Capítulo sete

POV Clarice

O vento forte bateu atrás da minha cabeça, bagunçando meus cabelos. Passei a mão ligeiramente suada para controlá-los e continuei andando, apertando a bolsa contra o meu peito, queixo nivelado, olhos para a frente.

Olhei as horas no relógio de pulso; faltavam ainda dez minutos. Olhei para o prédio à minha frente. Lancaster Company não era apenas mais uma empresa, ela era a maior concorrente das empresas da minha família. Quando assumi os negócios e me tornei CEO, tentei ser melhor que eles, tentei alcançar o topo e ultrapassá-los. Fracassei em todas as minhas missões.

Para o mundo, Clarice Bragança estava morta, e os negócios que ela lutou tanto para manter de pé estavam à margem do que sonhei um dia. Três anos sendo invisível enquanto assistia ao mundo que sonhei desmoronando ao meu redor.

Hoje deve ser o recomeço de tudo isso.

Me aproximei da entrada do prédio, procurando uma parede silenciosa para me sustentar. Esse era o meu plano para hoje: conhecer a minha filha e me tornar sua babá. Eu estava tão perto daquilo que almejei que mal podia acreditar.

Fechei os olhos, enquanto meu peito ardia. Meu coração disparou descontroladamente, uma sensação que eu já conhecia tão bem. Um arrepio percorreu minha espinha. Quando abri os olhos, ele estava ali.

Gabriel Lancaster estava do outro lado da rua.

Ele desceu do carro, olhou as horas no seu relógio de pulso, enquanto repousava a outra mão no bolso. Por exatamente dois segundos, seu olhar passeou pela paisagem urbana e finalmente repousou em mim.

Ainda faltavam quatro minutos. Minha respiração falhou.

Ele atravessou a rua e caminhou em minha direção. Esforcei-me ao máximo para não olhar para ele. Eu ainda temia que ele me reconhecesse, que ele ligasse os pontos e descobrisse que sou a mãe da filha dele e que estou aqui para pegá-la de volta.

Um segundo depois, ele está na minha frente. O carro estacionou ao nosso lado; ele abriu a porta para eu entrar. Tentei controlar minha respiração ao olhar nos olhos dele, depois olhei para dentro do veículo na esperança de ver minha filha em algum lugar.

Só havia o motorista no carro.

— Entre, senhorita Scarlet — ele ordenou, seu tom afiado e impaciente —, eu não tenho muito tempo.

Eu não disse nada, nem me afastei como desesperadamente queria. Apertei com força a alça da bolsa e movi o corpo ligeiramente para dentro do veículo, quando a porta foi fechada logo em seguida. Eu estava sob o domínio de Gabriel Lancaster, o homem que eu sempre quis dominar no mundo dos negócios, e que agora me dominava e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar isso.

Era o preço que eu pagaria para ter minha filha de volta.

Ele deu a volta no carro e se sentou ao meu lado. A colônia masculina dele invadiu minhas narinas; meu coração caiu no estômago quando o carro começou a se mover.

— Para onde estamos indo? — perguntei, sem olhar para ele.

— Para minha casa — ele respondeu rapidamente —, você deve saber que mantenho a vida da minha filha bastante reservada. Não há fotos dela nos jornais, nem nas redes sociais. O rosto dela permanecerá escondido do mundo com a promessa de que arruinarei a vida de qualquer um que tornar isso público.

— O que quer dizer com isso? — Um nó sufocou minha garganta quando ele se inclinou para o lado em minha direção e aproximou os lábios dos meus ouvidos.

— Se tivesse lido o contrato de trabalho, senhorita Scarlet, não estaria me fazendo uma pergunta estúpida como essa.

O hálito quente esquentou meu rosto por um segundo até que ele se afastasse.

— Estou entregando em suas mãos o que tenho de mais precioso — eu me virei rapidamente para olhar para ele —, estou dando a você um voto de confiança, não o desperdice. Você não vai me querer como inimigo.

Aquilo era uma ameaça, como se ele pudesse prever minhas intenções. Ele girou o pescoço e me fuzilou com o seu olhar gélido e afiado. Aquele homem não estava brincando, e eu sabia que desafiá-lo não era uma opção.

Ele pegou uma maleta que estava posta em seus pés e retirou uma pasta, me entregando-a.

— Estão registrados todos os horários que minha filha deve cumprir durante o dia. Um motorista estará sempre à sua disposição para qualquer emergência — segurei a pasta que ele direcionava insistentemente em minha direção —, faça tudo o que está escrito aí. Vocês serão acompanhados por um segurança o tempo todo. Nada poderá ser feito fora da agenda sem minha autorização.

Meus olhos caíram sobre a pasta. Aquilo só podia ser uma brincadeira. Segurança? Motorista? Que tipo de prisão aquele homem estava impondo à minha filha?

— Você entendeu minhas ordens?

Como eu a salvaria? Como eu a tiraria desse lugar?

— Você está me ouvindo? — O carro parou quando o encarei, assustada. Meus olhos marejados insistindo em derramar lágrimas e revelar todos os meus sentimentos.

— Eu entendi, senhor — respondi quando travei a língua no céu da boca, não deixando todo o ódio que fluía dentro de mim escapar pelos meus lábios.

Ainda não era hora de fazer perguntas e nem de procurar uma maneira de escapar. Eu só precisava entrar naquela casa e conhecer a minha filha. Observei Gabriel sair do carro e a porta na minha lateral ser aberta.

Desci do veículo com os meus joelhos tremendo descontroladamente. Quando ergui a cabeça, deparei-me com uma mansão.

— Vamos — ele ordenou, caminhando para dentro do lugar; minhas pernas mal me obedeciam —, está na hora de você conhecer a Charlotte, minha filha.

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