Mundo ficciónIniciar sesiónApós terminar o café, Ana entra no aposento.
— Senhorita, a carruagem tá pronta pra partir. Já carregamos as verduras que pediu.
Maia deposita a xícara com calma e se levanta.
— Pegue a maleta de tônicos e coloque na nossa carruagem. Antes de voltarmos pra capital, passaremos no mercado pra comprar uns empregados.
— Mas… temos tantos em casa, pra que comprar mais? — Ana pergunta, confusa.
— Por agora é melhor não saber muito. Assim que organizar as coisas, vou te falando aos poucos.
Ana assente e sai pra pegar a maleta.
Chegando no mercado, Maia dá as instruções pro cocheiro antes de ser levada pra uma sala particular. Um homem robusto entra e a cumprimenta com respeito.
— Bem-vinda, senhorita. Temos excelentes criados pra lhe servir. Só não entendi bem o motivo do seu pedido.
— Senhor, afinal, tem o que preciso? Quero exatamente o que pedi. Aqueles que não estão na lista por serem eunucos ou fracos. Mas eles devem ser jovens — ela fala firme.
— Como a senhorita veio sem avisar antes, preciso de um tempo pra verificar — fala, se desculpando.
— Entendo. Quando pode me enviar a resposta?
— Não preciso de muito tempo, apenas um dia. Tenho alguns que me servem em casa, que sobraram da última remessa. Essa nova leva eu ainda tô separando.
— Certo. Preciso que encontre 15 homens. Pode ser menos, mas tem que passar de 10 — Maia fala, se levantando e saindo.
Entrando na carruagem, ela ordena que voltem pra casa.
Ao chegar, Maia vai direto pro aposento da avó. A matriarca, que andava de um lado pro outro com o rosto tenso, muda a expressão na hora assim que vê a neta cruzando a porta.
— Garota! Você ainda me mata de preocupação…
Maia sorri e se ajoelha na frente dela, apoiando as mãos no colo da idosa.
— Vovó… eu avisei que ia na fazenda, deixei até recado. Seu tônico tá quase no fim e, com a correria do meu aniversário chegando, podia faltar e eu não ter tempo pra preparar — fala com a voz mansa, cheia de carinho.
A avó amolece na hora e faz um afago nos cabelos dela.
— Já passou… que bom que voltou logo, minha menina.
— E olha que eu não fui à toa, viu? Aproveitei e trouxe verduras fresquinhas pra abastecer a despensa.
A idosa a olha com os olhos brilhando de amor. Quando Maia completou 12 anos, os pais a confiaram à avó pra que ela fosse educada de acordo com as regras da alta sociedade. Como os pais viviam na base militar perto da fronteira, garantindo a segurança de Telrion, a vida deles era a guerra. Eles só vinham uma vez por ano pra capital, justamente pra visitar e comemorar o aniversário da filha única.
— Maia… você vai fazer 17 anos — a avó comenta, mudando o tom pra algo mais sério. — Sabe que está na hora de escolher um pretendente. Uma moça da nossa linhagem deve se casar antes dos 18.
— Mas vovó… eu sou obrigada a escolher um noivo logo no meu aniversário? — Maia reclama, fazendo um dengo legítimo e murchando os ombros. — Desse jeito eu nem vou aproveitar a minha festa. Fora que eu não quero compromisso agora… queria mesmo era passar um tempo com meus pais na fronteira. Faz anos que não sei o que é curtir a companhia deles de verdade. Nunca entendi essa regra, por que a gente tem que casar tão cedo?
A matriarca segura a mão de Maia e fala com toda a paciência do mundo, como se explicasse um segredo pra uma criança rústica da fronteira.
— Maia, você ainda é muito jovem pra entender as regras desse mundo em que vivemos. Tenha um pouco de paciência, depois conversaremos melhor sobre isso. Mas me conte! O que mais tem aprontado? Temos que deixar a casa perfeita pra receber seus pais.
— Bem lembrado! Vovó, aqui tá seu tônico. Vou correndo procurar a Ana pra arrumar o pátio e os aposentos deles. Quero deixar tudo impecável — Maia fala, já se levantando e saindo apressada, fingindo a mesma empolgação de sempre.
A dama de companhia da matriarca, que observava tudo de canto, comenta sorrindo assim que a porta se fecha:
— A senhorita Maia às vezes parece uma criança travessa. Mas desde que veio morar aqui, ganhou uma maturidade linda. Ela se preocupa de verdade com a senhora.
Com um suspiro farto de saudades, a idosa olha pro teto e responde:
— Ela viveu os primeiros 12 anos da vida dela na terra batida da fronteira. Quando veio pra capital, foi jogada em uma rotina cheia de etiquetas e compromissos que ela nem sabia que existiam. Mas a essência da minha menina não mudou. Ela continua sendo uma garota de ouro.
Ao voltar pro quarto, Maia encontra Ana arrumando a cama. Ela se aproxima da criada e fala bem baixinho:
— Ana, não conte nada do que te falei pra vovó. Ela não deve se preocupar com isso de jeito nenhum.
— Pode deixar, senhorita, não contarei nada.
— Perfeito. A Juliana deve demorar a voltar. Coloquei uma flor na lista que ela não vai conseguir rápido. Isso vai me dar tempo pra preparar uma bela surpresa pra ela.
— Maia, o que você tá pretendendo? — Ana pergunta, curiosa.
— Descobrir até onde chegou a amizade dela com o Ricardo. Mas agora, você precisa ir arrumar o pátio dos meus pais. Eu vou escrever mais uma carta pra ser entregue no Oráculo — fala se movimentando, logo antes de Ana se retirar.
Maia olha pro horizonte pela janela, percebendo que entrou em um caminho sem volta. Os erros do passado não podem se repetir e, para que seu plano funcione, sua bondade agora vai ser apenas pra quem realmente merece.







