Contrato Com O Alfa Híbrido
Contrato Com O Alfa Híbrido
Por: Beatriz Borges
O Peso da Chuva

O Peso da Chuva

Thalia D’Avila

Nova York, Manhattan

A umidade do apartamento parecia impregnar tudo, desde o colchão fino até o tecido gasto do meu casaco. O barulho da chuva contra o vidro trincado da janela não era um som relaxante; era um estalo irritante, constante, que competia com a batida descompassada no meu peito. O ar cheirava a borra de café amanhecido e àquela infiltração antiga que manchava o teto de gesso. Mas havia algo mais. Um peso invisível, sufocante, que se instala em um cômodo quando duas pessoas chegam ao limite absoluto do que podem suportar juntas.

Nos últimos anos vivendo entre os humanos, notei que eles possuem uma habilidade quase invejável de ignorar o colapso iminente. Eles continuam fingindo que as estruturas estão firmes até que as vigas caiam sobre suas cabeças. Eu não tinha o direito de ser tão cega. Sob a gola da minha blusa, o colar de turmalina negra que minha mãe prendeu ao meu pescoço antes de ser executada pesava contra a minha pele, enviando pequenos alertas nervosos que faziam meus músculos se contraírem. O ambiente estava instável. Perigoso.

Thomas empurrou mais um bolo de roupas de qualquer jeito para dentro da mala de lona. O zíper emperrou na barra de uma calça jeans, e ele soltou um xingamento baixo, puxando o metal com uma força desnecessária. Ele evitava olhar nos meus olhos. Seus movimentos eram rápidos demais, os dedos ligeiramente trêmulos denunciando o pânico que ele tentava mascarar com aquela postura rígida de quem se considera o dono da situação. Ele havia esvaziado nossa conta bancária poucas horas antes. Cada dólar que acumulei dobrando turnos em lanchonetes barulhentas e esfregando o chão de escritórios na Times Square tinha sumido.

—Você não pode simplesmente levar tudo —falei. Minha voz saiu firme, embora o tom baixo carregasse a frieza de quem já sabia a resposta.

Thomas soltou um estalo com a língua, um som agudo e sem nenhuma graça verdadeira. Ele finalmente soltou a mala e se virou para comigo, cruzando os braços sobre o peito. Aqueles olhos castanhos, que no início me pareceram um refúgio seguro, agora pareciam opacos, planos como duas poças de água suja.

—Eu posso e já fiz —ele deu um passo em direção à cama —, Thalia. Quem aqui trabalhou para manter as aparências? Eu passei dois anos arrastando uma mulher sem passado pelas costas. Você não tem um maldito documento oficial, não tem família, não tem um sobrenome que eu consiga rastrear em cartório nenhum. Tudo o que compramos, o contrato de locação, as contas, tudo está no meu nome. O dinheiro é meu por direito legal. O resto é consequência sua.

A turmalina negra no meu peito esquentou de repente, uma queimação súbita que fez minha respiração falhar. Era o aviso do que estava trancado sob a minha pele. O monstro nas minhas costelas queria se libertar, queria cravar as garras na garganta daquele homem medíocre até fazê-lo engolir cada palavra. Se Thomas tivesse a menor noção do sangue que corria nas minhas veias, ele estaria rastejando no chão de taco quebrado implorando por ar. Mas eu precisava continuar humana. Para sobreviver ao exílio, eu precisava aceitar o sangramento deles, a vulnerabilidade deles, as humilhações deles.

—Sustentando? —deixei que uma risada curta e sem humor escapasse —. Eu passava dezesseis horas em pé enquanto você enterrava o salário do seu emprego medíocre em mesas de pôquer clandestinas no Queens. Eu sei o cheiro com que você voltava de madrugada, Thomas. Não era de baralho. Eu engoli o meu orgulho por meses para não quebrar a ilusão de que tínhamos algo real. Mudei minha rotina inteira para caber nesse seu espaço insignificante.

—Ninguém obrigou você a ficar —ele rebateu, apontando o indicador na direção do meu rosto, a voz subindo um tom —. Você era uma maltrapilha de rua quando eu te encontrei. Uma garota perdida que não sabia nem dizer de onde tinha vindo ou para onde estava indo. Eu te dei um teto estável. Mas cansei. Cansei de deitar na cama com alguém que parece um cadáver ambulante. Você é distante, Thalia. Tem segredos demais, silêncios demais. Eu mereço uma mulher comum, alguém que não pareça que vai sumir no ar se eu piscar os olhos.

As palavras dele bateram contra mim com o peso incômodo da verdade. Eu era exatamente isso ali. Um fantasma tentando ocupar um espaço físico na história de outra pessoa. Uma loba exilada, uma bruxa sem linhagem viva, arrancada da minha própria terra depois de ver o corpo da minha mãe tombar na neve de Vaelenor. O cansaço de manter aquela mentira diária era quase físico.

—Então o plano é esse? —apontei para a mala fechada na cama —. Você limpa o que é meu, me deixa sem um centavo para o aluguel que vence amãnhã cedo e sai pela porta achando que é o injustiçado?

—O mundo funciona assim, querida —ele abriu um sorriso pequeno, um vinco de pura maldade que apagou qualquer lembrança do homem que tentei amar —. Boa sorte lidando com o proprietário do imóvel amanhã. Talvez você encontre outro idiota disposto a te dar abrigo antes que os seus pertences vão parar na calçada.

Thomas segurou a alça da mala de lona e deu as costas. A urgência de avançar sobre ele, de usar a força que o colar tentava reprimir e estraçalhar sua jugular quase me fez perder o controle. Minha visão oscilou, uma névoa dourada ameaçando tomar as bordas das minhas pupilas. Forcei o ar a descer pelos meus pulmões, apertando os punhos com tanta intensidade que senti a ponta das unhas machucarem a carne das minhas palmas.

—Se você cruzar essa porta, Thomas —minha voz cortou o som da chuva, baixa, densa o suficiente para fazê-lo parar com a mão colada na maçaneta —, nunca mais olhe para trás. Porque se a vida colocar você no meu caminho novamente, eu vou garantir que você devolva cada centavo e cada gota de paz que me tirou hoje.

Ele deu de ombros, um movimento indiferente dos ombros, e puxou a porta. O impacto do batente contra a parede ecoou pelo apartamento, seguido pelo silêncio pesado e oco que confirmava a minha nova situação.

Eu estava sozinha de novo. Completamente desamparada.

Caminhei até a bancada da cozinha e puxei os fechos da minha bolsa de couro sintético. Lá dentro, havia algumas notas amassadas de um dólar e algumas moedas de quarto, o suficiente talvez para um café ruim e uma tarifa de metrô. O aviso de notificação de despejo já estava preso com fita adesiva na parte interna da porta, estipulando um prazo final de doze horas antes da troca das fechaduras. Antes de sair, encarei o espelho manchado do banheiro. O reflexo devolvia as sombras escuras sob os meus olhos e uma tez pálida, quase cinzenta, mas o fundo das minhas pupilas guardava uma rigidez que o outono de Nova York não conseguiria quebrar.

Ajustei o casaco de lã gasto ao redor do corpo e desci os lances de escada em direção à rua.

A chuva fina tinha se transformado em um temporal pesado. A água descia em cortinas espessas, chicoteando contra o asfalto e congelando a pele do meu rosto em segundos. Manhattan erguia-se ao meu redor como um aglomerado hostil de concreto e luzes de neon, as poças d'água refletindo o brilho distorcido dos painéis publicitários. Comecei a andar sem um destino exato, sentindo o frio invadir as costuras dos meus sapatos velhos. Cada passo parecia exigir um esforço consciente.

Minha mente, entorpecida pelo frio, recuou no tempo, cruzando as fronteiras invisíveis que os humanos ignoravam. Muito além dali, além das barreiras geográficas e da floresta intransponível de Whispering Crags, ficava Vaelenor. A fortaleza de pedra e gelo onde os Alfas governavam com uma violência aristocrática. Eu ainda conseguia resgatar o odor acre das árvores úmidas, os uivos que cortavam as montanhas durante as caçadas e o calor do sangue derramado nas disputas de território com os vampiros. Minha mãe tinha sido eliminada sob a alegação de alta traição, executada apenas por tentar equilibrar a guerra entregando sua magia de bruxa aos lobos. Antes do fim, ela lançara uma última palavra contra os carrascos. Uma sentença que ainda ecoava entre os anciãos.

E agora, a última descendente daquela linhagem caçada estava prestes a passar a noite ao relento na maior cidade do mundo dos humanos.

Minhas pernas vacilaram quando cheguei à esquina de uma avenida larga, perto de uma fachada de mármore escuro. O letreiro de bronze polido identificava um clube executivo privado, o tipo de estabelecimento frequentado por pessoas que decidiam rumos financeiros sem piscar. Apoiei as costas contra a parede de pedra, escorregando lentamente até sentar no degrau da calçada, tentando usar o recuo da arquitetura para me proteger da agressividade do vento.

A exaustão de anos vivendo como fugitiva desabou sobre mim de uma vez só. Senti uma lágrima quente descer pelo meu rosto, sumindo quase imediatamente sob a água fria que escorria pelo meu cabelo. Eu não tinha uma direção. Não tinha uma única pessoa para chamar por socorro. Se os batedores de Vaelenor aparecessem ali, naquele estado de fraqueza, eu não seria capaz sequer de rosnar antes do golpe final.

O ruído metálico de portas de vidro se abrindo quebrou a constância do som da tempestade. Um pequeno grupo de homens usando ternos sob medida começou a descer os degraus do clube. Eles conversavam alto, rindo de piadas internas sobre fusões, investimentos e números de sete dígitos, agindo como se o temporal ao redor fosse apenas um detalhe cênico. Mas, no centro daquele grupo, vinha alguém que parecia alterar o equilíbrio do ambiente.

Mesmo com a visão prejudicada pelas gotas de chuva e com a minha percepção enfraquecida pela barreira da turmalina, um arrepio áspero subiu pela minha espinha. Era um homem robusto, de ombros largos e uma postura perfeitamente alinhada. O sobretudo escuro de lã pesada cortava o vento com elegância. O cabelo escuro exibia um desalinho milimetricamente natural por causa da brisa, e as linhas do seu rosto pareciam ter sido desenhadas com uma precisão cirúrgica e fria. A linha da mandíbula mantinha-se tensa, os lábios cerrados em uma expressão que flertava com o tédio absoluto.

Os executivos tentavam acompanhar o ritmo dos seus passos, mas ele parecia se mover em uma órbita totalmente isolada, ignorando as tentativas de interação com uma indiferença quase soberana. Em uma das mãos, três anéis de metal escuro captavam a iluminação dos postes urbanos, emitindo uma vibração de energia sutil, imperceptível para os sentidos humanos. No entanto, o meu colar reagiu. A turmalina negra esquentou contra o meu peito com tanta violência que precisei morder o lábio de dentro para conter um gemido de dor. Uma tensão estática, quase palpável, estalou no espaço que nos separava.

Ele interrompeu a caminhada de forma abrupta.

Os homens que o seguiam quase colidiram contra as suas costas, congelando as próprias palavras no meio do caminho. O homem de sobretudo ignorou os chamados confusos dos seus acompanhantes. Com movimentos calculados, ele girou o rosto na minha direção.

Nossos olhos se encontraram através da densidade da chuva.

Os olhos dele eram de um cinza mineral, gélidos e tão focados que pareceram perfurar a penumbra da calçada. Havia uma turbulência silenciosa naquelas pupilas, uma percepção antiga que pareceu registrar a minha presença no instante exato em que recuei contra a parede. Senti uma força magnética me puxar, um impulso irracional que me mandava levantar e encurtar a distância entre nós, sem que minha mente lógica entendesse o comando. Para os humanos ali, ele era o empresário inalcançável, o topo de uma hierarquia financeira. Para micronarrativas ali, naquele milésimo de segundo de colisão visual, ele pareceu o prenúncio de uma ruína inevitável.

Ele deu um passo na minha direção, desfazendo o círculo de homens que o cercava. Suas pupilas não oscilaram, fixas na minha figura ensopada, vulnerável e destruída sentada no chão de pedra.

—Valerius —um dos homens de terno deu um passo à frente, erguendo um guarda-chuva sobre ele —, a escolta já se posicionou na entrada. Precisamos nos deslocar para o centro de convenções antes que as vias principais fiquem bloqueadas.

O homem, Valerius, estacou a poucos metros de onde eu estava. Ele parecia ignorar completamente o fato de que a água começava a marcar o tecido caro de suas roupas. Ele apenas continuou me medindo, rastreando cada linha do meu rosto com uma atenção desconfortável, como se estivesse diante de uma peça antiga que procurava há muito tempo.

—Esperem no carro —a voz dele cortou o ambiente. O tom era grave, controlado, revestido de uma autoridade tão natural que nenhum dos executivos fez menção de discutir.

Ele avançou mais dois passos, parando diretamente na minha frente, transformando sua estatura em uma barreira contra o vento frio que vinha da avenida. Olhei para cima, sustentando o cinza pesado dos seus olhos, completamente alheia ao fato de que aquele homem estava prestes a desmontar o que restava da minha farsa.

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