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Capítulo 04:O Plano e a Visita Noturna

Maia, após tomar um banho demorado, sentou-se para jantar. O vapor da comida caseira preenchia o ambiente, mas a atmosfera no aposento ainda era de uma quietude pensativa. Ana permanecia ao seu lado, de pé, observando-a com a discrição de sempre, até que Maia decidiu mudar o tom daquela noite.

— Ana, sente-se e jante comigo.

— Não… Isso não é certo, senhorita — falou Ana apressadamente, recuando um passo, surpresa com o convite.

Percebendo a reação defensiva da criada e as barreiras invisíveis que existiam entre elas, Maia falou de forma decidida, sem deixar espaço para discussões:

— Eu decido o que é certo. Sente-se e jante comigo.

Ana obedeceu, acanhada, ocupando apenas a borda da cadeira. Maia terminou sua refeição em silêncio e, ao conclusão, cruzou os braços sobre a mesa, fixando o olhar na moça.

— Ana, você acredita em vida passada ou premonições?

Surpresa, a criada olhou assustada, deixando os talheres de lado.

— Eu… senhorita, nunca ouvi falar de vida passada, mas acredito em pessoas que podem prever o futuro. Por que pergunta? Ouviu algo sobre isso?

— Não. O pesadelo que tive pareceu real demais — respondeu Maia, com a voz baixa e firme. — Na verdade, ser um aviso do que está por vir. Por isso vim para a fazenda; precisava de silêncio para pensar. Sente-se, vou lhe contar tudo.

Ana inclinou-se para a frente enquanto Maia relatava o que vira. À medida que as palavras saíam, o rosto da criada mudava de preocupação para puro horror. Ao terminar de ouvir o relato sobre a traição cruel que a patroa sofrera no "pesadelo", Ana levantou-se num salto, revoltada.

— O que a senhorita pretende fazer? — perguntou Ana, com a voz nervosa e as mãos inquietas.

— Eu estou pensando — respondeu Maia, mantendo a calma.

— Não aceite! Cancele essa festa! — exclamou Ana, com o senso de justiça falando mais alto.

Maia sorriu diante da reação sincera. Aquele momento era o teste que faltava; ver a fúria nos olhos da criada deu a ela a certeza absoluta de que sua lealdade era real.

— Calma. Não posso cancelar. É o meu aniversário e já está tudo preparado — disse Maia, fazendo um sinal sutil para que ela baixasse o tom de voz. — Mas vou precisar da sua total fidelidade e, principalmente, que guarde segredo. O que preciso fazer é impedir que esses fatos aconteçam.

Ana pensou por alguns instantes, e seus olhos brilharam com determinação.

— Entendi. Então vamos pegar esses traidores! — falou ela, agora mais animada.

— Mais ou menos isso. Precisamos de provas e também descobrir se há mais alguém ajudando — explicou Maia, pensativa. — Ricardo é apenas o filho de um primo distante da Majestade. O fato de ele será adotado pelo rei esconde algo muito maior, e eu preciso investigar.

Maia silenciou por um momento. Decidiu omitir a parte que envolvia o General Caspian; preferiu guardar aquele segredo estratégico apenas para si por enquanto.

— O que a senhorita vai fazer primeiro? — perguntou Ana.

— Já escrevi para o meu pai. Só ele tem o poder de descobrir a verdade sobre o passado de Juliana. Mas vamos dar um passo de cada vez.

— Aquela víbora… a senhora devia era expulsá-la de casa logo! — Ana disparou, ainda indignada.

— Para saber o que o inimigo faz, temos que mantê-lo por perto. Ela não pode saber, nem desconfiar de nada. Agora, vamos descansar. Amanhã à tarde, no máximo, voltaremos para a capital.

O cansaço daquele dia intenso finalmente cobrou o seu preço. Elas se prepararam para dormir e, pela primeira vez desde que havia retornado no tempo, Maia sentiu um vislumbre de paz. Para que seu plano funcionasse, era vital ter alguém genuinamente fiel ao seu lado.

No meio da noite, Maia acordou sob a escuridão total do quarto. Sentiu o toque gelado de uma lâmina pressionando seu pescoço, enquanto uma voz sussurrava bem perto de seu ouvido:

— Se não deseja a morte, não grite. Minha lâmina é afiada.

O tom abafado deixava claro que não era um blefe. Uma mão firme e desconhecida tapou sua boca. Maia manteve uma postura surpreendentemente calma e apenas concordou com a cabeça.

— Vou retirar a mão, mas se fizer qualquer movimento para chamar atenção, sua cabeça será o meu prêmio.

O vulto removeu a mão sem pressa. Com tranquilidade, Maia sentou-se na cama, ajeitou os trajes e soltou um riso baixo, carregado de deboche:

— Sua lâmina é mesmo afiada? Que bom. Seria uma vergonha morrer com uma faca cega no meu pescoço.

O homem segurou o cabo da arma com mais força, pego de surpresa pelo sarcasmo dela na escuridão.

— Você sabe quem sou? — a voz perguntou, fria e desconfiada.

— Eu sabia que você viria — Maia respondeu com indiferença, escorando-se no encosto da cama. Mesmo na escuridão profunda, conseguia sentir o poder avassalador de sua presença.

— Você é mais calma do que imaginei — o homem murmurou em um tom baixo, rouco e perigosamente tranquilo. — A maioria das mulheres estaria chorando ou implorando pela própria vida agora.

Maia ajustou a colcha ao redor do corpo e ergueu o olhar na direção dele, desafiando o breu que cobria o rosto do invasor.

— E a maioria dos homens não colocaria uma faca no pescoço de uma mulher adormecida no meio da noite — respondeu ela, com uma frieza cortante.

Um silêncio breve e denso se instalou no quarto antes que o homem soltasse um riso abafado, curto e sem humor.

— Então realmente os boatos não fazem justiça a você. Não é apenas uma marquesa mimada.

Maia estreitou os olhos.

— Depende. Pretende continuar agindo como um reles ladrão de estrada?

O homem inclinou levemente a cabeça, observando-a com uma intensidade que ela quase podia sentir na pele.

— Estou começando a acreditar que os rumores sobre a sua ingenuidade estão completamente errados.

— Já terminou de me avaliar? — perguntou Maia com serenidade. — Ou pretende me matar de uma vez?

— Isso vai depender da resposta que me der agora. Por que mandou aquela carta para a Torre do Oráculo?

— Quero que sobreviva — Maia declarou, baixando ainda mais o tom, transformando a conversa em um pacto compartilhado. — Há um plano silencioso que corre por todo o reino, e ele terá início na minha festa. Não pretendo ser a peça de descarte de ninguém. Por isso, preciso do poder e do alcance da Torre. Existem segredos que vão além do que consigo descobrir sozinha. Assim que eu voltar para a capital, enviarei uma carta indicando o que precisa ser investigado.

O homem deu um passo à frente, a ameaça vibrando em cada palavra:

— Se isso for uma armadilha… eu voltarei. E garanto que não será para conversar.

— Eu não esperaria nada menos de você — ela respondeu, com um aceno sutil de cabeça.

Em um movimento fluido, silencioso e quase sobre-humano, ele desapareceu na escuridão, deixando para trás apenas o rastro do vento frio e uma adaga cravada profundamente na madeira da cabeceira como prova de que tudo aquilo fora real.

Maia caminhou até a cabeceira e arrancou a adaga com força. Ela observou o metal brilhando sob o fraco luar que entrava pela janela. A primeira grande peça do seu jogo de xadrez político estava posicionada. Agora, ela estava pronta para voltar à capital e enfrentar a serpente que dormia sob o seu próprio teto.

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