Capítulo cinco

Engoli o nó que se formou em minha garganta, sufocando-me a cada segundo. Não era o momento de entrar em pânico. Joguei o ar para dentro dos meus pulmões e controlei o tremor que se alastrou por todo o meu corpo.

— Impossível nos conhecermos — meu olhar estava em meus pés, longe do olhar curioso dele —, essa é a primeira vez que vejo o senhor, mas as pessoas costumam dizer que o meu rosto é bastante familiar.

O ranger da cadeira me assustou. Levantei o olhar rapidamente quando o vi arrumar o paletó e caminhar lentamente em minha direção. Meu instinto de fuga fluiu dentro de mim, mas resisti a ele. Eu o encarei e esperei que ele dissesse qualquer coisa.

— Onde está sua filha? — Ele desviou o olhar para além de mim, depois voltou a me encarar com um olhar desafiador.

— Ela… não está aqui — minha voz falhou, o pânico prestes a me dominar outra vez —, ela está com minha mãe.

Ele vasculhou meu rosto como se tentasse me entender ou descobrir quem eu era de verdade. Sua mandíbula travou, seu rosto se tornou ainda mais sombrio.

— Por que eu contrataria uma mulher que não cuida da própria filha? — Ele virou as costas para mim, sua voz rouca e tensa ecoando pela enorme sala. — Se sua filha está com sua mãe, significa que você não conseguiu cuidar dela sozinha.

— Não é isso… — balancei a cabeça francamente, lágrimas perto de serem derramadas —, o que quero dizer é que precisei deixá-la com alguém para vir a essa entrevista. Preciso desse emprego para oferecer a ela uma vida melhor.

— Acha justo abandonar a sua filha para cuidar da filha de outra pessoa?

Um choque percorreu meu corpo com a pergunta dele. Eu deveria ter planejado essa parte. Eu deveria ter pensado com cuidado no que diria a ele. Gabriel não queria me dar aquele emprego; ele era astuto, inteligente demais para contratar qualquer pessoa, e quando olhei nos olhos dele outra vez, tive certeza disso, mas eu o convenceria a me dar essa chance.

— Sei exatamente o que o senhor deve estar pensando — estiquei a coluna, deixando-a o mais ereta possível, ergui o queixo e o encarei com confiança, ainda que meus joelhos tremessem descontroladamente —, o meu marido me traiu e fugiu com sua amante, me deixando na ruína. Ele tirou de mim tudo o que eu tinha. Se eu não conseguir um emprego, posso perder minha filha para sempre. Ficar em casa cuidando dela não é uma opção.

Minha respiração falhou quando ele desviou o olhar. Ele caminhou outra vez em minha direção, passou na minha frente como se eu não fosse nada e voltou a sentar em sua cadeira.

Soltei o ar devagar. Nem tudo o que eu falava era uma mentira, mas eu não fazia ideia se o Gabriel acreditaria em minhas palavras; seu rosto não exibia nenhum sentimento.

Ele se recostou na cadeira giratória, os braços relaxados ao redor do assento, os lábios tensos, nenhum sorriso. Ele não falou nada por longos segundos. Apenas me observou, como se eu fosse um objeto a ser estudado. Eu me obriguei a manter o olhar fixado no dele pelo tempo que precisasse.

O pânico aumentou dentro de mim. Eu sentia que havia feito tudo errado. Três longos anos esperando por esse momento para perder tudo por uma história mal planejada.

— Esteja na porta desse prédio amanhã, às seis horas — sua voz cortou a tensão dentro de mim, me fazendo prender a respiração —, nem um minuto a mais.

— O que o senhor quer dizer? — Minha voz tremeu; entendi perfeitamente o que significavam suas palavras, mas eu queria ter certeza. Eu precisava ouvi-lo dizer outra vez.

— Que você está contratada — ele se levantou e caminhou em direção à porta, sem olhar para mim. — Você é a babá da minha filha e espero realmente que não me faça me arrepender dessa decisão.

Vi o exato momento em que ele me deixou na sala completamente sozinha, antes que as lágrimas inundassem meus olhos e embaçassem minha visão. Caí de joelhos no mármore gelado. O barulho dos meus ossos estalando se misturou com os gemidos que fui obrigada a abafar. Eu consegui, e pareceu tão aterrorizante por um momento que duvidei da minha própria capacidade.

Eu me inclinei de joelhos e deixei que minhas lágrimas molhassem o chão. Aquele era o momento que eu havia esperado por anos. O momento em que eu recuperaria tudo o que havia sido roubado de mim.

— Senhorita Scarlat — uma mão leve tocou meu ombro —, a senhora está bem? Não pode ficar aqui.

Ergui-me rapidamente, olhando para a recepcionista que havia me atendido minutos antes. Enxuguei minhas lágrimas antes de me erguer por completo, limpando minhas mãos na saia amassada. Olhei para a mulher novamente enquanto ela estendia um documento em minha direção.

— O senhor Gabriel pediu para entregar isso à senhora — estiquei os olhos para o documento —, é o contrato de trabalho. Precisa assiná-lo ainda hoje.

Eu não me importava com as cláusulas escritas naquele documento, quais regras eu teria que seguir ou se pagaria multa contratual em algum momento. Agarrei a caneta que estava nas mãos dela e, com a outra mão trêmula, segurei o papel. Folheei o documento, indo até a última página sem ler nenhuma linha, e o assinei.

O olhar assustado da mulher me percorreu quando entreguei o documento assinado e saí.

Eu não tinha mais nada a perder, e eu pagaria qualquer preço para ter minha filha de volta.

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