contra a minha pele. O instinto territorial do lobo despertou com uma crueza que eu nunca havia experimentado antes, forçando-me a parar no meio do corredor de passagem. Desviei a atenção dos convidados, ignorando as saudações, e fixei os olhos na extremidade esquerda do recinto.
Atrás de uma das bancadas de atendimento do buffet, recolhendo os cristais usados com um uniforme padrão de serviço, estava ela. A mesma mulher que havia desaparecido na névoa de Manhattan.
Eu desconhecia sua identidade, mas a intensidade da atração física e energética que emanava daquela figura era impossível de ignorar. O adorno escuro que ela trazia no pescoço parecia gerar um atrito direto com a minha própria atmosfera. Era uma incongruência completa que ela estivesse ocupando a posição de funcionária temporária dentro da propriedade da minha família, poucas semanas após ter sido vista em condições de extrema vulnerabilidade na rua.
Chamei Gideon com um movimento sutil com os dedos. O chefe da segurança se posicionou ao meu lado em poucos segundos, mantendo a postura neutra.
—Aquela mulher recolhendo as taças na ala leste —falei, mantendo a linha de visão fixa nela —, consiga todas as informações disponíveis. Nome, antecedentes, situação financeira e o registro da agência de contratação. Quero a documentação sobre a minha mesa antes do término do próximo protocolo. Vá.
—Entendido, senhor —ele respondeu, afastando-se sem causar alarde entre os convidados.
Senti uma pressão suave no meu antebraço direito. Minha mãe, Elena, havia se aproximado sem que eu percebesse seus passos. Seus olhos focados de loba acompanharam a direção do meu olhar e sua expressão perdeu a cor habitual ao notar a rigidez da minha postura.
—Valerius, a sua frequência está desregulada —ela murmurou, a voz restrita para os meus ouvidos —, consigo perceber a variação da sua temperatura daqui. É a pessoa daquela noite?
—A fisionomia é a mesma, mãe —respondi, sentindo os dentes de trás rangerem —, mas o puxão está muito mais agressivo agora.
Elena observou o movimento dos garçons, certificando-se de que nenhum humano estivesse prestando atenção à nossa conversa, e buscou um objeto pequeno no bolso interno do seu traje de festa. Era o amuleto de prata fundida da família, uma peça trabalhada com sangue antigo que servia para identificar a compatibilidade sanguínea e a pureza de linhagem necessária para a cura.
—Segure isto —ela transferiu o metal frio para a minha palma —, direcione a sua atenção para ela utilizando o reflexo do espelho lateral do salão.
Fechei os dedos ao redor do artefato. Olhei para o grande espelho de moldura escura fixado na parede oposta, alinhando discretamente a direção do amuleto com a imagem refletida de Thalia.
A reação foi imediata. A prata atingiu uma temperatura elevada em segundos, revelando uma pulsação carmesim e violeta tão densa na minha visão sobrenatural que precisei conter o impulso de abrir a mão. O comportamento do amuleto indicava algo que ia muito além de uma doadora comum para aliviar minhas dores temporárias. Ela carregava a assinatura genética ideal. A linhagem exata que a tradição apontava para gerar o descendente e encerrar o colapso do meu organismo de forma definitiva.
Enfrentei o olhar da minha mãe. Elena cobriu os lábios com os dedos, as lágrimas surgindo nos cantos dos seus olhos ao compreender o significado daquele brilho.
—É ela, Valerius —ela sussurrou, a voz oscilando pela intensidade do momento —, a garota está dentro da nossa casa. Você tem a chance de reverter esse quadro.
Permaneci imóvel por alguns instantes, o coração batendo com uma força incômoda contra a parede torácica. Voltei a observar Thalia. Ela continuava organizando as bandejas, totalmente alheia ao fato de que os testes da minha família haviam acabado de vinculá-la ao futuro de toda a nossa estrutura. Iniciar uma abordagem direta com uma funcionária do buffet no meio de um evento social, propondo os termos de uma gestação contratual, seria um erro tático grave. Ela reagiria com repulsa ou pânico.
Girei o corpo em direção ao corredor interno e retornei para a privacidade do escritório. O momento exigia cálculo, não impulsividade.
Pouco tempo depois, Gideon entrou no aposento e depositou uma pasta de papel texturizado sobre a escrivaninha de mogno.
—Os dados foram levantados, senhor Von Valkis —ele relatou, assumindo a posição de descanso —, o nome registrado é Thalia D’Avila. Os apontamentos recentes revelam uma situação bastante delicada.
Abri o arquivo, passando os olhos pelas informações coletadas. O relatório financeiro detalhava uma ruína completa. O antigo parceiro havia esvaziado os saldos bancários associados ao nome dela antes de romper o vínculo. O responsável pelo imóvel onde ela residia havia executado uma ordem de despejo sumária logo após o período da tempestade. Ela vinha utilizando vagas de alojamento provisório voltadas para trabalhadores sazonais e aceitando tarefas temporárias de curtíssimo prazo para evitar a falta de recursos básicos. Ela estava encurralada pelas engrenagens do sistema humano.
Fechei a pasta devagar, alinhando as bordas do papel enquanto desenhava as etapas do plano na minha mente. A fragilidade material daquela mulher era o elemento que tornava a minha abordagem viável.
—Gideon —chamei, encarando o funcionário —, faça com que o encarregado do buffet dispense Thalia D’Avila das obrigações desta noite imediatamente. Use a justificativa de uma alteração no cronograma de serviços, mas assegure-se de que o valor correspondente ao período integral seja pago em triplo. Depois, oriente a equipe de transporte para conduzi-la pela saída de serviço diretamente até esta sala.
—O senhor pretende apresentar as condições neste momento? —ele questionou, confirmando as ordens no tablet de serviço.
—Sim —respondi, abrindo a divisória inferior da mesa para recolher a minuta do documento de transição —, providencie os termos do contrato. Vou disponibilizar uma quantia que ela não acumularia em várias décadas de trabalho, além de uma participação de dez por cento nas cotas da divisão de biotecnologia. Em contrapartida, ela assinará a permanência de um ano. Ela fornecerá o material genético e o sangue necessários para a manutenção da minha saúde e para a vinda do herdeiro. Diante das opções que restam a ela, a recusa é improvável.







